"Na Argentina, perguntamos como estão o tempo, o trânsito e o dólar"

A moeda americana é, mais uma vez, protagonista das eleições com um candidato, Milei, a prometer a dolarização da economia. Mariana Luzzi, autora de livro sobre o tema, detalha a obsessão.
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Nos Estados Unidos há o dólar, ponto final. Entretanto, na Argentina há o dólar oficial, ponto de partida, porque além dele há o dólar blue, o vendido nas ruas ao dobro do valor do primeiro, e o dólar turístico, para os cartões de crédito dos visitantes.

Há ainda, na contabilidade do apresentador de rádio Patrício Barton, o dólar Qatar, pelo qual os adeptos argentinos que foram ao Mundial de Futebol de 2002 se regeram, o dólar luxo, para bens muito caros, o dólar soja, para exportações do grão, o dólar líquido, o das reservas bancárias, ou o dólar futuro, aquilo que a moeda pode valer daqui a um ano.

À margem deles nasceu o dólar Coldplay, pago especialmente à banda após 15 concertos no país no ano passado, o dólar cabeça grande e o dólar cabeça pequena, tendo em conta o tamanho da representação dos heróis americanos nas notas, sendo que os primeiros, mesmo iguais aos segundos, valem mais. E o dólar amigo, como os argentinos chamam àquele que é trocado a uma boa taxa de câmbio. Lendo os jornais ainda se encontra referências ao dólar Netflix e ao dólar Spotify.

O dólar gerou até novas palavras nos dicionários tradicionais, como notou Santiago Kalinowski, diretor do Departamento de Linguística da Academia, na BBC News Mundo. "Verde", nos dicionários, já não é só uma cor, é dólar.

"Arbolito" (arvorezinha) são as pessoas plantadas nas ruas a gritar "cambio", "bicicleteos" (pedaladas), as mudanças especulativas da manhã para a tarde do valor do dólar, "cuevas" (cavernas), as casas de câmbio ilegais, e por aí adiante até à letra Z.

Para entender as razões da obsessão dos argentinos com a moeda dos Estados Unidos, quando tudo começou e onde pode parar se Javier Milei, candidato de extrema direita que tem como promessa principal abolir o peso e dolarizar a economia do país, o DN falou com Mariana Luzzi, a coautora, ao lado de Ariel Wilkis, do livro El dólar: Historia de una Moneda Argentina (1930-2019). O título, para já irónico, pode deixar de o ser, caso Milei vença no domingo o adversário peronista Sergio Massa, atual ministro da Economia.

Luzzi explica que "na Argentina, o mercado imobiliário já é dolarizado, desde mais ou menos os anos 80, ou seja, para ter uma casa, sonho de todas as famílias, há que ter dólares, noutras áreas, entretanto, como na produção agropecuária, a referência dos gramas e dos quilos é o dólar e, em vários setores, como o automóvel, o dólar foi dolarizado, hoje não está".

"Por isso, na Argentina, diz-se que perguntar como está o dólar é como perguntar como está o tempo, como está o trânsito", completa.

"Tudo isto é fruto, de acordo com o que investigamos, de um longo processo histórico, não foi por causa de um evento, de uma crise, de uma decisão de uma autoridade, mas podemos dizer que no final dos anos 50, uma época de reformas económicas e políticas, de abertura da economia ao capital externo, dos primeiros acordos com o Fundo Monetário Internacional e outros organismos internacionais, o dólar começa a ser muito falado na imprensa especializada".

"Depois ", prossegue a escritora e pesquisadora da Universidad General Sarmiento, "já nos anos 70, salta das páginas de economia e chega às primeiras páginas, às manchetes, deixa de ser assunto apenas das empresas e passa a ser assunto de todas as famílias, da classe trabalhadora".

E a dolarização que Milei pretende impor tem lógica? "Tem lógica, claro, tendo em conta os princípios que Milei defende, o problema não é ser ilógico, é poder ser catastrófico", adverte a académica.

Para Luzzi, "ele quer zero Estado, ou quase, sem Banco Central, sem que o governo argentino possa emitir moeda, ele pretende fazer com que o Estado, ao parar de emitir moeda, fique, como ele próprio disse, de mãos atadas, bom, mas, assim, fica de mãos atadas ao banco federal dos EUA...".

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