Na terra de Baltazar desenha-se um nome para libertar Luís

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Maria Adelina, 78 anos, desenha cada letra do nome sem se distrair da tarefa. Uma mão segura o papel, outra prende a caneta, que não há maneira de se ajustar aos dedos. E as letras saem sem pressas, enquanto um rapaz lhe vai seguindo o traço, apoiando o queixo na mesa do café. Adelina desenha as letras e o 'M' liga-se ao 'a' com "uma perninha", tal qual está no envelope velho que a filha lhe segura em frente aos olhos. Exibe um 'Maria Adelina Ferreira' em caracteres bem grandes, nome que se quer bem copiado. E à medida que a cópia avança a identidade ganha forma, vincada na folha azul de 25 linhas onde, com outros nomes, ela pede a libertação de um homem que foi preso. Um homem que ela só conhece da televisão, casado com uma mulher com um nome igual ao dela e que ninguém sabe onde está. Ela também não quer saber. Sabe apenas que esse homem e essa mulher criaram a filha biológica de Baltazar, rapaz da terra, que Maria Adelina viu crescer, mas nem por isso quer proteger. É o mesmo Baltazar que agora também anda na televisão e nos jornais e que, com ele, arrastou para a fama breve muita gente da aldeia.

Passa das duas horas de uma tarde de sábado em Cabeçudo, a quatro quilómetros de Cernache do Bonjardim (Sertã). No café próximo da igreja, um homem chega com notícias frescas. "Vi a tua mãe na televisão e hoje não estava a chorar", diz uma das mulheres que ocupam as mesas e discutem a melhor maneira de avançar com um abaixo-assinado pela libertação de Luís Gomes, o sargento condenado a seis anos de prisão pelo Tribunal de Torres Novas, por sequestro de E., a filha biológica de Baltazar Nunes. "Ninguém pode ser preso por amar uma criança", diz uma das mulheres enquanto se interroga sobre o local exacto na folha onde descrever o motivo pelo qual ali estão as assinaturas. É um texto breve: "Este abaixo-assinado tem por fim a recolha de assinaturas para que libertem..." Terminada a exposição seguem-se nomes. Cinquenta por folha é o objectivo. E há seis por preencher, "só em Cabeçudo", a terra de Baltazar onde se pede a libertação de Luís. Copiam na forma e na intenção a iniciativa de Isabel, a dona da loja Miminho, que no dia anterior colocou oito folhas iguais àquela em oito estabelecimentos de Cernache, mesmo sem saber muito bem como é o procedimento legal. "Há por aqui tantos advogados mas nenhum me esclareceu sobre o que é preciso para validar isto."

E "isto" é, para já, cerca de uma dezena de assinaturas, "mais aquelas que hão-devir. Toda a gente quer assinar", assegura, depois de atender uma chamada da Sertã. Explica a razão do telefonema: "Queriam saber como podem fazer um abaixo-assinado." Façam como eu, tomem a iniciativa." Ela tomou-a, diz, porque não pode "com injustiças". Explicado o telefonema, falta justificar a tomada de posição. "Aqui todos conhecem a família do Baltazar. Não é má gente, mas não tem condições para receber a criança". Isabel nunca viu E., nem conhece Luís Gomes e de Maria Adelina só ouviu falar, mas não hesita em dizer: "Se fosse comigo, eu também fugiria com a criança."

Em Cabeçudo, as mulheres repetem o discurso de Isabel, num vocabulário enriquecido com nova terminologia. São da terra do pai "biológico", mas preferem que a criança fique com os pais "adoptivos" e, tal como Isabel, também olham para o papel azul sem saber muito bem o que ele significa. "É a nossa vontade", diz uma. Depois de o assinarem, hão-de levá-lo porta a porta e, depois, à saída da missa de domingo.

A estratégia está concertada e a assembleia improvisada passa à análise dos factos. Imita na conversa a argumentação e a paixão de tantas outras conversas em tantos outros cafés do país sempre que o tema é a decisão da juíza de Torres Novas "que mandou prender um homem que não quer entregar a menina que criou a outro". Na linguagem de Olinda, é isto que está em causa. "Aqui todos somos pela libertação", atira como se num referendo que dispensa qualquer contagem. "Se pudesse, ainda punha aqui que queremos que tirem o homem da prisão e o deixem ficar com a menina", acrescenta outra mulher de caneta na mão. "Não pode ser. Isto tem regras", ouve-se ao fundo. E fala-se da falta de condições económicas do pai biológico logo considerado, noutra opinião, argumento insuficiente. "Tudo se cria, o pior é a pouca higiene..." E as vidas de Baltazar, Aidida, Adelina e Luís estão ali à mesa do café por causa de E., a menina de quem todos falam e ninguém sabe onde está.

Sobre tudo isso, Baltazar, que está ali bem perto, fica calado. Goza um fim-de-semana na casa da mãe e justifica o seu silêncio com recomendações dos advogados. Não diz mais nada. E é assim que na aldeia de Baltazar, Baltazar é o único que não fala.

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