Na casa dos monstros que inspiram Guillermo del Toro

At Home with Monsters, em exibição até novembro no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, mostra objetos que têm inspirado o realizador
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Esta casa não é para mentes impressionáveis nem para pessoas com medo do escuro. Aqui há monstros, aberrações, espíritos e imagens capazes de visitar a memória em noite de insónia. São pedaços do oculto e do fantástico que têm inspirado o realizador Guillermo del Toro e residem na sua estranhíssima Bleak House. Agora, fazem parte de uma exposição incrível no Los Angeles County Museum of Modern Art (LACMA), Guillermo del Toro: At Home with Monsters.

A exposição abriu neste fim de semana com a presença do cineasta e autor, conhecido pelos filmes Hellboy, O Labirinto do Fauno e Crimson Peak - A Colina Vermelha, entre outros. É composta por 500 artefactos e inclui 60 peças da exposição permanente do LACMA. O DN esteve na pré-apresentação, na qual Del Toro falou sobre o que o assombra acompanhado do CEO do museu, Michael Govan, e da curadora da exposição, Britt Salvesen. At Home with Monsters está dividido em oito áreas e teve alguns artefactos adicionados à última hora, depois de anos de preparação.

"Foi uma jornada e tanto. Parecia uma boa ideia há alguns anos, mas esta separação é difícil", brincou Del Toro, referindo-se à ausência temporária dos seus objetos como uma "amputação". O cineasta mexicano, de 51 anos, não se considera um colecionador, mas sim um acumulador. "Para mim, aquela casa é um santuário", admitiu.

"Quem vir os meus filmes vai perceber que adoro monstros. Acho os humanos bastante repulsivos." Del Toro diz estas coisas sem ironia. Nascido em Guadalajara e educado sob um catolicismo fervoroso, o autor sempre se sentiu mais à vontade com monstros do que com santos e virgens. "Via no Frankenstein uma criatura bela e inocente que foi sacrificada, e encontrei nestes monstros a essência do outro, com que me identificava totalmente", contou. "Estes monstros não fingiam ser algo que não eram e apresentavam-se com uma essência que me comovia profundamente."

Pode dizer-se que o monstro criado pelo cientista de Mary Shelley, Frankenstein, é uma das presenças mais fortes da exposição. Na área que lhe é dedicada podemos ver uma escultura em tamanho real de Boris Karloff, que interpretou o monstro no célebre filme de 1931, com Jack Pierce a caracterizá-lo para uma cena. Há bustos, livros e outras imagens dedicadas ao monstro que tanto inspirou o jovem Del Toro.

"Nada é mais atraente que a fantasia. As histórias dizem-nos algo sobre nós mesmos." Para o cineasta, os humanos vivem num estado de fingimento perpétuo. "Uma série de fantasias que aceitamos socialmente, mas são aterradoras. Como a geografia, o género e a raça. Estas são fações aceites com as quais conseguimos separar-nos uns dos outros."

A inspiração de Del Toro

A exposição está dividida em oito áreas: Infância e Inocência, Vitoriana, Magia, Alquimia e Oculto, Filmes, Banda Desenhada e Cultura Pop, Frankenstein e Horror, Freaks e Monstros, Morte e Além. Há armários cheios de objetos estranhos, como mãos ensanguentadas, esqueletos e caveiras, entranhas e bebés deformados; um relógio antigo com um conde drácula; insetos emoldurados e várias esculturas em tamanho real. O ambiente sonoro é arrepiante e há monitores com montagens que resumem o seu trabalho à luz das influências de cada área.

O interessante nesta mistura bizarra é que tanto vemos desenhos originais de filmes da Disney dos anos 50 como imagens horríficas de deformações.

Também é possível viajar pela mente de Del Toro nos seus quatro livros de apontamentos, que foram digitalizados e podem ser lidos em ecrãs tácteis. Estão escritos em espanhol e nalgumas páginas são caóticos e febris. Também há vários desenhos a lápis do próprio cineasta, com arte concebida para os seus filmes mais marcantes, e monstros usados nestas obras.

É um deles que recebe o visitante à entrada da exposição: o anjo da morte de Hellboy II não é tão assustador quanto impressionante. Lá dentro sim, há um par de imagens capazes de dar a volta ao estômago. Como o Pale Man sem rosto, com um olho na mão, ou as mulheres mortas de Crimson Peak. Pelo meio, uma obsessão com Edgar Allan Poe, a Medusa da Casa Assombrada da Disney, a inspiração de Pacific Rim e Johnny Eck, The Half-Boy, de Thomas Kuebler.

Todos estes objetos vão residir no LACMA até 7 de novembro. Depois, a exposição viaja até ao Minneapolis Institute of Art (fevereiro a maio de 2017) e para a Art Gallery of Ontario (setembro de 2017 a janeiro de 2018). A seguir regressam à Bleak House. "Estou a tentar criar um sistema para que quando eu desaparecer a casa fique como está", adiantou o criador. "Odiaria que fizessem um leilão, que dispersassem as coisas. Gostava que lá vivesse alguém."

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Em Los Angeles

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