Morreu Luiz Goes, voz maior da canção de Coimbra

Aos 79 anos, o vulto da canção coimbrã faleceu. Cantor, compositor, poeta Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes (nasceu a 5 de janeiro de 1933, em Coimbra).
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"A sua voz estará sempre na galeria dos melhores cristais", assim escreve no no Facebook o escritor António Vilhena. Coimbra, de luto, multiplica-se em lamento de saudade num elogio ao homem ímpar na cultura portuguesa. Poeta, cantor e compositor, Luiz Fernando de Sousa Pires de Goes, nasceu a 5 de janeiro de 1933, em Coimbra. Começou cedo a destacar-se, por influência do seu tio Armando Goes, também ele um nome maior da canção coimbrã.

Aos 14, Luiz Goes já cantava em público, aos 19 anos gravava o seu primeiro álbum, a convite de António Brojo. No liceu foi colega e amigo de José Afonso e António Portugal com quem gravou vários álbuns. O músico Manuel Alegre Portugal (jornalista e filho de António Portugal) destaca ao DN a "dimensão mundial" da carreira deste "ícone". Fado, toada, balada, canção - para Luiz Goes o importante era a partilha da sua paixão pela música, pelos poetas: "Era um artista completo, tinha uma voz invulgar, ele próprio, com o seu canto, fazia bem à alma e ao espírito", recorda ao DN Augusto Camacho Vieira, companheiro de Goes por inúmeras andarilhanças musicais. "Porque falar de Luiz Goes todo o tempo é pouco", Camacho Vieira lembra-se, a título de exemplo, da digressão, por toda a República da África do Sul: "Alegre, bem-disposto, um fraternal amigo, um exemplo de solidariedade e pela sua arte do canto trouxe para o fado de Coimbra um avanço extraordinário", acentua o médico Camacho Vieira, também ele uma figura incontornável da canção coimbrã e um nome histórico na medicina desportiva.

João Paulo Barbosa de Melo, atual autarca de Coimbra, reconheceu ao DN que "Coimbra vê partir um dos seus maiores vultos, ele levou Coimbra sempre consigo para todo o mundo". Fazendo cumprir a vontade de Luiz Goes, "era desejo dele ficar sepultado em Coimbra", a autarquia esteve em contacto estreito com a família enlutada, para acertar os detalhes das exéquias.

Goes sempre conciliou a vida profissional de médico dentista com a carreira de músico. Como autor, assinou 25 fados e 18 baladas. "É preciso acreditar", "Canção do Regresso", "Romagem à Lapa" são destaques da discografia ímpar de Goes.

"Morreu a voz que simbolizava o Fado de Coimbra", lamenta ao DN o músico e médico Rui Pato. "Conhecia-o há mais de 30 anos, ele comovia-se facilmente, era um amigo e um cidadão exemplar", acentua Rui Pato que recorda a última vez que acompanhou à viola Luiz Goes, há poucos meses num espectáculo no S. Jorge, em Lisboa. "Se pensarmos num nome da canção de Coimbra, na sua pureza, nas suas raízes, era Luiz Goes. Em todas as músicas, em todos os poemas, tentava nunca descolar da matriz de Coimbra", lembra ainda Rui Pato. A sua voz de projeção mundial voltou ontem à ribalta da saudade.

Na rede social Facebook muitos seus admiradores partilharam o tema, entre outros, o tema de "O Fado da Despedida" (música e letra de Luiz Goes, com arranjo de António Portugal, execução de António Portugal, António Brojo, Rui Pato, Aurélio Reis e Luis Filipe). Luiz Goes recebeu as mais altas distinções honoríficas, Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra, a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Cascais e o Prémio Amália Rodrigues 2005 (na categoria de Fado de Coimbra). Amava Coimbra como poucos.

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