Muito mais do que Princesa Leia

Reduzir Carrie Fisher às nossas viagens pelo espaço é curto. A Princesa Leia é o guarda-redes que Albert Camus foi em Argel, é de lembrar, mas Camus foi mais do que isso
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Há um programa televisivo americano em que põem carvão e lume logo no título, Comedy Central Roasted. A ideia é colocar o convidado, sempre uma personalidade, no assador. Nada é poupado e os seus vícios e maleitas são o assunto preferido. Carrie Fisher foi lá há quatro anos e ouviu um dos seus amigos dizer que ela era a única celebridade cujo action figure (o boneco que ilustra um personagem de ação, como o Batman ou o Super-Homem) era pior do que ela própria. Deve ter sido dos mais suaves insultos acontecido na Comedy Central Roasted.

E, de facto, a Princesa Leia, tão chorada pela multidão de fãs saudosos da sua própria mocidade, é uma figura apagada comparada com a extraordinária pessoa que foi Carrie Fisher. É preciso ser um sapo extraterrestre como Jabba the Hutt para se extasiar pela delambida princesa com o seu biquíni metálico dourado. Até Harrison Ford gostava mais de Carrie do que o Han Solo da princesa - pelo menos as cenas foram mais escaldantes nos motéis, no intervalo das filmagens, do que durante as viagens espaciais a caminho de uma qualquer Guerra das Estrelas. Não estou a cuscar, cito a autobiografia de Carrie Fisher.

A primeira vez que vi uma foto dela, ela não estava lá. No relvado fronteiro de uma casa californiana, uma bela loura, daquelas louras só lindas, não provocante como Lana Turner e Kim Novak. Sei o ano, 1959, o meu pai tinha acabado de comprar um Chevy Bel-Air, o que me deu para me interessar pelas coisas californianas como louras e relvados. Esta loura posava com um alfinete de bebé na blusa, que remetia para o não visto: lá dentro, na casa, estava Carrie, 3 anos, e o irmão, o bebé Todd. Todd porque o melhor amigo dos pais era Mike Todd, produtor de cinema (já adivinharam, o cenário é Hollywood), que morrera há pouco em desastre de aviação. Debbie Reynolds e Eddie Fisher decidiram guardar o nome do amigo, e Eddie foi mais longe na homenagem: mudou-se para a casa da viúva, Liz Taylor, para a consolar.

Tem graça como a autobiografia de Carrie veio confirmar-me a foto. Ela, que me nascera ali, no lado obscuro daquela foto, fora parida também assim. Ela descreve os médicos na sala de parto, à volta da mãe: "Oh, olhem a Debbie Reynolds a dormir, como é bonita." E as enfermeiras, olhando pai: "Oh, olhem Eddie Fisher, o crooner..." Resultado, quando Carrie nasceu ninguém estava à espera dela. Na segunda metade dos anos 50, os pais eram o casal da América, Debbie, a atriz e dançarina à chuva, ele o cantor com mais vendas. Some-se a isso o escândalo do divórcio e fica uma infância negada.

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