Mineiros da Urgeiriça exigem direitos na rua

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Os antigos trabalhadores das minas de urânio da Urgeiriça, no concelho de Nelas, prometem marchar a pé até Viseu e manifestar-se junto à sede do PS, se até ao fim do mês não forem atendidas as suas reivindicações para melhoria das pensões de reforma e indemnizações para familiares de mineiros vítimas de cancro.

A decisão saiu de um plenário de trabalhadores realizado ontem nas instalações da antiga mina e onde ficou decidido endurecer a luta destes mineiros que já dura há 16 anos, desde que a mina fechou.

Foi em 1991 que a antiga Empresa Nacional de Urânio (ENU) encerrou a mina da Urgeiriça, que durante anos deu emprego às gentes de Canas de Senhorim. Poucos meses depois, os antigos mineiros começavam a sentir a presença de diversas doenças profissionais, com especial incidência nas do foro oncológico.

Cancro passou então a ser uma palavra infernal diariamente presente na vida de trabalhadores e familiares. António Minhoto, porta-voz dos antigos trabalhadores da ENU, refere que "só nos últimos cinco anos morreram 80 pessoas que trabalharam nas minas".

A doença tem sido o principal foco de união dos trabalhadores, que lutam para serem "equiparados a mineiros para efeitos de reforma" e exigem as indemnizações "devidas a todos os familiares dos empregados falecidos com cancro", diz o porta-voz.

Marcas duras de uma profissão que atinge antigos trabalhadores do Estado e só querem ver cumpridas as promessas que lhes foram feitas. Os antigos trabalhadores já conseguiram que o Governo aprovasse a realização de exames médicos, mas, segundo António Minhoto, "ainda ninguém foi examinado e o processo só ficará concluído no final do ano".

Exigem que os cerca de 400 antigos trabalhadores ainda vivos sejam recompensados pelo Estado, a quem "deram os melhores anos das suas vidas", refere o mesmo porta-voz.

O Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge já estudou os efeitos na saúde causados pelo trabalho nas minas de urânio e demonstra a "concentração de polónio e chumbo no cabelo das pessoas", apresentando uma relação de "causa-efeito" para as mortes dos ex-trabalhadores.

Em Portugal, a exploração de urânio começou em 1939, no concelho do Sabugal. Durante as décadas de 1950 e 60, devido à guerra-fria, a exploração de urânio subiu significativamente. Foram os anos de ouro de Canas de Senhorim, que duraram até 1991, quando a exploração cessou.

O minério recolhido em todo o País era essencialmente tratado na Urgeiriça. Ali encontram-se ainda guardadas 195 toneladas de urânio, que o Estado, através da Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM), sucessora da ENU, pretende vender. No plenário de ontem, os trabalhadores fizeram ouvir a sua voz e querem que o dinheiro dessa venda "seja canalizado para salvaguardar os gastos com a saúde dos antigos trabalhadores e com as reformas das viúvas".

A proposta não teve seguimento, mas os ex-trabalhadores "não vão permitir a saída daqui sem essa salvaguarda". Já em 2004, antigos mineiros e moradores de Canas de Senhorim impediram a saída de 30 toneladas de urânio das minas.

Muito raro é encontrar uma casa na Urgeiriça onde não tenha batido nenhuma tragédia. Ilda Fernandes é viúva de um ex-trabalhador e hoje vive na casa que comprou à ENU. "Paguei-a em 17 prestações que me fizeram passar muita fome. Agora, apenas reclamamos justiça", desabafou ao DN.

António Minhoto afirma que "os ex-mineiros e as mulheres que enviuvaram estão numa situação desgraçada. É altura dos responsáveis deste País olharem para nós".|

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