Morreu esta sexta-feira Sandra Day O'Connor, a primeira mulher nomeada para o mais alto tribunal dos EUA, de acordo com um anúncio oficial do Supremo Tribunal norte-americano..A antiga juíza, que deixou o cargo em 2006, morreu na sua casa em Phoenix, no estado de Arizona, aos 93 anos..O'Connor sofria de demência, que a fez afastar-se da vida pública em 2018, e de uma doença respiratória..A juíza ficou conhecida por protagonizar um papel moderado numa bancada fortemente dividida, tendo demonstrado uma preferência pelo pragmatismo em detrimento da ideologia, recusando-se a ser rotulado pela esquerda ou pela direita..O'Connor chegou a ser considerada a mulher mais poderosa dos Estados Unidos, tendo somado apoiantes e críticos durante os quase 25 anos de mandato..A antiga juíza nunca quis ser vista apenas como a única mulher no tribunal. "O poder que exerço no tribunal depende do poder dos meus argumentos, não do meu género", afirmou numa conferência da Universidade de Washington em 1990..Republicada moderada, foi nomeada em 1981 por Ronald Reagan, que assim cumpriu a promessa de campanha de nomear uma mulher para uma das primeiras vagas no Supremo Tribunal durante o seu mandato, apesar das críticas dos conservadores, que apontavam a O'Connor falta de experiência judicial federal, e de liberais, preocupados com o compromisso da juíza com as questões feministas..O'Connor emergiu como uma "eleitora indecisa", desempatando muitas vezes decisões que se encontravam empatadas após os votos de conservadores e liberais, ajudando a obter em várias ocasiões importantes uma maioria liberal..Richard Lazarus, que costumava preparar advogados que enfrentavam os juízes quando lecionava na Universidade de Georgetown, considerava-a uma referência. "Quando a juíza O'Connor faz uma pergunta durante a argumentação oral, todo o defensor faria bem em responder por completo, fazer uma pausa e olhar para ela, porque nada é mais importante para você do que ter certeza de que atendeu às preocupações dela", afirmou ao The Washington Post em 2004..A reputação de O'Connor como moderadora e construtora de coligações aumentou muito sua influência numa bancada que estava tão dividida quanto à filosofia jurídica central..A juíza provou ser o voto decisivo em casos importantes que defenderam a neutralidade do governo em relação à religião, incluindo uma decisão de 2005 de que era inconstitucional que os Dez Mandamentos fossem exibidos em vários tribunais.."Permitir que o governo seja um potencial porta-voz de ideias religiosas concorrentes arrisca o tipo de divisão que pode facilmente resultar na supressão de crenças rivais", escreveu num parecer concordante..A posição que ocupou durante anos no centro da magistratura foi uma posição que poucos juízes subsequentes abraçaram, à medida que as nomeações para o tribunal se tornaram cada vez mais partidárias..Nascida em El Paso, no Texas, em 26 de março de 1930, Sandra Day cresceu na quinta dos seus pais no sudeste do Arizona. Aos sete anos aprendeu a conduzir e aos oito já sabia disparar numa espingarda e andar de cavalo..Mais tarde frequentou a prestigiada Universidade de Stanford, onde se formou em economia, despertando o interesse pelo direito mais tarde..Em 1952 casou com um colega de faculdade, John Jay O'Connor, tendo desempenhado as funções de procuradora-geral assistente do Arizona entre 1965 e 1969..Depois de deixar o Supremo Tribunal em 2006, em parte devido à batalha do seu marido contra o Alzheimer, Sandra Day O'Connor fundou em 2009 a iCivis para ensinar educação cívica.