O almirante Rosa Coutinho, último militar vivo dos que integraram a Junta de Salvação Nacional (JSN) criada após o 25 de Abril, morreu ontem em Lisboa, vítima de doença prolongada..Conhecido como o "Almirante Vermelho", por ser conotado com o PCP, o corpo do militar de 84 anos ficou em câmara-ardente na Capela de São Roque (junto ao Estado- -Maior da Armada), donde sai às 15.00 de hoje para ser cremado no cemitério dos Olivais..Rosa Coutinho - figura que evocava a dos famosos Yul Brynner e Telly Savalas - deixou a instituição militar após os acontecimentos de 25 de Novembro de 1975. "Ele contribuiu bastante (...) para que os fuzileiros não se envolvessem naquela aventura", lembrou ao DN o presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço..Vasco Lourenço lamentou depois "a campanha de calúnias miserável" que visou Rosa Coutinho ao longo dos anos seguintes e que envolveu a publicação de "cartas forjadas". "Pelos dados que tenho, ele tratou os três movimentos de libertação angolanos [MPLA, UNITA, FNLA] da mesma maneira", acrescentou..No mesmo sentido se pronunciou o coronel Sousa e Castro, citado pelo Expresso, ao frisar que Rosa Coutinho foi "injustamente" colado ao PCP. "Não era verdade. Rosa Coutinho era de esquerda, mas não esteve engajado a partido político algum", sublinhou. Sendo "um revolucionário no sentido mais romântico do termo", assinalou Santos e Castro, o almirante foi "alvo de uma campanha por parte dos então regressados de Angola que o colaram ao que de mal se fez na descolonização"..Membro do Conselho da Revolução e da Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS e da Legião Portuguesa, Rosa Coutinho passou grande parte da carreira embarcado em navios hidrográficos..Também a UNITA e a FNLA, citadas pela Lusa, lamentaram a sua morte enquanto "ser humano" embora sublinhando o papel negativo que, no seu entender, Rosa Coutinho desempenhou como alto-comissário de Angola - a favor das posições do MPLA - entre Outubro de 1974 até aos Acordos de Alvor (Janeiro de 1975). "Para [a UNITA], o almirante Rosa Coutinho é de triste memória para Angola", referiu o presidente do partido, Isaías Samakuva..Quanto à FNLA - que capturou Rosa Coutinho nos anos 1960, durante uma missão de patrulhamento e pesquisa hidrográfica no rio Zaire -, o seu dirigente Ngola Kabango evocou o militar português como "alguém que influenciou negativamente" a história de Angola. "Conheci Rosa Coutinho durante as negociações em Alvor. Ele defendia uma posição antagónica, contrariava profundamente as nossas posições e teve um papel importante de benefício do MPLA nesse processo histórico", acrescentou o responsável..O PCP, em comunicado, lamentou a morte de "uma das figuras mais relevantes" do 25 de Abril e que foi "um aliado e um amigo" dos portugueses. "Chamado a integrar a JSN logo na noite de 25 para 26 de Abril, [o almirante] desde logo assumiu claramente o seu posicionamento no campo mais progressista e avançado do Movimento das Forças Armadas".