Na rota

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O brilho do ouro que adorna a Catedral Basílica de Salvador da Baía, no Nordeste brasileiro, não é suficiente para afastar o grupo do Centro Nacional de Cultura (CNC) do seu objectivo encontrar a sepultura número 14. Por entre as imagens de Santo Inácio de Loiola e de São Francisco Xavier, dois dos fundadores da Companhia de Jesus, o esforço é compensado. Escondido debaixo de um tapete vermelho, à direita do altar, está o túmulo onde se acredita ter sido sepultado o padre António Vieira.

Os restos daquele que Fernando Pessoa apelidou de "Imperador da Língua Portuguesa" já não estão lá, mas a emoção dos portugueses que partiram "ao encontro da sua história" não foi menor. Tal como não foi ao longo da viagem de dez dias que procurou reconstruir a rota de Vieira por terras brasileiras de Salvador da Baía até Belém do Pará, passando por Recife, Olinda e S. Luís do Maranhão.

salvador da baía.

Para fugir aos vendedores de rua que procuram impingir a famosa fita colorida com as palavras "Lembrança do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia" nada melhor do que entrar numa das mais de 150 igrejas da capital baiana, onde a história da presença portuguesa está contada em cada entalhe dourado, azulejo ou trabalho em jacarandá. Um dos mais belos encontra-se na sacristia da Catedral Basílica, que engloba o último remanescente do conjunto arquitectónico do Colégio de Jesus - onde o Padre António Vieira estudou e acabou por morrer, aos 89 anos.

Dos edifícios onde Vieira viveu resta hoje muito pouco, mas a sua memória continua viva na cidade de Salvador, onde esteve 46 anos. Como na Quinta do Tanque, o antigo local de férias e repouso dos jesuítas (do século XVI). A casa onde Vieira, já velho, reescreveu parte dos seus sermões alberga hoje o Arquivo Público do Estado da Baía. No pátio de entrada, um busto e uma lápide descerrada em 1997 - no tricentenário da sua morte - recordam o pregador.

"É oferta da baiana", vão dizendo as vendedoras de rua a quem recusa a fitinha do Senhor do Bonfim, que apesar de não ser o padroeiro de Salvador é um dos de maior devoção na Baía. Uma distracção e já está envolta no pulso. À velocidade com que se apertam três nós, os três desejos são pedidos "Paz, Saúde e Amor."

Grande parte da riqueza no Brasil foi conseguida com o auxílio do tráfico de escravos africanos. Salvador, à entrada da Baía de Todos os Santos, era um dos mais importantes portos de chegada e a cultura africana é hoje parte estruturante da cidade de três milhões de habitantes - 93% dos quais afro-descendentes. A Baía pode não ter as "365 Igrejas" que Dorival Caymmi cantava, mas tem mais de três mil terreiros de candomblé, a religião dos orixás.

recife e olinda.

Se o estado de Pernambuco tem quase a mesma forma e dimensão de Portugal - mas na horizontal - Recife e a vizinha Olinda são Faro. Contudo, as sete colinas de uma das mais antigas cidades do país - começou a ser colonizada apenas três décadas depois da chegada de Pedro Álvares Cabral - lembram Lisboa. Mas onde deveria estar o Tejo, está o oceano Atlântico.

"Oh! Linda situação para se construir uma vila" terá dito Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, quando subiu a uma das colinas, em 1537. Na "Coimbra das Américas", encontra-se o seminário de Olinda onde Vieira leccionou retórica na primeira metade do século XVII.

Hoje, a melhor vista da região obtém-se a partir da varanda da igreja da Sé, a cujo interior a maioria dos visitantes não presta atenção, desejosa de chegar ao exterior antes que o sol se ponha e deixe de iluminar a paisagem. Lá em baixo, depois dos telhados do casario de Olinda, está o antigo porto Recife.

Aquela que muitos apelidam de Veneza das Américas, devido às suas 39 pontes na foz dos rios Capibaribe e Beberibe, devia antes ser considerada a Amesterdão brasileira, pois foi durante os 27 anos que foi capital do Brasil holandês que Recife se desenvolveu - sob a égide do alemão Johann Moritz von Nassau. Isto depois da destruição da Olinda de Vieira, num incêndio durante a invasão holandesa.

são luís do maranhão.

"Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem." Corria o ano de 1654, e celebrava-se o dia de Santo António. Na capela do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, em São Luís, o Padre António Vieira proferia o seu famoso Sermão de Santo António aos Peixes, onde criticava através de parábolas os homens abastados da região.

Hoje, a capela - à entrada da qual o presidente do CNC, Guilherme d'Oliveira Martins, descerrou uma placa de homenagem - é um estaleiro de obras. No centro da igreja encontra-se um andaime que irá servir para restaurar o tecto, quando o dinheiro chegar. Nos nichos e no altar, debruados a azul, não resta nenhum santo. Estão guardados até que acabem as obras.

Quando será? Não existe data. Tal como diz o cartaz à entrada, "a restauração da capela, iniciada pelo Governo do Estado em Julho de 2003, foi paralisada em Outubro do mesmo ano". O texto termina "a qualquer momento, a sua oferta será bem recebida." São precisos 25 mil reais para recuperar o tecto, menos de nove mil euros. No esquema do "mensalão", os deputados aliados do Partido dos Trabalhadores recebiam - por mês - 30 mil reais para apoiar as políticas do Presidente Lula da Silva.

"A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande". Mais de 300 anos depois da sua morte, os textos de Vieira continuam actuais.

santa maria de Belém.

No mercado Ver-o-Peso, antigo entreposto comercial dos colonos portugueses e dos índios, a animação é constante. Desde as frutas até às famosas "mézinhas" para curar qualquer mal, tudo está à venda. Dizem que Belém do Pará é a porta de entrada para a Amazónia, mas do grande pulmão do planeta o grupo só pode ver ao longe pequenos pedaços de selva, rodeados pelos iguarapes, braços de rio que formam o delta do Amazonas.

Quando os portugueses partiram do Maranhão, a 25 de Dezembro de 1616 com o objectivo de descobrir a linha do tratado de Tordesilhas e proteger o seu território, não encontraram melhor lugar do que na ilha a que chamaram de Feliz Lusitânia. No ponto mais alto da região, ergueram o Forte do Presépio. Todo o núcleo cultural da Feliz Lusitânia foi recuperado recentemente, tendo sido desenvolvido - dizem - um dos melhores museus de Arte Sacra do Brasil. Na Igreja de Santo Alexandre, que esteve várias décadas ao abandono, podem ver-se os retábulos em cedro vermelho trabalhados pelos índios.

Nos céus de Belém, alheios à presença humana, dezenas de urubus voam em círculos à procura de restos de alimentos. "Fora os urubus!", terão gritado os habitantes de Belém quando expulsaram os jesuítas da cidade, em 1758. Descontentes com as críticas à forma como os índios e escravos eram tratados e com o facto de os jesuítas não pagarem impostos comerciais, os colonos expulsaram-nos.

O Padre António Vieira foi um dos que foi obrigado a sair tendo, diz a história, procurado refúgio na igreja de S. João Baptista - na altura a Sé provisória - até chegar o barco onde fugiu. Vieira regressaria mais tarde ao Brasil, mas já não ao Pará.

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