Religião. Casar com um muçulmano "é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam". Foi esta a frase de D. José Policarpo que magoou a comunidade islâmica em Portugal. Alguns vão mais longe e acusam o patriarca de irresponsabilidade e islamofobia.Comunidade islâmica reage com muita ponderação.Surpresa e mágoa marcam as reacções da comunidade islâmica aos alertas do cardeal patriarca de Lisboa sobre os casamentos com muçulmanos. Declarações que merecem também a censura da secção portuguesa da Amnistia Internacional. "Cautela com os amores. Pensem duas vezes antes de casarem com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meterem-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam", aconselhou D. José Policarpo durante uma tertúlia no Casino da Figueira da Foz, dizendo conhecer casos dramáticos.."Ficámos de alguma forma magoados com a escolha das palavras do senhor Patriarca de Lisboa", reconhece Abdool Vakil, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, em comunicado. A reacção foi, no entanto, muito ponderada - houve, aliás, contactos com o Departamento das Relações Ecuménicas e do Diálogo Inter-religioso do Patriarcado para conhecer o conteúdo exacto das declarações em causa antes de emitir qualquer comunicado. O presidente da Comunidade Islâmica prefere ler as palavras de D. José Policarpo como "uma chamada de atenção para o necessário respeito pelas diferenças" religiosas e conhecimento das outras religiões, para que "qualquer relação seja estável e duradoura". No entanto, Abdool Vakil lembra que essas diferenças não serão "necessariamente uma dificuldade quando estão em causa cidadãos do mesmo país" que partilham da mesma cultura e interagem na mesma sociedade. Já Nazim Ahmad, representante da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN), do Centro Ismaelita, confessa que não consegue "interpretar esta posição". "Conheço muito bem o cardeal patriarca. Não aceito, não entendo que o tenha dito no âmbito local." .Ainda mais crítica foi a reacção do SOS Racismo. Em comunicado, o movimento considera que as palavras de D. José Policarpo são um "incentivo à islamofobia". "Foi irresponsável, sobretudo pelo contexto em que podem ser interpretadas", com o crescimento da islamafobia no mundo ocidental, disse Mamadou Ba ao DN. .Também a secção portuguesa da Amnistia Internacional considera que se tratam de "graves declarações de carácter discriminatório". A organização revela ter um estudo por publicar sobre a relação entre portugueses e imigrantes, nomeadamente com os de origem muçulmana, e não encontrar "vestígios daquilo que preocupa o cardeal patriarca"..Mas para Fernando Soares Loja, da Aliança Evangélica Portuguesa, as preocupações do Cardeal são legítimas. "Estava com certeza a pensar nos países onde vigora a sharia porque uma coisa é ser-se muçulmano na Europa e outra, muito diferente, é ser--se muçulmano no Iémen ou na Arábia Saudita", conclui. Por isso, Fernando Soares Loja subscreve e louva a coragem do patriarca..O Departamento das Relações Ecuménicas e do Diálogo Inter-religioso veio também esclarecer que o cardeal pretendeu chamar a atenção para a necessidade de prudência e a importância do conhecimento na aproximação entre as duas comunidades. Em comunicado, o padre Peter Stilwell lembra ainda que as relações com a comunidade muçulmana têm sido, em Portugal, de grande simpatia - "poderá mesmo dizer-se, exemplares". Aliás, na mesma tertúlia, D. José Policarpo definiu essas relações como "habitualmente boas e muito simpáticas" e alertou para a necessidade de existir mais "respeito e conhecimento" sobre os muçulmanos. Com Abel Coelho de Morais