Muçulmanos: Prática religiosa, trabalho e estudo conciliam-se sem dramas em Portugal

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Lisboa, 17 Abr (Lusa) - Os hábitos dos muçulmanos nem sempre se coadunam com a vivência quotidiana num País onde a sua religião é minoritária mas, com alguma flexibilidade, a prática religiosa em Portugal vive-se sem dramas, explicou o xeque David Munir.

Em declarações à agência Lusa, o imã da Mesquita Central de Lisboa afirmou que os períodos de oração, o dia de descanso semanal e o Ramadão podem ser cumpridos com alguma compreensão por parte dos locais em que os praticante se integrem, sejam escolas ou entidades empregadoras.

Por exemplo, apesar de muitos muçulmanos terem à sexta-feira o seu descanso semanal, "isso não é obrigatório, havendo vários outros que trabalham nesse dia, mesmo em países islâmicos", esclareceu o xeque.

O líder religioso acrescentou também não existir inflexibilidade no que respeita aos períodos estipulados para as orações.

Por isso, e embora seja aconselhável um esforço no sentido de os observar, "é óbvio que um advogado ou uma médica muçulmanos não vão interromper o seu trabalho - sair durante um julgamento ou deixar a meio uma intervenção cirúrgica - para rezar", afirmou.

Nos casos em que as profissões tenham um horário mais previsível, os crentes são convidados a deslocar-se a uma mesquita.

"Às sextas-feiras, entre as 13:15 e as 14:15, deve realizar-se uma oração especial de dez minutos e, mesmo um muçulmano que trabalhe, pode deslocar-se à Mesquita nesse período. Para facilitar, até servimos o almoço", garantiu o xeque David Munir, adiantando que um muçulmano cujo empregador professe a mesma religião pode ter a vida facilitada.

"Nos outros casos, o trabalhador pode negociar para cumprir as suas orações: se for exequível, à sexta, em vez de entrar às 09:00 entra às 08:00 ou em vez de sair às 17:00 sai às 18:00", exemplificou.

Se, ainda assim, não lhe for possível realizar as cinco orações diárias nas horas previstas, "pode sempre fazer todas ao final do dia", acrescentou o imã.

Actualmente, com mesquitas em Lisboa, Coimbra, Portimão, Funchal, bem como diversos outros lugares de culto em vários pontos do País, a prática religiosa ter-se-á tornado mais fácil mas nem sempre foi assim.

Com 38 anos e a residir em Setúbal, Faisal Aboobakar, muçulmano nascido em Moçambique, recordou à Lusa que, no passado, quando pretendia deslocar-se à mesquita, "tinha de ir a Lisboa".

"Agora já começam a existir mais lugares de culto: em Almada existem duas mesquitas e, aqui perto, em Palmela, há uma escola árabe mas, no meu crescimento, deu-se um afastamento da religião por viver em Setúbal", revelou.

O facto de a comunidade islâmica "estar mais em Santo António dos Cavaleiros, em Odivelas ou no centro de Lisboa" acentuou aquilo que o professor de Educação Física descreve como um "crescimento paralelo ao islamismo".

Estes factores do passado, a par do actual exercício da docência, levam Faisal Aboobakar a deixar alguns preceitos por cumprir.

"Por exemplo, como faria para ir à mesquita à sexta-feira se dou aulas o dia todo?" - questiona-se, dando outros exemplos.

"Também para fazer o Eid ul-Fitr [traduzível por 'festa do fim do jejum', que assinala o final do Ramadão], tinha de declarar a minha religião para obter a dispensa que julgo estar prevista na lei ou então faltava às aulas", ponderou.

Mas, se os preceitos podem ser difíceis de seguir por um professor, qual a situação dos alunos muçulmanos?

A este propósito, o imã da Mesquita Central de Lisboa assinalou que "o estudante pode falar com o conselho directivo para fazer as orações na escola".

"Se for cedida uma sala para o efeito, o aluno pode rezar no intervalo. Caso contrário, terá de fazê-lo em casa", declarou, sublinhando não haver rigidez neste ponto, como o comprova o facto de se abrirem excepções mesmo no Ramadão.

Segundo o xeque David Munir, "durante esse período, os estudantes que tenham testes ou aulas de Educação Física estão desobrigados de jejuar, fazendo-o mais tarde".

"É claro que, se um estudante conseguir dispensa da aula de educação física, então jejua e não pratica desporto", afirmou, assegurando à Lusa que "os professores também vão ajudando" e que a abertura das escolas à diversidade religiosa é "um bom sinal".

Para fomentar uma melhor compreensão das práticas religiosas islâmicas, a Mesquita Central de Lisboa recebe professores e alunos às terças, quartas e quintas-feiras, sendo anualmente visitada por cerca de 15 mil estudantes.

HSF.

Lusa/fim

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