Modernidade e crise do humanismo

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No processo da modernidade, que são os últimos 300 anos, o humanismo ocupou lugar determinante. Quando comparamos épocas, constatamos que a cultura grega foi fundamentalmente cosmocêntrica, na medida em que era a partir do cosmos ou da natureza que compreendia a realidade. A Idade Média foi teocêntrica: tudo era visto e compreendido a partir de Deus. A modernidade fez do homem o centro, sendo a partir dele que tudo se legitimava.

A grande aspiração foi então a emancipação frente à natureza, à tradição, à religião. O objectivo era a plena conquista de si mesmo em todos os domínios. A posse de si mesmo significa autonomia e será alcançada mediante a confiança no poder da razão, sobretudo na sua vertente físico-matemática, que renuncia ao conhecimento das essências metafísicas para concentrar-se nos fenómenos quantificáveis e, portanto, matematizáveis.

A razão e a liberdade são as armas com que o homem moderno tem a convicção de poder realizar o seu projecto. Mas precisamente este projecto - e estou a seguir José M. Vegas - tem desde a raiz a marca de uma ambiguidade, que consiste na cisão da experiência humana em dois âmbitos irreconciliáveis.

A posição da razão, reduzida à sua dimensão objectivante físico-matemática, e a da liberdade, que tende para a afirmação do sujeito, aparecem como incompatíveis.

O carácter inconciliável da razão e da liberdade, da natureza e da consciência, da objectividade e da subjectividade, manifesta-se de múltiplos modos ao longo da modernidade. Exemplos são o dualismo da coisa pensante e da coisa extensa (Descartes), a cisão entre a razão e o sentimento (Hume), os dois usos da razão segundo Kant: teórico (campo do saber científico e do determinismo) e prático (domínio da liberdade e da ética).

O humanismo de Feuerbach colocou o homem no lugar de Deus (a teologia não é senão antropologia), mas, em última análise, acabou por reduzi-lo à natureza, como fará também Karl Marx. Neste sentido, a modernidade é uma série de tentativas em ordem à síntese das duas instâncias que definem o seu projecto: razão científica e liberdade subjectiva. Quando se afirma a linha da liberdade, tem lugar o humanismo. Com a afirmação do predomínio da razão científica, o sujeito humano vai-se diluindo, de tal modo que, com o tempo, surgem vestígios de um anti-humanismo de orientação cientificista.

A partir do século XIX, com o aparecimento das ciências humanas, o homem vai tornar-se objecto de investigação segundo o modelo da Física e, portanto, mediante leis naturais e necessárias, no quadro de uma explicação naturalista.

Paradoxalmente, o projecto moderno de emancipação é acompanhado no seu antropocentrismo por sucessivos descentramentos. É o que Freud chamou as humilhações do homem.

Há um descentramento cosmológico: depois de Copérnico, o homem já não ocupa o centro do universo; com Darwin, dá-se o descentramento biológico: o homem aparece por acaso na linha da evolução e, portanto, em continuidade com os animais; deve-se ao próprio Freud a humilhação e descentramento psicológico: o homem já não domina pela consciência soberana e racional, pois está sujeito a forças e impulsos inconscientes; com o positivismo e Karl Marx, a consciência parece sujeita a leis necessárias da sociedade e da História; há um descentramento linguístico-estruturalista, que dissolve o sujeito em estruturas impessoais; poderá falar-se de um descentramento computacional, que quer explicar o homem a partir de processos cibernético-computacionais.

Deste modo, como escreveu Javier San Martín, agora, quando se reflecte sobre o homem, é pelo menos necessário perguntar até que ponto a subjectividade humana é um "sujeito-de" para lá de um "sujeito-a".

As actuais investigações etológicas, bioquímicas, da genética e das neurociências constituem talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma concepção verdadeiramente humanista e espiritualista do Homem, por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação no quadro do zoologia e da bioquímica.

Quem, porém, cedesse à lógica do materialismo mecanicista ou do biologismo teria de aceitar a dissolução da diferença entre a cultura e a natureza, entre o homem e o animal, e, em última análise, de abandonar o imperativo de Kant: "Nunca trates a humanidade como simples meio" e de esquecer a afirmação de Cícero: "Res sacra homo" - o Homem é realidade sagrada.

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