Montijo? Alcochete? Vejam o "Airbus 2035"

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A todos os que demoraram 50 anos a não decidir sobre o aeroporto de Lisboa, obrigado! Vivemos 50 anos sem aterrar ainda mais a nossa conta pública e, afinal, terá havido apenas uns poucos meses (em 50 anos) em que a Portela esteve na capacidade total. No restante, chegou e sobrou. Posto isto, há que mudar? Sim, para melhor. Muito melhor. Na Portela.

Como? O futuro está aí, à porta. Vejamos a página da Airbus (https://www.airbus.com/innovation/zero-emission/hydrogen/zeroe.html). Em 2035 teremos aviões híbridos (hidrogénio + baterias), resolvendo assim o problema da poluição e do ruído. Só podemos pensar aeroportos perspetivando os aviões que surgirão. Ou não? Além disso, o desenvolvimento da aviação em helicópteros elétricos para médias distâncias (600 quilómetros) foi exibido pela Uber na Web Summit de 2019 e tinha como meta 2025. Quantos voos esta concorrência vai suprimir? E eles levantam e descolam dos terraços de grandes edifícios nos centros das cidades.

"Esgotamento da Portela". Em 2019, Lisboa recebeu 31 milhões de passageiros. A cidade quer ainda mais gente? Ou a pressão esmagadora dos últimos anos, que a virou contra o próprio turismo, não existiu?

Outras boas notícias: muitos voos usados para reuniões e negócios passarão a ser Zoom. Além disso, a ANA/Vinci mantém um plano de mais 650 milhões de investimento para crescimento da Portela até 2028, o que deverá aumentar a capacidade de passageiros para 35 milhões ou mais. Não chega?

Entretanto, o tal futuro aeroporto do Montijo, em pleno Tejo, está numa zona considerada em "risco de alagamento". Quem toma uma decisão destas não acredita no gigantesco risco das alterações climáticas? Mais: bombardear o estuário mais importante de avifauna da Europa com descolagens e aterragens permanentes significa olhar para o futuro com ideias de ontem. O que decidiriam, hoje, as gerações que viverão em Lisboa daqui a 20 anos? Privilegiariam o pouco que sobra de um ambiente vivo em redor da grande metrópole ou prefeririam mais uns milhões de turistas low-cost na sua cidade?

Ah!, claro, não esquecer Alcochete. Já que estamos financeiramente pujantes, gastemos a fatia de leão do investimento público para fazer uma megacidade aeroportuária, deixando o centro de Lisboa a uma hora de distância - além dos enormes gastos em ferrovia dedicada para trazer os passageiros. E, claro, uma inevitável terceira ponte sobre o Tejo, também da Vinci.

Se tivermos juízo, eis as contas do que se poupa: a Vinci entrega ao Estado (ou diminui em taxas aeroportuárias) os tais 500 milhões que não investe no Montijo. Além disso, como não se faz Alcochete, são menos sete mil milhões de investimento em betão (dos quais, supostamente, o Estado teria de suportar com seis mil milhões).

E ainda por cima, como noticiava ontem o DN, o Estado não terá de pagar 10 mil milhões de indemnização à Vinci caso esta não vença a empreitada de Alcochete - e tenha de ser indemnizada pela saída da Portela (José Luís Arnault é conhecido por fazer bons contratos com o Estado português).

Somando: 500 milhões + 6000 milhões + 10 000 milhões = 16 500 milhões. Sim, é esta a conta do que virtualmente se poupa em aumentar-se a Portela (e colocando eventualmente Beja na equação se necessário, ou Alverca para a carga).

A Portela é o maior trunfo do futuro de Lisboa. Construir-se, agora, um aeroporto no Montijo ou em Alcochete é como sonhar-se uma vida inteira com a compra de um BMW topo de gama a gasóleo, e fazê-lo em 2021. É só estúpido.


Jornalista

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