Mistério dos raios cósmicos resolvido após cem anos

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São raríssimos. Chegam à Terra ao ritmo de um por século, e por quilómetro quadrado, mas vêm animados pela energia mais elevada que se conhece, um milhão de vezes superior à que o acelerador terrestre mais potente consegue imprimir a um feixe de partículas. São os raios cósmicos ultra-energéticos, e uma equipa de mais de uma centena de cientistas de 17 países, que inclui 12 portugueses, acaba de desvendar dois dos mistérios que há um século envolviam estas partículas cósmicas, desde que elas foram descobertas: a sua origem e também a sua natureza.

A descoberta, que "abre portas a novos caminhos de investigação em astronomia e na própria física de partículas", como adiantou, satisfeito, ao DN Mário Pimenta, físico e líder da equipa portuguesa do LIP-Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, que participou na pesquisa, é publicada hoje na Science.

A partir de um conjunto de 27 destas partículas ultra-energéticas, pacientemente coleccionadas nos últimos dois anos pela equipa internacional no Observatório Pierre Auger, instalado na pampa Argentina, os cientistas descobriram que estes raios cósmicos de alta energia são produzidos por galáxias que têm no seu centro buracos negros activos.

Estes são objectos raros entre as próprias galáxias, que os cientistas designaram AGN, a abreviatura de Active Galactic Nuclei, e ficam a distâncias da ordem do 245 milhões de anos-luz da Terra. Ou seja, "relativamente perto, à escala do universo", explica Mário Pimenta.

Maior detector de raios cósmicos do mundo, o observatório Auger, que cobre uma extensão de três mil quilómetros quadrados, começou a funcionar há dois anos e estará em plena operação no final de 2007, com 1600 detectores e quatro conjuntos de seis telescópios de ultravioletas.

"Portugal aderiu há dois anos à experiência Auger", conta o líder da equipa portuguesa, que não esconde a satisfação pelos resultados obtidos e pelas novas perspectivas de trabalho que abrem. "Sabemos agora qual é a origem destes raios cósmicos e o também o que são: protões", explica Mário Pimenta, sublinhando que isso "permitirá estudar melhor os buracos negros" e conduzirá um dia à solução para uma terceira interrogação que fica no ar, sobre a forma como estas galáxias vorazes produzem e aceleram estes raios cósmicos. Mário Pimenta não tem dúvidas: "Isto vai pôr-nos todos a pensar".|

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