Morreu o autor da política de contenção da URSS

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George Kennan, um dos autores mais influentes da política externa norte-americana na época da Guerra Fria, morreu quinta-feira à noite, aos 101 anos, na sua casa em Princeton, Nova Jérsia.

Kennan é autor de um clássico texto publicado sob o pseudónimo "X", em 1947, na revista Foreign Affairs, intitulado The Sources of Soviet Conduct (As Raízes da Conduta Soviética) em que analisa as origens do regime soviético e a sua política externa. Com a revolução de 1917, escreve Kennan, surgia em Moscovo um poder dominado pela "ideologia e circunstâncias" da sua génese. As implicações no plano interno estavam "na natureza do universo mental dos dirigentes soviéticos, assim como na natureza da sua ideologia, em que nenhuma oposição pode ser reconhecida como tendo justificação ou mérito". Donde, o "princípio da infalibilidade" do Kremlin e um dos pilares da legitimidade do regime "a concepção soviética do poder, que não permite a existência de organizações fora do partido [e que] exige que a liderança deste seja o único detentor da verdade".

Kennan (colocado em Moscovo a partir de 1946, assume o cargo de embaixador em 1952 e será considerado persona non grata cinco meses depois) explica que, em consequência da génese no plano interno, resultavam "profundas implicações para a Rússia na sua conduta" no plano internacional". Entre elas, o facto de "nunca" puder existir uma "comunidade de objectivos" entre o regime soviético e os poderes capitalistas.

Em 1947, Kennan podia já escrever que "temos hoje na Rússia uma população física e espiritualmente cansada. As massas estão desiludidas, impregnadas de cepticismo e insensíveis à atracção mágica que o poder soviético ainda exerce sobre os seus seguidores no estrangeiro". "Assim, o futuro do poder soviético não é tão evidente como a capacidade russa para a auto-ilusão o faz surgir às pessoas que estão no Kremlin".

No plano externo, os EUA não podiam deixar de olhar para o regime soviético "como um rival" e não podiam esquecer que este prosseguia uma política "sistemática de enfraquecimento e aniquilação" de todos os seus rivais. Mas os EUA detinham a possibilidade de influenciar os mecanismos "sob os quais a estratégia soviética tem de actuar", forçando o Kremlin a "um maior grau de moderação". Os EUA deviam, então, "criar a impressão entre os povos do mundo de serem um país que sabe o que quer, que resolve satisfatoriamente os problemas internos e os desafios externos enquanto grande potência e que possui a força espiritual para defender os seus princípios contra as principais correntes ideológicas" do tempo.

Já em 1946, num documento que ficou conhecido na história da diplomacia americana como o "longo telegrama", Kennan enviara de Moscovo uma análise sobre a URSS, onde escreve que se o regime soviético é "insensível à lógica da razão", é "extremamente sensível à lógica da força".

Kennan nasceu no Milwaukee, em 1904, e entrou na carreira diplomática em 1925; esteve colocado em Berlim, Viena e Praga. É um dos responsáveis do Plano Marshall para a Europa; escreveu 17 títulos, dois dos quais ganharam prémios Pulitzer. Era considerado uma "lenda viva" da diplomacia americana.

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