Dois pilotos começam a fazer história. Miguel Oliveira é o primeiro português a competir no Mundial de motos de 125 cc. Ivo Lopes é o primeiro corredor nacional a estar a tempo inteiro na Rookies Cup, por onde Miguel também passou, mas apenas em algumas corridas. Ambos já se mostraram aos melhores, com andamentos fortes e dignos de alguém que tem uma mentalidade ganhadora, ainda que afirmem que este é principalmente um ano de aprendizagem. São muito jovens, pelo que a maior parte da sua história está por escrever, mas sabem o que querem: triunfos, títulos e chegar à classe rainha: Moto GP.Ambos desejam um lugar nos cinco primeiros no Grande Prémio de Portugal do próximo fim-de-semana e confiança não falta. Sabem que vão ter o público a apoiá-los e o facto de conhecerem bem o circuito do Estoril contribui para aumentar a confiança, já que umas das dificuldades de Miguel e Ivo é não conhecerem a maioria das pistas em que vão competir durante a temporada.Uma queda como melhor resultadoMiguel Oliveira, 16 anos, estreou-se nas 125 cc com um décimo lugar no Qatar. E se este resultado deixou orgulhoso o jovem piloto, a performance em Jerez de la Frontera (Espanha) foi a que considera ser a sua melhor. «As cinco voltas que fiz em Jerez valeram muito mais porque estive a lutar pelo segundo lugar. Cometi um erro de principiante [que provocou a queda na saída de uma curva]. Acelerei cedo de mais, mas faz parte... É o ano em que devo errar, pois faz parte da aprendizagem», explica à NS".Com objectivos bem delineados, Miguel Oliveira este ano quer aprender os circuitos, acabar as corridas e, se possível, nos dez primeiros. «Para o ano a ambição será diferente», garante, desejando a curto prazo conquistar o título nesta categoria com o pensamento em subir à Moto 2. Confessa estar surpreendido com o ambiente do Mundial: «Pensei que era tudo muito sério, mas, afinal, há descontracção.» Apesar de a experiência estar a ser muito diferente de tudo o que viveu noutros campeonatos, Miguel já se adaptou a estar no mesmo paddock das estrelas que tanto tempo seguiu ao longe, como é o caso do seu ídolo Valentino Rossi.O piloto só tem elogios para a sua equipa (Andalucia Banca Civica) e realça a boa relação com o colega, o espanhol Alberto Moncayo. Miguel Oliveira encontrou uma estrutura que lhe permite concentrar-se apenas no seu trabalho, pois a sina de muitos pilotos portugueses - procurar e manter apoios financeiros - não entra nas suas preocupações. «Foi muito difícil, principalmente conseguir as verbas para ter o melhor material. Agora não tenho de me preocupar com isso. Tenho quem me acompanha, como o meu pai. Eu só preciso de pilotar», diz.O pai, Paulo Oliveira, tem seguido de perto a carreira de Miguel e apoio da família não falta. Apoio e algum sofrimento: «Vivem numa pilha de nervos e ficam pior quando caio. Mas dão-me muito apoio e isso é fundamental para o meu bem-estar.»Sucessor em formaçãoMiguel Oliveira não hesita em dizer que Ivo Lopes «tem potencial para ser um grande piloto». A presença na Rookies Cup é mais uma prova disso mesmo, de um piloto com apenas 14 anos que à segunda tentativa foi escolhido para competir no campeonato que decorre de forma paralela ao Mundial de Moto GP (com menos Grandes Prémios). Na estreia ficou em décimo, num total de 25 pilotos. Um bom resultado que animou Ivo, tendo ainda em conta que nesta competição as motos de 125 cc são iguais para todos os pilotos (KTM), que têm entre 13 e 17 anos.«Espero daqui a dois anos, se tudo correr bem, estar nas 125 cc», diz à NS', acrescentando que no campeonato onde está Miguel Oliveira «não é só o talento ou sorte que contam», pois o mundo é diferente, com motos diferentes e orçamentos diferentes. Mas é no presente que Ivo Lopes está concentrado e recusa falsas modéstias: «O meu objectivo é sempre vencer. Há muito a ideia de que os portugueses se contentam com os lugares mais modestos, por serem de um país mais pequeno ou com menos dinheiro. Se tiverem as mesmas condições que outros pilotos, os portugueses entram sempre para vencer.»No entanto, diz que tem de ter «humildade para querer aprender e saber que há outros que partem em vantagem». Por isso, considera difícil ser campeão já este ano, mas «no fim da corrida espero estar sempre na frente». Habituado a pilotar em campeonatos muito competitivos, como é o caso do espanhol, Ivo admite que na Rookies Cup está a ser «quase tudo novo». Estar lado a lado com os melhores do mundo, como os seus ídolos Rossi e Terol, além do apoio dos organizadores, tudo ajuda o piloto português a ter a certeza de que está no sítio certo para evoluir.E se Miguel Oliveira está a destacar-se e Ivo Lopes quer seguir o mesmo caminho, este último não hesita em apontar o dedo a quem considera responsável por não haver mais portugueses na ribalta. «Os pilotos portugueses não têm dificuldade em estar no Mundial. As empresas portuguesas é que têm dificuldade em perceber o que ganham ao estarem no Mundial.» Não esquece quem por aqui anda há muito anos, como é o caso de Miguel Praia e realça quem tem potencial (André Carvalho e Luís Carreira, entre outros), mas entristece-o que as empresas nacionais só tenham olhos para o futebol: «Há dias vi um comentário no Facebook de alguém que disse que quando o Miguel vencer uma corrida se devia tocar o hino espanhol em vez do português...»A família tem para Ivo um papel importante, mas o sofrimento é esclarecido: «Eles já perceberam que correr em moto é muito menos perigoso do que andar de moto na estrada, ou mesmo de bicicleta. Conheço alguns pilotos que nunca partiram nada a correr em moto e já foram parar ao hospital por andarem de bicicleta ou de patins!»BIMiguel Oliveira4 Janeiro 1995 (16 anos)Natural do PragalMoto/Equipa: Aprilia/Andalucia Banca CivicaCategoria: 125 ccGrandes Prémios: 2Resultados: 10.º e uma desistência por quedaBIIvo Lopes20 Setembro 1996 (14 anos)Natural da AmadoraMoto: KTM Campeonato: Rookies CupGrandes Prémios: 1Resultado: 10.º Pedrosa e Honda: 2011 será o ano do título mundialDani Pedrosa é o eterno candidato ao título do Moto GP, mas tem acontecido sempre qualquer percalço e o espanhol acaba por ser o piloto do «quase». Mas este ano tudo parece ser diferente: «Sinto que posso ganhar o título.»A sensação de vitória assumida por Dani Pedrosa parece não ser em vão, depois de em 2007, 2009 e 2010 ter terminado o Moto GP em segundo lugar. A equipa oficial da Honda tem revelado um potencial tremendo que só a Yamaha está a conseguir acompanhar. Pedrosa, de 25 anos, aparece mais confiante do que nunca, depois de um terceiro e um segundo lugar nas duas primeiras corridas do Mundial. A cirurgia a que se submeteu depois do Grande Prémio de Jerez de la Frontera, em Espanha, contribuiu para que recuperasse a boa forma, resolvendo um problema no braço esquerdo que vinha da época passada e lhe provocava dormência e falta de sensibilidade, sintomas causados pela compressão da artéria subclávia.«Espero que desta vez tudo corra bem. Nunca é bom ser operado porque é preciso muito tempo para se voltar a estar ao mais alto nível. Quando nos lesionamos sofremos com as dores, perde-se energia e depois ainda há o período de reabilitação. Não sei como me vou sentir no Estoril», disse Pedrosa à NS". Já no próximo fim-de-semana, no Grande Prémio de Portugal, Pedrosa vai perceber se realmente está em condições de lutar até ao fim pelo título depois de vários anos de frustração. «Já estivemos perto de o conseguir, mas não aconteceu. Houve várias razões: às vezes era a moto que não estava bem, cometemos alguns erros e também tive algumas lesões», recorda.Potencial da HondaNa primeira prova do Mundial, a Honda comprovou o que tinha demonstrado nos testes de pré-época: a moto está à frente da concorrência. O domínio foi de tal forma avassalador no Qatar - Stoner, Pedrosa, Dovizioso (todos da mesma equipa) e Simoncelli (equipa diferente, mas também com uma Honda oficial) rodaram na frente - que rapidamente surgiram rumores de que a Honda estaria a quebrar as regras ao utilizar uma dupla embraiagem, proibida no campeonato. A teoria não se confirmou, até porque seria detectável e o sistema aumentaria em demasia o peso da moto.Como no desporto motorizado o lema «o segredo é a alma do negócio» é levado muito a sério, o que dá vantagem à Honda não foi desvendado. Uma das teorias mais consistentes aponta para a utilização do sistema IGS (Instantaneous Gearchange System), que terá sido desenvolvido nos dois últimos anos. Basicamente o IGS é uma transmissão de embraiagem única que permite que duas relações fiquem engrenadas simultaneamente. Ou seja, os pilotos podem trocar de relações de caixa sem que se verifique a perda de potência que normalmente existe. Em termos práticos, tudo isto resulta na melhoria significativa dos tempos por volta.Pedrosa conta que durante a época passada foi realizado um intenso trabalho para tornar a moto mais competitiva. Melhorou a estabilidade na travagem - mas diz que ainda há trabalho a fazer neste ponto - e a equipa trabalhou «na electrónica para aumentar a tracção na entrada e saída das curvas. «A moto já estava competitiva na segunda metade da época e no Inverno não se alterou muito», realça.Porém, o espanhol não se deixa deslumbrar pelo potencial da Honda, pois salienta que a rival Yamaha, com o campeão em título Jorge Lorenzo, também terminou no pódio nas duas corridas já realizadas (em Jerez conquistou mesmo a vitória). Já quanto à Ducati admite que talvez tenha algum trabalho a fazer, mas que Valentino Rossi vai acabar a lutar pelo triunfo.Para comprovar que a Honda está apostada em conquistar um título que lhe escapa desde 2006, quando o norte-americano Nicky Haiden surpreendeu ao tornar-se campeão, a equipa contratou Casey Stoner, campeão em 2007 pela Ducati e um dos melhores pilotos da actualidade. Pedrosa é fiel à Honda desde que em 2001 entrou nas 125 cc. Agora tem a seu lado mais um forte concorrente. «Acho que é uma motivação para os dois. Quando se tem uma equipa forte é melhor para todos. O ambiente é bom porque todos lutamos pelo mesmo», afirma Pedrosa. Diz ainda que a relação com o piloto australiano é boa e que há respeito mútuo.«Estoril é uma pista complicada»Depois da cirurgia a que se submeteu recentemente, o Grande Prémio de Portugal vai ser um teste duro para a recuperação de Pedrosa. O Estoril parece mesmo despertar uma relação de amor/ódio nos pilotos: uns adoram, outros odeiam. Pedrosa é mais cauteloso e diz que nem adora nem odeia. «O Estoril é uma pista complicada, com curvas longas de travagens fortes e rectas instáveis. O tempo é imprevisível dada a localização geográfica, mas espero que esteja quente», pede Pedrosa. E de um pormenor tem a certeza: apoio não vai faltar dos espanhóis. «O ambiente é óptimo para os pilotos espanhóis porque temos sempre muitos fãs no Estoril. Sinto-me sempre bem a pilotar ali.»BIDani Pedrosa29 Setembro 1985 (25 anos)Natural de Sabadell, BarcelonaEquipa/Moto: Repsol Honda TeamCategoria: Moto GP desde 2006Carreira: Estreou-se nas 125 cc em 2001, foi campeão em 2003. Campeão em 2004 e 2005 nas 250 ccVitórias: 8 em 125 cc; 15 nas 250 cc (actualmente denominada Moto 2); 12 em Moto GP