Mudar já

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Há quem diga que são as próprias mulheres que se boicotam e têm falta de ambição. Há quem acredite que a falha está nas leis desiguais para homens e mulheres - na licença parental, por exemplo. Há quem testemunhe o que sofreu na pele - discriminação, desrespeito, assédio. As histórias e as justificações são infindáveis e as soluções até agora encontradas parecem não estar a contribuir para que se chegue onde já devíamos estar. A realidade é uma: em pleno ano de 2017 há desigualdade nas condições de trabalho, nas remunerações, nas oportunidades dadas a homens e mulheres. O que é ainda mais incompreensível numa sociedade como a portuguesa, na qual já em 1974 perto de 40% da força de trabalho era feminina (hoje são 50%) e há mais de 20 anos que o número de mulheres com pelo menos uma licenciatura é muito superior ao número de homens com um nível de estudos semelhante. E, no entanto, elas ainda representam menos de 30% nos cargos de liderança e apenas um terço na gestão de empresas, o que atira o país para lá do 30.º lugar no ranking do Fórum Económico Mundial.

O que é preciso fazer para Portugal ser um bocadinho mais parecido com a - líder há oito anos consecutivos - Islândia? Há muito caminho pela frente. No entanto, ainda que possam revelar-se um mal necessário, as quotas não parecem ser a melhor via para atingir a igualdade. Não quando se baseiam na imposição de um determinado número de mulheres em cargos de topo independentemente de critérios de competência. Kim Sawyer, ex-embaixatriz dos Estados Unidos em Portugal e que se tem revelado uma peça-chave na luta pela igualdade de género, explica-o nas páginas desta edição: enquanto houver quotas, haverá quem atribua a subida na carreira à sua condição feminina e não aos seus méritos e talentos profissionais - e as outras mulheres serão as primeiras nesta linha de desconfiança. Recentemente, o Fórum Económico Mundial reviu também as suas projeções no que respeita à igualdade salarial, concluindo que só daqui a cerca de 170 anos a remuneração não será afetada pelo género - 50 anos mais tarde do que o que se antecipava em 2015. Talvez seja o momento de repensar o que está a falhar, sob pena de prolongar uma situação que só nos envergonha.

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