Missão impossível! A impopularidade provocada pela política de austeridade do Bloco Central, além da maior derrota eleitoral da história do PS - que apresentava Almeida Santos como candidato a primeiro-ministro e, devido ao surgimento do eanista PRD, só teve 20,8% nas legislativas de 6 de outubro de 1985 -, colocou em risco o maior desejo de Mário Soares: ser presidente da República, como anunciara a 27 de julho. Ficou célebre o título do editorial do DN de Mário Mesquita, um fundador do PS há muito transferido para o campo eanista: "Deus não dorme." "A opinião pública hostilizava-me, por causa das medidas de austeridade que eu impusera" (Memória Viva, Dominique Puchin)..Perdido o apoio que sempre esperara do PSD, também hipotecara eventuais simpatias à sua esquerda. Em entrevista a Maria João Avillez, a 30 de março de 1985, Cunhal sustentava que "um dos objetivos fundamentais é a derrota dos candidatos da direita (incluindo Mário Soares) e a eleição de um candidato que garanta, no exercício das suas funções, o respeito pela Constituição e pelo Portugal democrático, tal como está definido na Constituição". Ainda por cima, admitia em Um Político Assume-se, o próprio Soares "não tinha ilusões: para alguns membros do PS [a candidatura presidencial] foi uma maneira amável de se verem livres de [si]"..As primeiras sondagens davam-lhe, então, cerca de 8% das intenções de voto e, além do candidato da direita Freitas do Amaral, com uma campanha à americana e uma dinâmica que parecia imparável, não só tinha de enfrentar, no que ficaria conhecido como umas "primárias" à esquerda, a candidatura da esquerda extraparlamentar Maria de Lourdes Pintasilgo como também a "surpresa" do seu ex-número dois no partido e velho camarada Salgado Zenha, que se demitira do PS a 12 de novembro (na véspera de Soares se autossuspender), e que era apoiado pelos eanistas, pelos comunistas e por uma parte dos socialistas. "Para mim, que sempre mantive com o Zenha uma amizade fraterna, foi um golpe muito doloroso, tanto mais que só tive conhecimento da sua decisão pelos jornais" (Um Político Assume-se)..Aparentemente, era o fim da sua carreira política - e alguns consultores americanos terão dito que era impossível eleger Mário Soares (Uma Vida) . "Obriguei-me, por isso, a avançar de cara alegre ao que acontecesse" (Um Político Assume-se). Constituído o MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência), o princípio da campanha parecia confirmar essa quase inevitabilidade. "Lembro-me de que numa das primeiras saídas de Lisboa fui a Santarém, onde numa sede de campanha extremamente pequena fui recebido por uma escassa dezena de militantes, que não escondiam o seu pessimismo quanto ao resultado. (...) A campanha foi-se desenrolando, agravada ainda com as dificuldades do inverno, que foi severo" (ibidem)..Mas nestas "primárias", enquanto Pintasilgo teve de ser apoiada secretamente pelo MASP para não desistir e roubar votos a Zenha, a campanha deste, na descrição de Alexandre Coutinho, "foi morna e nunca conheceu momentos de verdadeira euforia ou adesão popular", mesmo se o comunista Ângelo Veloso servia como "uma duplicação do espaço de cobertura e do tempo de antena" e Manuela Eanes surgia "como embaixatriz do apoio do então presidente"(Como se Faz Um Presidente)..Até que na Marinha Grande os descontentes com o desemprego, "armados" com bandeiras pretas, tentam agredir o candidato que tinha sido primeiro-ministro e "racharam a cabeça de um segurança, perante as câmaras de televisão" (Um Político Assume-se). Em pleno tumulto, Mário Soares grita uma frase adaptada da Revolução: "A Marinha Grande é do povo, não é de Moscovo." E "a coragem demonstrada, na ocasião, pelo candidato valeu--lhe um efeito de impulso dos seus apoiantes e a conquista de muitos novos votantes" (Como se Faz Um Presidente)..A partir daí, parece que se agiganta em torno do movimento que começa a proclamar "Soares é fixe". E, após o debate televisivo em que enfrenta o padrinho da filha numa conversa fratricida, vai conseguir o seu primeiro objetivo: derrotar o seu antigo amigo e a ex-primeiro-ministra, na primeira volta. Apesar de Freitas do Amaral ser o mais votado a 26 de janeiro de 1986 (registando 46,3%), Soares vencia à esquerda com 25,4%, contra 20,9% de Zenha e 7,4 % de Pintasilgo..Na segunda ronda, parecia não se confirmar o que Tony Judt escreveria mais tarde em Pós-Guerra - História da Europa Desde 1945: "O próprio Mário Soares, tendo há muito abandonado a sua retórica anticapitalista, ascendeu à presidência do País em 1986, ano em que Portugal foi admitido na Comunidade Europeia" - a adesão, já assinada, só teve efeitos práticos a partir de 1 de janeiro deste ano. No fundo, como sublinha Alexandre Coutinho, na única segunda volta da III República, "a campanha de Mário Soares faz apelo a valores coletivos da luta contra o fascismo, não somente através das imagens como também nos discursos emotivos, reavivando nas massas sentimentos que já se encontravam adormecidos, mas que ainda estavam presentes" (Como se Faz Um Presidente). Deve ter sido a última vez que agitar o fantasma do fascismo (ou do comunismo) resultou..Álvaro Cunhal era obrigado a convocar um congresso extraordinário do PCP para aconselhar o voto em Soares contra Freitas - que, "na opinião do escritor e jornalista Fernando Dacosta , "Freitas do Amaral falhou porque o ator não aguentou o papel""(Como se Faz Um Presidente) . No artigo "Parabéns, Dr. Cunhal", que publicou no DN em novembro de 1993 para assinalar os 80 anos do seu "inimigo íntimo", Mário Soares registava esse momento em que o líder comunista explicara a necessidade de os comunistas "engolirem um sapo". "Quem não se lembra de o ver na televisão em tom didático?" "Tapem-lhe a cara com a mão esquerda - essa horrenda figura -, mas com a direita, não esqueçam, ponham a cruzinha no lugar certo".".E com Rui Veloso a tocar Rock da liberdade e a JS a gritar "uma bochecha mimosa no palácio cor-de-rosa", na mais disputada das corridas a Belém, a 16 de fevereiro Mário Soares era eleito (51,2%), derrotando Freitas do Amaral (48,8% ) - uma diferença de votos inferior à lotação do Estádio do Benfica..No fundo, confirmava-se o que tinha previsto em setembro de 1975 (isto é, antes mesmo do 25 de Novembro!), J. Rentes de Carvalho, no livro Portugal, a Foice e a Flor, na altura editado na Holanda, mas que só seria publicado em Portugal em 2014: "Mário Soares possui o estofo impecável dos primeiro-ministros que depois chegam a presidentes da República e entram nos manuais de História como "pais da revolução"."