É num primeiro andar da Rua do Barão, em Lisboa, que o francês Franck Christian Mellier traça com uma perícia milimétrica a cartolina com que faz os moldes das peças de vestuário. Quem o observa debruçado sobre a mesa de trabalho, de lápis e régua nas mãos, não acerta logo no ofício a que se dedica vai para dez anos. Não é projectista nem desenhador nem arquitecto. Franck é modista, o que, se é invulgar em Portugal, no país onde nasceu é até «bastante comum». Em França, «o que não falta é homens atrás da máquina de costura». Foi por influência de uma mulher, na altura aspirante a estilista e hoje sua companheira na vida e no trabalho, que se inscreveu no curso de modista. Um empurrão com a força da paixão que também o levou a trocar a pequena Elisabeth Ville, a 35 quilómetros de Paris, por Lisboa, há sete anos.É no atelier que Franck e a mulher, Diana, passam os dias – a casa, do outro lado da rua, vão só para jantar e dormir –, ele às voltas com os moldes, ela nos desenhos. «Eu não sei desenhar, isso é a única coisa que não faço.» As paredes da sala onde a estilista e, faz questão de frisar, «também modista» reproduz no papel as ideias para roupa que aos dois surgem «na cabeça» estão forradas de cima a baixo com esboços, propostas do que podem vir a ser casacos, saias, calças, camisas, vestidos, para o dia-a-dia e ocasiões especiais. É neste espaço iluminado pelo sol que começa o trabalho de criação, porque o de confecção à medida, o de modista, está claro, inicia-se noutra sala, quando as clientes chegam com o tecido e as ideias; se não trazem nem uma coisa nem outra, Diana acompanha-as às lojas de tecidos, sugere, escolhe. No atelier de Diana e Franck cria-se e faz-se por medida. A linha comercial sai daqui para as lojas com a marca S.Original (S de Scoopy, o «nome do nosso cão») e, não tarda, sairá também a linha de peças exclusivas (de criação ou confecção por medida) com a assinatura Dianafranck. Diana adora desenhar, contudo não assume preferências: «Não sou capaz de dizer que gosto mais de ser estilista do que modista.» É uma e outra com igual empenho e prazer. «Ser estilista permite-me dar largas à minha imaginação, ser modista aproxima-me mais da realidade das pessoas.» Tirar-lhes as medidas, conhecer-lhes a fisionomia, ouvi-las, ouvi-las muito, as suas ideias, expectativas, tornar reais os seus desejos. A melhor publicidade é a satisfação dos clientes e por isso o trabalho deste jovem casal estende-se à transformação e por vezes ao arranjo. Um vestido fora de moda que transformam num casaco moderno. De calças fazem saias. Num casaco envelhecido colocam golas novas ou aplicações de pele. Diana mostra alguns exemplares pendurados num expositor, numa sala recuada, escura, onde Alexandre, de sete meses, dorme a sesta.Uma cliente aproxima-se. A cara não é estranha. É a actriz e apresentadora de televisão Raquel Henriques, para a prova de umas calças e de um vestido. Raquel é uma habituée no atelier de Diana e Franck. Hoje cruzamo-nos com Raquel, mas podia ser Sónia Brazão, Sara Aleixo, Andreia Dinis, Tina T, Santos e Pecadores, Flores de Lis (vencedores do Festival da Canção), que se incluem na lista de «setenta clientes regulares». Trabalho não falta a este jovem casal, que entre linhas e agulhas e tesoura e fitas métricas e desenhos e tudo o resto ainda trata do filho bebé, entretanto acordado e agora ao colo do pai a beber leite do biberão, enquanto a mãe marca com alfinetes o vestido que Raquel irá usar numa gala. A apresentadora quere-o «mais justo», para realçar ainda mais a fina cintura. «A Diana e o Franck sabem melhor do que ninguém as minhas preferências em termos de roupa. Confio cegamente no trabalho deles. O problema é que quando nos habituamos a fazer roupa à medida tornamo-nos mais exigentes quando vamos ao pronto-a-vestir e muitas vezes é difícil encontrar peças de que gostamos. Infelizmente, não tenho dinheiro para me vestir todos os dias com roupas à medida, mas não posso queixar-me, tenho bastantes peças feitas pela Diana e pelo Franck. É dinheiro muito bem gasto. Compensa.» O atelier fica a escassos metros da Sé de Lisboa e a dez minutos, a pé, do Chiado, aonde em tempos as pessoas se deslocavam para ir às modistas e às mais afamadas lojas de tecidos; talvez por isso Ramalho Ortigão falava da rua principal do Chiado como a «ladeira vaidosa», em que não faltavam locais de culto para comentar a ostentação e a elegância no vestir e no porte. A literatura relata um século xix e princípios do xx em que era costume as senhoras da alta sociedade mandarem copiar as cores e os padrões impostos pelas revistas. Revistas de França, de Paris, de onde a moda se ditava. Isso não escapou à mordacidade de Eça, que, exageros à parte, dizia que «a moda é que é uma religião», que «a modista reina, absorve tudo, não deixa tempo para a menor ocupação ou curiosidade de espírito».Por toda a capital portuguesa se instalaram mulheres que faziam roupa por medida, «a maioria também de origem francesa», como atesta Maria Luísa V. Paiva Boléo, autora do livro Casa Havaneza, 140 Anos à Esquina do Chiado, «o que prova que em questão de modas os e as portuguesas se dispunham a gastar o que tinham e o que não tinham» para andar vestidos pelas tendências europeias. Tempos mesmo idos, que actualmente as modistas são coisa rara de se encontrar, isto se não as quisermos confundir com a costura de arranjos. Subir bainhas, apertar, alargar, coser botões, colocar um fecho. Modista, «mulher que confecciona tudo o que diz respeito ao vestuário, especialmente de mulher ou criança», que para os homens existem os alfaiates, «indivíduo que confecciona vestuário masculino, sobretudo fatos» (Dicionário da Língua Portuguesa 2003, Porto Editora).Com a massificação do pronto-a-vestir, pode dizer-se que hoje é chique ir à modista. E já não para vestir à francesa dos pés à cabeça, que a moda agora é global e as tendências vêm dos quatro cantos do mundo. Roupa à medida é mais cara, mas diz quem usa que «compensa». Não deve haver quem duvide da democratização da moda que as Zaras e as Mangos e as Bershkas e outras tornaram possível com os acabamentos razoáveis e preços acessíveis. O senão é mesmo a industrialização das quantidades das peças. Igual para toda a gente. Quem já não se cruzou na rua ou num evento com... um vestido igual ao nosso? A queda das vendas no pronto-a-vestir instalou-se e já nem a época de saldos tem o impacte de outros tempos, em parte devido às promoções a meio da estação, estratégia a que aderem cada vez mais lojas. Num passeio rápido pelas ruas da Baixa lisboeta, a impressão que fica se se espreitar o interior é a de que estão cheias de artigos e vazias de clientes. Diz-se agora que é por causa da crise – antes a culpa era dos chineses, que invadiram o mercado do têxtil nacional com produtos mais baratos embora de «qualidade inferior», e das Zaras, das Bershkas e das Mangos que, além de saberem fazer montras que apelam ao consumo dos fregueses, comercializam roupa de corte actual e com bons acabamentos. Mas é claro que o senão existe e por causa dele muitas pessoas vão à modista. «Dantes comprava muito nessas lojas, as roupas são giras, ao meu gosto, mas todas iguais. A sensação era mesmo essa, andava igual a toda a gente.» Helena tem 29 anos e por conveniência profissional tem um guarda-roupa clássico, onde antes predominavam as «cores discretas» em conjuntos saia-casaco, calças, blazers e camisas e, mais recentemente, desde que passou a ir a uma modista indicada por uma amiga, vestidos que lhe «assentam como uma luva». «Agora sinto-me mais feminina quando estou a trabalhar, sem fugir ao estilo clássico. Nas lojas não arranjava vestidos que me ficassem bem. Gostava assim-assim, mas não o suficiente para gastar sessenta ou oitenta euros.» É para um vestido que pretende usar «em momentos mais descontraídos, fins-de-semana ou praia», que Helena vasculha o monte de retalhos a 1,90 euros o metro: «Este tem tecido suficiente e a cor é linda», um verde-seco liso de textura leve. Vai ficar-me bem quando estiver um pouco mais bronzeada.»Se nas lojas de pronto-a-vestir o que falta é clientes, aqui, na Feira dos Tecidos, na Rua do Ouro (ou Áurea, como se mantém na placa), podem já não encher a casa como há dez anos – esses, sim, «foram bons anos», como certifica o gerente António Miguel Vieira –, mas ainda chegam para impedir que o espaço esteja «às moscas». No mesmo caixote vasculhado por Helena, Maria de Lurdes procura pano para fazer um par de calças. Um azul-escuro às riscas salta-lhe à vista, tira-o do monte e tira-lhe as medidas com o olhar. Maria de Lurdes faz a roupa que veste. Sempre foi assim e será, pelo menos enquanto a saúde o permitir e a cabeça não se esquecer da arte que aprendeu ainda moça. Modista aposentada a residir no Cacém, sempre que vem a Lisboa não dispensa a entrada na Feira dos Tecidos, de que é cliente desde que «ardeu o Chiado». Aos 75 anos, desapareceu-lhe a gana para vestir a pele das «dezenas de clientes fiéis» que conquistou ao longo de anos, debruçada sobre a máquina de costura – «uma Singer muito boa que nunca me deixou ficar mal, custou-me 3500 escudos». É com ela que faz tudo o que veste, «até as blusas de malha». Os tecidos compra-os aqui, que noutra casa não entra. «Porque aqui há de tudo e a vários preços. Os retalhos são baratos e se procurarmos bem encontra-se muito jeitosos», como o que tem nas mãos: «Isto deve ficar à volta de dois euros [ficou por menos, por 1,15 euros]. Como sou eu que faço, não encontro mais em conta. Onde é que eu ia arranjar umas calças por dois euros?» De Sacavém até à Feira dos Tecidos vem de propósito Maria das Dores Gameiro. Também foi modista e também faz toda a sua roupa que copia de revistas de moda. «Estou a ver se arranjo uma ganga para fazer uma saia aberta à frente.» Aqui tanto se encontram clientes de confecção à medida como modistas. Suzete, modista de «grandes senhoras» das avenidas novas da capital e de lugares mais distantes, tem mãos que fazem milagres, concretizando os desejos mais caprichosos das clientes. No seu exíguo atelier, numa rua de sentido único ao lado da estação de comboios Roma/Areeiro, os tecidos misturam-se com peças já alinhavadas à espera de prova. Mexe na matéria-prima como se da coisa mais frágil se tratasse, tal a sensibilidade e a elegância com que passa a palma da mão no pano para lhe sentir a textura, antes de o cingir à cintura da cliente e de lho traçar em diagonal sobre o peito. Um ritual que não permite distracções, menos ainda quando se marca um corpo com alfinetes. É na prova que os corpos se realçam ou se disfarçam em sedas e cetins e algodões e fazendas, conforme a estação, que Suzete sabe trabalhar com todo o tipo de tecidos. A sala de provas é onde a intimidade se estabelece. A modista conhece o corpo das clientes como ninguém, o que lhes fica bem, o que lhes fica mal, o que é para esconder, o que é para valorizar. A imagem reflectida no espelho de corpo inteiro para as «madames» se verem – «era assim que se tratava as clientes antigamente, agora é senhora isto, dona aquilo, e se é doutora é doutora que chamo» –, determina a decisão final e quase sempre as sugestões de Suzete prevalecem. «Tenho senhoras que querem uma blusa como a das revistas que trazem, mas por vezes o tecido não dá para fazer aquele efeito ou não têm corpo para usar a blusa.» Um ombro mais alto do que o outro, uma perna mais curta do que a outra e desvios na coluna são «defeitos» que as manequins das revistas de moda não têm e esse é um aspecto de que muitas clientes «não se lembram». Vale-lhes a mestria de Suzete, que aperto aqui, acrescento ali, consegue resultados ao gosto das «madames». Muitas, de ideias bem definidas, «sabem o que querem», outras tantas indecisas em busca de inspiração na Burda, na Diana, na Figurino e até na sofisticada Cadena, de que Suzete tem vários números e de onde já retirou diversos modelos. «Esta é a minha revista preferida. Quando as clientes não sabem o que querem, aqui é certo que encontram, porque além das roupas tem as amostras dos tecidos. Se as senhoras querem, encomendo o tecido.»Longe vai o tempo em que pela sua Pfaff passavam toilettes inteiras que completavam toda uma estação. Hoje, não só a máquina está avariada e a precisar do arranjo do senhor Rui – «se não for ele eu não trabalho» –, como as clientes já não mandam fazer toda a roupa na modista. O pronto-a-vestir, apesar de estar em crise, continua a ser um concorrente feroz, pelo preço e pela variedade. Mas não é razão para queixume, que às modistas não falta trabalho. Pode faltar é tempo para responder aos pedidos. Os expositores de roupa já pronta, para prova e para finalizar, dão uma ideia imprecisa de clientes regulares, atraídos pelo «método antigo de costurar». Suzete pagou para aprender e não foi sem merecer e dar provas de empenho que a colocaram à frente de uma máquina de costura. «Primeiro andei aos recados, ia buscar material à retrosaria, ia a casa das “madames” entregar os vestidos e só dois anos depois, para aí com 18, é que comecei a aprender o corte. A minha formação durou quatro anos.» Mais cedo, muito mais, começou Maria Manuela Brito. Primeiro a alinhavar, pouco depois a pregar botões, mais tarde a arriscar-se nas bainhas e a casear. Tinha 7 anos quando a avó a iniciou no corte e na costura, sempre à tarde, depois da escola e dos TPC feitos. «Eu adorava ir para o pé da minha avó para aprender. Estava na escola e só pensava na hora de ir para casa. Fazia os trabalhos da escola à pressa porque, não sei, a costura puxava-me, era o que eu queria fazer.» Aos 15 anos «fazia tudo sozinha», já sem a supervisão da avó. A autonomia conquistou-a com um vestido para si própria, «às escondidas» da mestra. «Ficou largo, mas era muito bonito. Preto e branco com um cinto forrado e a bainha franzida.» Vivia em Baleizão, uma pequena aldeia alentejana perto de Beja, de onde saiu mal completou 19 anos e se instalou em Lisboa. Antes de se estabelecer como modista, tentou o sucesso como estilista, «com curso e tudo», tirado entretanto em Londres. É para lá que voltará «daqui a três meses», porque cá secaram as expectativas de recuperar o que já teve e que de um momento para o outro se desmoronou: três lojas de roupa criada por si e encomendas de outras casas. «Tinha dez costureiras a meu cargo. O negócio foi de vento em popa durante anos e em seis meses perdi tudo, porque as casas que eu fornecia deixaram de me pagar as encomendas.» Agora «sou só modista». É num espaço arrendado na Avenida Madrid, em Lisboa, que recebe as clientes e lhes faz as toilettes. Diz que gosta de «fazer a pedido das senhoras», mas o brilho nos olhos e o entusiasmo na voz só surgem quando fala do tempo, recente, em que criava. E de novo Londres vem-lhe ao pensamento. Não fosse o sonho de voltar a ser estilista mais forte do que «tudo o resto», Maria Manuela teria aqui trabalho suficiente para «pagar as despesas e até pôr de parte algum. Tenho 54 anos. Se não tento ser o que sempre quis agora, quando será? A minha filha está em Londres. O meu filho vai para lá e também quer ser estilista». Quem lhe sentirá a falta são as «cem clientes ou mais» que conquistou em apenas quatro anos, embora Maria Manuela garanta que outras a substituirão. «Já não há muitas modistas boas, que sabem fazer o trabalho como deve ser, mas ainda há algumas. Isto é uma profissão que as raparigas novas já não querem seguir. Hoje há cursos de estilismo, de designers de moda. Quem quer ser modista?» Até pode faltar quem queira ser, o que não faltará é quem queira mandar fazer roupa à medida. Oxalá Maria Manuela se engane. Sem modistas, a rua, a maior passerelle do mundo, perderá glamour.