O ministro da Saúde admitiu esta quarta-feira a possibilidade de alargar o recurso a interrupção voluntária da gravidez aos cuidados de saúde primários para ultrapassar os casos em que há dificuldade de acesso por causa da distância.."Já existiu no norte do país, no Centro de Saúde de Amarante, foi interrompida por causa da pandemia e não voltou a ser retomada. Estamos a trabalhar para retomar essa e para, a partir dessa resposta, organizar a possibilidade noutros locais, (...) nos cuidados de saúde primários, para resolver o problema de uma certa proximidade e de uma certa distância", afirmou Manuel Pizarro..O ministro, que falava na Comissão Parlamentar de Saúde, onde foi ouvido a pedido do Bloco de Esquerda, Livre, Iniciativa Liberal e PCP sobre o acesso à Interrupção Voluntária da Gravidez, ressalvou, contudo, que é preciso "respeitar muito a vontade da mulher em relação ao sítio onde quer recorrer a este serviço"..Deu como exemplo a situação nas regiões do Alentejo e do Algarve, em que, independentemente de haver ou não acesso à IVG, as mulheres procuram-no noutras regiões do país.."Provavelmente, as pessoas querem condições de maior privacidade, de maior recato", acrescentou..Durante a audição, Manuel Pizarro disse ainda estar aberto ao diálogo sobre o enquadramento legal da interrupção voluntária da gravidez, mas alertou para que esta discussão não transforme num insucesso um "caso de sucesso da sociedade e do Serviço Nacional de Saúde"..O governante defendeu também que é preciso "examinar com cuidado o que é que se passa nas unidades de saúde", afirmando que há situações muito diversas.."Eu posso admitir que numa ou noutra unidade de saúde não haja acesso à IVG, desde que seja claro como é que as mulheres são orientadas para ter acesso simples a IVG através do SNS", disse o ministro, afirmando admitir também que haja hospitais cujos recursos humanos são muito limitados e não consigam ter equipas para realizar este procedimento..O ministro da Saúde estimou ainda contratar cerca de 200 médicos no concurso de recrutamento dos especialistas que concluíram agora o internato médico, que espera abrir este mês ou, "na pior das hipóteses", em maio.."Eu espero que no mês de abril, na pior das hipóteses no mês de maio, façamos o concurso de colocação dos especialistas que terminaram a agora sua especialidade (...) e espero que isso nos permita contratar cerca de 200 médicos", disse Manuel Pizarro..O ministro respondia a questões levantadas pelo deputado do PCP João Dias sobre a falta de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde (SNS), em que afirmou que o número de utentes sem médico de família aumentou para 1.603.000, mais 56.000 face a 15 de março..João Dias da Silva defendeu que seriam precisos cerca de 7.000 médicos para atender às necessidades, notando que em 15 de março havia 5.482 médicos de medicina geral e familiar e hoje são 5.437, menos 45 médicos "só em 20 dias"..Manuel Pizarro afirmou que o número de utentes sem médico de família também se deve à falta de atualização de ficheiros, que conta ter concluída no final do primeiro semestre.."Daí derivará uma melhoria nos números", referiu, ressalvando que não nega a dificuldade de o SNS assegurar uma equipa de saúde familiar a todos os portugueses e de haver "um número muito grande de portugueses que não têm hoje cobertura adequada de cuidados de saúde primários".."Daí até que possamos extrapolar com dados de há três semanas com dados para depois de três semanas, com franqueza, não me parece que isso seja justo, porque o que acontece naturalmente é que durante ao longo dos meses, nós temos o efeito da perda de profissionais que se vão reformando e isso ainda vai acontecer em 2023 e ligeiramente em 2024, e só de tempos a tempos é que há os processos de admissão que vão minorar essa situação", comentou..O ministro disse ainda ter "muita expectativa" que a conclusão das negociações que estão em curso com os sindicatos médicos a respeito da reformulação da carreira médica "chegue a bom porto" e permita uma compensação mais adequada aos profissionais e com isso resolver uma parte dos problemas de recrutamento..Destacou ainda que o SNS tem em todas as especialidades médicas "mais recursos humanos" do que alguma teve, mas o que se passa é que a necessidade de profissionais é cada vez maior.."Quando transformamos doenças que eram rapidamente fatais em doenças crónicas, onde as pessoas mantêm boa qualidade de vida, isso exige muito mais profissionais para fazer esse acompanhamento", comentou..Por outro lado, apontou o "problema seríssimo da excessiva concentração de cuidados no serviço de urgência".."Nós temos um completo desequilíbrio do sistema, que consome recursos monumentais no serviço de urgência, onde temos um afluxo de pessoas muito superior àquilo que é normal", disse, observando que Portugal tem cerca de 600 idas à urgência por 1.000 pessoas por ano e a generalidade dos países europeus andam em torno das 350..O ministro da Saúde defendeu esta quarta-feira a necessidade de qualificar a resposta de saúde nos lares, onde a carga de doença "é muito elevada", dando como exemplo o acesso direto a um médico 24h/dia através do balcão Saúde24..Questionado pela Lusa sobre a possibilidade de a legislação poder vir a obrigar os lares a terem um médico em permanência -- uma ideia defendida pela Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI) -, Manuel Pizarro disse que a "solução técnica" para melhorar a resposta de saúde nos lares ainda não foi encontrada..O governante reconheceu a necessidade de continuar a "trabalhar em conjunto com a Segurança Social sobre as soluções técnicas" para melhorar as respostas de saúde nos lares e deu o exemplo do acesso direto ao balcão Saúde 24, que alguns lares já tiveram no inverno e que se pretende generalizar a tempo do próximo inverno.."Não temos ainda a solução técnica, mas a orientação política é clara: tem que haver uma qualificação da resposta de saúde nessas estruturas, (...) sobretudo para que as pessoas sejam mais bem tratadas", afirmou o ministro, que falava à Lusa à margem da audição desta quarta-feira no grupo de trabalho de Saúde Mental da Comissão Parlamentar de Saúde..No final de janeiro, o presidente da associação dos médicos dos idosos que estão nos lares defendeu a necessidade de ter clínicos em permanência nestas estruturas, para garantir uma vigilância e assistência regular, evitando muitas vezes o transporte para a urgência.."Concordo que os lares não são hospitais, mas é indiscutível que mais de metade dos idosos internados nos lares são doentes e têm de ter vigilância e assistência regular", disse na altura João Gorjão Clara, que preside à AMIDI..O responsável, que é especialista em Medicina Interna, lembrou que muitos dos idosos que vão para os lares têm várias doenças e levam a sua medicação, que muitas vezes não é ajustada com a devida regularidade e defendeu que os médicos que prestam assistência aos utentes dos lares deviam ter formação específica.."Há lares que nunca têm médico, e aí presumo que a medicação não seja ajustada, em outros o médico vai uma vez por semana e em outros duas vezes", explicou, sublinhando que "isso não cobre as necessidades dos doentes idosos que estão nas ERPI [Estruturas Residenciais Para Idosos]"..Mais de 100.000 idosos vivem nos cerca de 3.500 lares existentes em Portugal, entre lucrativos, setor social e não legalizados.