Ver esta segunda-feira a notícia de que Elon Musk ia sair do comando do Twitter "porque as pessoas escolheram" - em alusão à "sondagem" que fez, através da sua conta, perguntando se devia continuar como CEO, sim ou não, com um resultado de quase 60% dos mais de 17 milhões de "votantes" a favor da sua saída - fez-me sorrir..E não apenas porque Musk já dissera em novembro que tencionava ficar pouco mais tempo a gerir diretamente a empresa, o que significa que, fosse qual fosse a resposta, a sua decisão estaria em princípio tomada..É que tudo nesta pretensa sondagem é obviamente uma fantochada..A começar pelo facto de que qualquer conta de Twitter, correspondendo ou não a pessoas reais, sendo ou não simples "bots" criados precisamente para campanhas de influência, podia nela "votar". E terminando na ideia de que poderia haver uma espécie de advento de "democracia direta" a acontecer pela mão do alegado "homem mais rico do mundo" - o mesmo que é conhecido por não deixar os seus empregados sindicalizarem-se, que começou a sua gestão do Twitter despedindo à pazada milhares de funcionários (alguns dos quais convidou, logo de seguida, a regressar, por constatar que a empresa não podia funcionar sem eles), recusando, segundo o que é noticiado, pagar o que é por lei devido aos despedidos (na perspetiva de que a maioria não terá energia nem dinheiro para o processar nos tribunais), e deixando também de pagar o aluguer dos espaços ocupados pela empresa, supostamente no fito de levar os respetivos proprietários a baixar o valor dos arrendamentos..É este capitalista selvagem, sem o mínimo respeito pelas pessoas e pela lei, que conta com o facto de ter muito dinheiro e, logo, muito poder para vergar todos à sua vontade e capricho, que ia acatar decisões de milhões de contas de Twitter do mundo inteiro? Pá, há limites para a tolice noticiosa, não?.Claro que no dia seguinte - terça - as notícias já eram de que Musk pondera só permitir aos utilizadores que pagam certificação (uma invenção sua com semanas, a de que o sinal de "conta verificada", antes atribuído pelo Twitter como forma de garantir que uma conta era mesmo de quem dizia ser, passa a ser concedido mediante o pagamento de oito dólares/mês) a participação nestas "sondagens"..Aliás, agora quase todos os dias Musk, que tem mais de 120 milhões de seguidores, faz uma "sondagem" sobre decisões da empresa, numa mascarada de "gestão por democracia direta" a lembrar a imagem cinematográfica dos imperadores romanos a perguntar ao povo sentado no Coliseu quem deviam ou não poupar - mesmo se a citação latina que escolheu para lançar a primeira, "vox populi, vox dei" (a voz do povo é voz de deus) tem um sabor mais medieval..A última sondagem antes da acima mencionada foi para perguntar se devia permitir o regresso ao ativo das contas de vários jornalistas que suspendeu na quinta-feira, com a alegação (ao que tudo indica falsa) de que tinham divulgado a sua localização exata quando estava acompanhado dos filhos. A "vox populi" foi afirmativa, e as contas, cuja suspensão levou a Comissão Europeia a avisar a plataforma de que pode ser sujeita a sanções e até impedida de operar na Europa, estão a ser recuperadas..A decisão de suspender os ditos jornalistas é tanto mais interessante quando surge no meio da divulgação dos "Twitter Files" - a revelação que está a ser feita, por vários jornalistas "escolhidos" a quem Musk está a dar acesso a partes dos arquivos da empresa, de conversas escritas entre administradores e funcionários do Twitter a propósito da possibilidade de suspender determinadas contas, como a do ex-presidente Trump (banido da plataforma em janeiro de 2021, após o assalto ao Capitólio, por, foi então explicado, representar o "risco de mais incitamento à violência")..Ao mesmo tempo que vende a sua gestão do Twitter como um triunfo da liberdade de expressão e da transparência, pretendendo "desmascarar" aquilo que qualifica como uma manipulação da anterior administração da empresa a favor dos "liberais" (entendidos como esquerda não-conservadora), e a alegada interferência das agências de informação americanas na plataforma, Musk suprime, sem conseguir concretizar a razão - quando solicitado, num espaço de debate de viva voz, ou seja áudio, no Twitter, a identificar os tuites específicos que tinham levado à suspensão, saiu sem responder - contas de jornalistas que se notabilizaram pela cobertura crítica da sua atividade..Digamos que dificilmente se arranjaria uma mais flagrante contradição entre a propaganda e a realidade: é que ao menos no caso da suspensão de Trump não só existiu à época uma justificação oficial da empresa como, ao que nos é dado ver pelos excertos de conversas entre funcionários da plataforma que estão a ser "leakados" nos Twitter Files, teve lugar uma aturada discussão, com pontos de vista diferentes, sobre se os tuites do então ainda presidente dos EUA infringiam ou não as regras do Twitter. Do arauto da transparência que é o atual CEO não nos chega nem um print dos tuites dos jornalistas banidos que teriam justificado a suspensão, quanto mais a troca de emails ou mensagens - a ter existido, claro - entre ele e os seus funcionários sobre a decisão..Tão óbvia contradição não o impede porém de festejar as propostas que estão a ser feitas no sentido de que haja uma investigação parlamentar baseada nos Twitter Files - nomeadamente a propósito da decisão da anterior administração de suprimir tuites com links das notícias do New York Post sobre o conteúdo do computador de Hunter Biden, filho de Joe Biden (decisão errada, diga-se, e como tal reconhecida pelo ex-CEO), e das comunicações entre agências de segurança americanas como o FBI e a NSA e o Twitter - demonstrando como Musk visa usar o seu domínio da plataforma, e dos seus arquivos empresariais, para atingir objetivos políticos, que poderão por sua vez visar objetivos empresariais..Vejamos: os critérios do Twitter para suspender e banir contas - como os de outras redes sociais - nunca foram claros e muito menos consistentes. E faz todo o sentido discuti-los e examinar os motivos, e eventualmente sindicar a forma de decisão, que levaram a uma suspensão tão aparatosa e simbólica como a de Trump, e a outras. Mas as ações de Musk demonstram que o seu objetivo não é, de todo, tornar transparentes os meandros decisórios do Twitter, nem clarificar e consolidar os respetivos critérios: se algo resulta evidente é que para Musk não há critério a não ser o dos seus vaipes e (in)conveniências, e que o recurso à "vox populi" é uma forma de mascarar a sua peculiar forma de governo..Porque com tanta conversa de transparência e liberdade de expressão e "voz do povo" até se pode esquecer que Musk é um homem de negócios que comprou, por uma soma astronómica - 44 mil milhões de dólares -, uma plataforma que nunca foi exatamente lucrativa. E das duas uma: ou é doido e não se importa de deitar fogo àquilo que comprou, perdendo todo esse dinheiro, ou está à espera de lucrar com os resultados da ofensiva político-mediática que está a liderar..Como aquilo que Musk está a tentar fazer é, contrariando todos os estudos existentes que comprovam que a propaganda da extrema-direita populista têm muito mais tração nas redes sociais e que estas foram usadas com sucesso para manipular eleições a favor dessa mesma extrema-direita, vender a ideia de que o Twitter fez parte de uma conspiração liberal de esquerda para "calar" as vozes "conservadoras" (leia-se a extrema-direita trumpista), não é difícil concluir quem ganha com isso..Se o próprio Musk conseguirá lucrar com este circo, ou se é um Nero cujos apetites, caprichos e mania das grandezas não lhe permitem manter uma rota, acabando a estampar-se e arder, é o que se verá.