Minicentros comerciais lutam pela sobrevivência

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Os antigos centros comerciais de Lisboa têm o tempo contado. No dia em que Glória Pascoal deixar de ir ao Roma para tomar um chá de menta e limão ou António Baltazar dispensar os comprimidos naturais do Cine 222, as pequenas superfícies passam à história. "Quando os mais velhos morrerem é o nosso fim", prevê Carlos Nozes, gerente da loja Saúde, Alimentação Racional. Foram eles os primeiros clientes do Cine 222 e são eles os únicos que mantêm o hábito de frequentar o espaço inaugurado em 1979 na Avenida Praia da Vitória.

O declínio do centro não surpreende o proprietário da loja de produtos naturais: "Todos eles fizeram sentido quando a nossa vida era a preto e branco". O mundo multicolor trouxe o Monumental, o Saldanha Residence, o Atrium Saldanha, e o Picoas Plaza. Uma a uma, as galerias do Cine 222 esvaziaram: cinco entre oito esperam por novo proprietário e o cinema encerrou em 2004.

Carlos Nozes é o único que sobrevive desde o primeiro ano. Foi o suficiente para ver muitos partirem: "A última vez que a loja 3 esteve ocupada foi com uma florista que fechou ao fim de meia dúzia de meses". No lugar dela veio um salão de beleza e "resistiu ainda menos tempo".

Saúde, Alimentação Racional só não seguiu o mesmo caminho porque o seu gerente foi inventivo: "Recuso-me a ficar à espera que alguém se lembre de passar por aqui", conta, esclarecendo que faz vendas por telefone e entregas ao domicílio. Além disso, quem ali entra leva, entre ampolas e xaropes, cinco ou seis minutos de conversa: "E todos vão para casa mais felizes porque alguém ouviu com gosto as suas histórias."

As pequenas superfícies de Lisboa perderam a função de centros comerciais, mas ganharam uma nova utilidade. "São os idosos do bairro que aqui vêm para passar o tempo", diz Helena Amaral, funcionária da loja de brinquedos Pipa, no Centro Comercial Roma. Relatam as tropelias dos netos, enumeram as doenças da velhice e vão buscar o passado para esticar as conversas.

São, portanto, sempre os mesmos que enchem o centro comercial da Avenida de Roma. O hábito é tão antigo que muitos ganharam alcunhas. "Temos o senhor Domingos, que nos visita sempre ao domingo, o senhor Every Day, que passa por aqui todas as tardes, e a menina Glorinha, que aparece várias vezes ao dia", conta Rita Nascimento, mostrando a cadeira almofadada que a loja The Body Shop reservou para os "ilustres habitués". " Glorinha", que no bilhete de identidade usa o nome de Glória Pascoal, tem outro poiso certo: o Green Garden. Senta-se sempre na última fila do restaurante e pede meia torrada para acompanhar o chá de menta e limão: "O Roma já não tem o mesmo requinte", desabafa, lembrando que quando o centro se chamava Tuti-Mundi havia maples, mesas em mogno e empregados vestidos a rigor.

Há centros comerciais que nem deveriam ter essa designação, diz Arminda Leitão, que está há oito anos na livraria Tema à entrada do Xenon, na Avenida da Liberdade. "Além da nossa loja só há mais uma", conta. Não é bem assim: resta ainda a sede da Igreja Episcopal Deus é Amor, que ocupa o antigo cinema.

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