Para lá do chicote (e agora a Palma de Ouro de honra) de Harrison Ford/Indiana Jones, da vinda de vedetas convidadas por marcas que por cá fazem eventos e pelo furacão Saint Laurent/Almodóvar, a competição do festival tem estado num bom nível. No meio do frenesim mediático há cinema e neste arranque da corrida à Palma de Ouro dois filmes de latitudes opostas a abordar de alguma forma a questão da identidade sexual na primeira idade. Ou seja, a infância e a adolescência como motor de ebulição dos corpos. Acontece em Monster, de Hirozaku Kore-eda, e Le Retour, de Catherine Corsini..No primeiro, temos o cineasta japonês a filmar um incidente numa escola primária de uma cidade costeira japonesa. Temos o olhar de uma criança supostamente vítima de bullying, mas também o do professor que supostamente a agrediu. Depois, outras camadas de twist para chegarmos a uma atração entre dois meninos que pode ser mais do que uma amizade. O assunto é abordado com um tato e delicadeza enormes, confirmando a vocação deste vencedor da Palma de Ouro por Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões para entrar pelo interior do universo infantil..Por sua vez, Corsini em Le Retour põe-se na pele de duas jovens adolescentes que regressam à Córsega de onde partiram há quinze anos. Será um verão em que as duas se vão apaixonar, a mais velha por uma outra jovem descobrindo a sua identidade sexual. O chamado "coming of age" sem grandes surpresas nem rasgos mas com valores emocionais bem geridos. Um filme que chegou a Cannes depois de haver uma investigação que terá obrigado a realizadora a cortar uma cena de sexo lésbico entre as duas atrizes menores. Corsini, conhecida por ser ativista das causas queer, já veio a público garantir que houve um exagero nessa censura e que sempre protegeu as suas jovens atrizes. Importa também referir que, mesmo assim, há sexo entre as jovens e sem receio de expor os corpos femininos..Curiosamente, num filme gay que passou na Quinzena dos Realizadores, Un Prince, de Pierre Creton, a maior parte do sexo que se encena é entre homens na terceira idade. Na sessão oficial que provocou risos de perplexidade pelas ménages-à-trois das personagens com corpos envelhecidos, Creton foi descrito como um dos "maiores cineastas franceses". Até o próprio ficou espantado com a designação, mas uma coisa é certíssima, nesta utopia de fetichismo de botânica-fálica há qualquer coisa da irreverência de César Monteiro.