A teoria da "cabala" regressou ontem ao processo da Casa Pia através de Francisco Moita Flores. Em tribunal, o antigo inspector da Polícia Judiciária (PJ) atribiu a criação de tal teoria a Orlando Romano, actual director nacional da PSP, afirmando que António Costa acabou por "comprar" a tese que foi veiculada em 2003 após a detenção de Paulo Pedroso.."Sei que foi ele que a 'vendeu' como uma explicação", disse ao tribunal Moita Flores, adiantando que mantém desde há anos um conflito com Orlando Romano. "António Costa 'comprou' a explicação desse magistrado do Ministério Público", concluiu. Moita Flores disse ainda que o envolvimento do seu nome na teoria da conspiração é um fardo que carrega há anos, garantindo que dos nomes que se falava, apenas tem relações pessoais com Marques Vidal (ex-director da PJ) e Serradas Duarte (ex-director da DINFO, antigos serviços secretos militares)..A teoria da "cabala" - veiculada nos meses seguintes à detenção de Paulo Pedroso, em Maio de 2003 - dizia respeito a uma suposta estrutura de pessoas que, nos bastidores da justiça, teriam inquinado o processo de forma a implicar figuras do PS, nomeadamente Pedroso e Ferro Rodrigues (ex-secretário geral socialista)..Foi António Costa (então líder parlamentar do PS) que, em depoimento prestado ao Ministério Público a 24 de Junho de 2003, insistiu no nome de Moita Flores. Segundo o auto de declarações, António Costa disse que "já ouviu até dizer que Moita Flores se dedica a culpabilizar ou inocentar pessoas, arguidas no âmbito de processos que decorrem em tribunais". Costa referiu ainda ter conhecimento que "Moita Flores terá dito a alguém que grande parte do seu tempo era actualmente dedicado a conseguir a absolvição de Carlos Cruz, tendo para o efeito quatro jornalista a trabalhar para si, um deles de nome Van Kriken [que edita o site reporterx.net]"..Ontem, Moita Flores disse que falou "duas ou três vezes" com o jornalista free lancer que o procurou para "tirar dúvidas sobre técnicas de investigação". Declarações que não coincidem com as prestadas ao MP a 25 de Junho de 2003. Aí, Moita Flores disse que Jorge Van Krieken o "contactou várias vezes por telefone, pedindo esclarecimentos sobre pedofilia designadamente relativos a Carlos Cruz"..A cabala dada....Após a detenção de Paulo Pedroso, a 23 de Maio de 2003, a teoria da cabala começou a ser veiculada pelo PS. No processo, consta uma escuta entre Ferro Rodrigues e António Costa, na qual se faz referência à divulgação da "fileira de nomes" e do "núcleo sinistro" que estaria por detrás do envolvimento dos dirigentes socialistas..De acordo com vários depoimentos prestados a informação de que havia elementos do PS envolvidos no processo da Casa Pia chegou a Ferro Rodrigues através do-expresidente da RTP, João Carlos Silva, e do editor Alexandre Manuel. Ambos declararam ao MP ter recebido a informação de Moita Flores. Saldanha Sanches foi outra das fontes socialistas. O fiscalista afirmou que teve conhecimento do envolvimento de dirigentes do PS através de "um jornalista free lancer", que não identificou. Segundo contou ao MP, o tal jornalista falou-lhe que estava na forja uma acção contra Ferro Rodrigues. Saldanha foi então falar com Ferro.. O ex-líder do PS, em declarações no processo, chegou a estranhar esta coincidência de recados que lhe estavam a chegar, admitindo que alguém poderia pretender que o PS reagisse publicamente antes da detenção de Pedroso. Ferro chegou a declarar: "A outra tese, aquela que defende António Costa, e a que o depoente é sensível, consiste na maquinação com vista a destruir a investigação, para defender alguém que já esteja preso ou possa vir a ser." .João Carlos Silva, ex-presidente da RTP, afirma no DIAP que soube por Moita Flores que Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso estavam mencionados no processo..Ao DIAP, Ferro Rodrigues confirma a versão de João Carlos Silva e revela outras "fontes": Alexandre Manuel e Saldanha Sanches..António Costa afirma que, após a prisão de Paulo Pedroso, João Carlos Silva lhe disse, "a pedido de Moita Flores, que também António José Seguro estava referenciado nos autos..Luís Bonina (procurador-geral adjunto no Tribunal Constitucional) declara que foi contactado por António Costa. Este teria "interesse em saber se era possível haver depoimentos não verdadeiros"..No mesmo dia, Orlando Romano diz no DIAP ter a "pior opinião possível" de Moita Flores e que o antigo inspector da Polícia Judiciária era "capaz de tudo"..Alexandre Manuel, editor da Editorial Notícias, declara que Moita Flores lhe disse que "havia nomes importantes do Partido Socialista que iriam ser chamados ao processo", acrescentando que Ferro não estaria directamente implicado.