Milho transgénico versus híbrido: grito de alerta ou falso alarme

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Se em Portugal os chineses, potenciais investidores em setores-chave da economia, viessem experimentar milho transgénico, como teria reagido a sociedade civil portuguesa? O que teriam feito, em resposta, as associações e movimentos ambientalistas?

À partida, parecia ser um equívoco. Não achava tão relevante a notícia recentemente difundida pela RDP-África dando conta da alegada pretensão da China em introduzir aquela espécie no país onde nasci, São Tomé e Príncipe, destinada à produção de ração animal a pretexto de ajudar o arquipélago a diminuir a sua "dependência alimentar em relação ao exterior". No entanto, foi crescendo em mim a consciência da dimensão do problema, pequeno que pareça, por experiências registadas noutras partes do mundo.

A imprensa portuguesa, mais virada para a política interna e os sinais preocupantes de uma termonuclear guerra mundial, dera pouca importância ao caso, certamente por ser uma matéria longe da sua periferia e bastante distante do que, de facto, produz manchete nos jornais, rádios e televisões. Mas a minha inquietação, que vi correspondida na onda de reações e repúdio através das redes sociais, era a mesma que, já antes, incomodava uma atenta ativista cidadã são-tomense, a qual, de Portugal, lançou o repto contra o projeto chinês, por intermédio de uma Carta Aberta endereçada a várias instituições do país, apoiada por uns e repudiada por outros.

Importa dizer, contudo, que depois do recente corte das relações com Taipé, que pôs fim aos vários anos de cooperação com Taiwan, o governo são-tomense deu primazia a Pequim e retomou a antiga parceria com a China. Prova disso é a visita que acaba de fazer ao gigante asiático o chefe do executivo, Patrice Trovoada, recebido pelo presidente chinês, Xi Jinping.

Os chineses prometaram "transformar e desenvolver" São Tomé e Príncipe nos próximos cinco anos com garantia de milhões de dólares em investimentos, sabendo que o pequeno país de pouco mais de 180 mil habitantes está localizado numa zona económica exclusiva abençoada por uma das maiores reservas em hidrocarbonetos no golfo da Guiné. Não é novidade que a China está, há vários anos, aliciada pelo potencial de África como fonte de acesso à matéria-prima indispensável ao crescimento da sua economia.

E qual não foi o meu espanto, uma das primeiras ações dos velhos amigos asiáticos é a introdução de milho (alegadamente) transgénico nas ilhas, mais precisamente no centro de São Tomé, com a previsão de produzir oito toneladas já em junho próximo.

Compreensivelmente, as explicações do ministro da Agricultura local a desmentir tal opção não tardaram, porque pairam receios a nível governamental que esta bolha de ar à volta dos transgénicos possa pôr em cheque o reatamento e as benesses da cooperação com Pequim. Para tranquilizar a população, a autoridade são-tomense e técnicos chineses no arquipélago negaram a notícia, assegurando que o milho é unicamente híbrido.

Híbrido ou transgénico, eis a questão que tem provocado discórdia. O movimento de são-tomenses mais lúcidos e sensíveis à matéria, não satisfeitos com os argumentos oficiais, reivindica prudência, provas documentais e protocolares, bem como referências e o código da espécie em experiência, que ajudem a perceber, "ou avaliar o grau de intrusão ou de risco de contaminação para a produção agrícola, população e meio ambiente".

As autoridades prometeram uma resposta mais esclarecedora, por intermédio de estudos a cargo do Centro de Investigação Agronómica e Tecnológica (CIAT), mas tal diligência acabou por reforçar as dúvidas dos opositores dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM), que consideram não existir em São Tomé "meios técnicos para determinar o grau de perigosidade destes produtos". Antes destes passos, o movimento anti OGM pediu a suspensão da "experiência de plantio do milho dito híbrido no solo agrário são-tomense".

Na minha modesta opinião, importaria, em nome da transparência, recorrer a um colégio independente de especialistas - com idoneidade e conhecimento científico de países amigos como Portugal -, capaz de avaliar com objetividade quais os impactos ambientais da espécie em causa.

A polémica tem razão de ser, por nunca antes os são-tomenses se terem confrontado com uma tal situação que, a meu ver - não sendo eu especialista na matéria - exige antes debate, mas também legislação e regulamentação adequadas para precaver no futuro qualquer ação que possa pôr em causa a saúde da população, afete o ambiente e venha a prejudicar o potencial em biodiversidade que carateriza as ilhas de São Tomé e Príncipe.

O debate está lançado, sim, mas cabe à sociedade civil são-tomense conduzi--lo até à exaustão. No entanto, importa saber se o grito de alerta lançado a partir do exterior com eco a nível interno surtirá efeito desejado. Se as autoridades saberão ou não gerir esta polémica com transparência.

A ver vamos, porque a cautela é amiga da prevenção.

Correspondente em Lisboa da rádio DW-África-Alemanha

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