Dos EUA à Rússia, da União Europeia à China, da esquerda à direita, o mundo uniu-se no apoio ao presidente do Brasil, Lula da Silva, e na condenação ao "assalto à democracia" perpetrado por apoiantes do seu antecessor, Jair Bolsonaro. Dois anos após o ataque ao Capitólio em Washington, houve também quem tenha feito comparações e detetado "traços trumpistas" nos eventos de domingo..O presidente norte-americano, Joe Biden, condenou no Twitter "o assalto à democracia e à transferência pacífica de poder no Brasil", reiterando que as instituições brasileiras têm "o apoio total" dos EUA e que a "vontade do povo brasileiro não deve ser prejudicada". A Rússia condenou já ontem "veementemente as ações dos instigadores da agitação" e deu também o "apoio total" a Lula através do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov..Twittertwitter1612227134516256770.Biden não fez qualquer comparação com o ocorrido a 6 de janeiro de 2021, quando apoiantes de Donald Trump atacaram o Capitólio para tentar impedir a validação da vitória do democrata nas presidenciais de novembro 2020. Mas muitos congressistas não hesitaram em fazê-lo, como Jamie Raskin, eleito pelo Maryland, que fez parte da comissão que investigou o assalto. "Estes fascistas que usam como exemplo os desordeiros do 6 de janeiro de Trump têm que acabar no mesmo local: a prisão", referiu..Twittertwitter1612174879175974915.Ao contrário do que aconteceu nos EUA, no Brasil os eventos ocorreram já depois da posse de Lula (a 1 de janeiro) sendo que nem o atual chefe de Estado nem o anterior estavam na capital - Lula estava em São Paulo, Bolsonaro deixou o Brasil ainda antes do final do mandato, estando em Miami..As condenações ao que aconteceu no domingo foram céleres em todo o mundo, com Lula a falar ainda no domingo à noite com o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enaltecendo o facto de Portugal ter sido o primeiro país a fazê-lo. Marcelo terá dito que os atos em Brasília, "além de inconstitucionais e ilegais, são inadmissíveis e intoleráveis em democracia", segundo a nota publicada no site da Presidência, tendo reforçado "o apoio e a total solidariedade de Portugal para com o poder legitimamente eleito no Brasil"..Tal como no ataque ao Capitólio dos EUA, para muitos dos apoiantes de Bolsonaro o que está em causa é a perceção de que a vitória de Lula não foi justa. Teorias da conspiração que têm sido alimentadas por aqueles que também insistiram que a vitória foi roubada a Trump. Steve Bannon, um dos antigos conselheiros do ex-presidente dos EUA, é visto como tendo incentivado a insurreição, continuando a incitar os apoiantes de Bolsonaro mesmo depois de este ter concedido a derrota eleitoral.."A maior ameaça do mundo é o ressurgir dos movimentos ultra. O que fazem é recorrer às mentiras, à violência verbal e finalmente ao assalto às instituições democráticas. Vimo-lo nos EUA, agora no Brasil, e vemo-lo em diferentes latitudes. É um fenómeno repulsivo", disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, com o seu chefe da diplomacia, José Manuel Albares, a dizer mesmo ver "traços trumpistas" nos eventos em Brasília.."Os ataques violentos às instituições democráticas são um atentado à democracia que não pode ser tolerado", indicou o chanceler alemão, Olaf Scholz, enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, escreveu em português no Twitter para dizer que Lula "pode contar com o apoio incondicional da França". As condenações vieram da esquerda à direita, com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a dizer que "as imagens da invasão das sedes das instituições são incompatíveis com qualquer forma de desacordo democrático" e pediu "a volta à normalidade"..Twittertwitter1612194748239945728.Até o presidente polaco, Andrzej Duda, que no ataque ao Capitólio tinha dito que esse era um "assunto interno" dos EUA, foi mais direto desta vez: "A democracia não é perfeita. Por vezes só 50% mais 1 eleitor ficam satisfeitos. Mas nada melhor foi inventado para assegurar o bem-estar das pessoas. As instituições democráticas são sagradas. O presidente Lula ganhou e tem o apoio do mundo democrático, incluindo a Polónia."."Condeno fortemente o assalto à democracia no Brasil. Isto é uma grande preocupação para nós todos, os defensores da democracia", escreveu no Twitter a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reiterando o "apoio total" a Lula, "que foi eleito de forma livre e justa"..Twittertwitter1612336532077125632.Já a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, escreveu, em português, estar "profundamente preocupada" com o que estava a acontecer no Brasil, lembrando que "a Democracia deve ser sempre respeitada" e que a instituição que representa está ao lado das instituições "legitima e democraticamente eleitas" do Brasil..Twittertwitter1612191882943021066.Do outro lado do mundo, a China reagiu através do porta-voz da diplomacia, Wang Wenbin, dizendo que Pequim "se opõe firmemente ao ataque violento" contra as sedes do poder no Brasil e "apoia as medidas tomadas pelo governo brasileiro para acalmar a situação, restaurar a ordem social e preservar a estabilidade nacional"..Na América Latina, houve uma voz unânime de apoio a Lula e condenação dos atos de domingo. O presidente argentino, Alberto Fernández, falou mesmo de uma "tentativa de golpe de Estado" e expressou solidariedade para com o homólogo brasileiro. Também o líder colombiano, Gustavo Petro, escreveu no Twitter que "o fascismo decide dar um golpe", alegando que "as direitas não puderam manter o pacto da não violência". Atualmente, na América Latina, a maioria dos países são governados à esquerda..Twittertwitter1612160925859028992.O uruguaio Luis Lacalle Pou, um dos poucos de direita, condenou "as ações cometidas no Brasil que atentam contra a democracia e as instituições". Mais enfático foi o mexicano, Andrés Manuel López Obrador, que considerou "reprovável e antidemocrática a tentativa golpista dos conservadores do Brasil, estimulados pela cúpula do poder oligárquico, os seus porta-vozes e fanáticos"..Twittertwitter1612196516764200960.O boliviano Luis Arce defendeu que "os fascistas vão sempre tentar tomar à força o que não conseguiram nas urnas". E o cubano, Miguel Díaz-Canel, lembrou o ataque nos EUA. "Incapazes de reconhecer uma vitória alternativa, os bolsonaristas do Brasil são imitadores dos trumpistas que atacaram o Capitólio de Washington", escreveu, com o hashtag #NoAlGolpe (Não ao Golpe), declarando a "solidariedade total" com Lula..susana.f.salvador@dn.pt