O objetivo era claro: "A partir do momento em que a Ucrânia foi agredida pela Rússia, achei que algumas das ideias que tinha vindo a formar sobre geopolítica mereciam uma exposição." Assim foi e surgiu, então Geopolítica, Império e Democracia: A Ascensão da Geopolítica Europeia, o último livro de Miguel Morgado, editado pela Dom Quixote..Na conversa com o DN, num hotel em Lisboa, o professor universitário e ex-assessor político de Passos Coelho (de 2011 a 2015) explica que, apesar do "papel muito importante" que Portugal desempenhou "num período chave da ascensão da geopolítica europeia" (os Descobrimentos), a "grande figura" do livro é outra: um espanhol chamado Bartolomeu de las Casas. Quem? "Um sevilhano, frade dominicano, que vai mobilizar a teologia moral católica para a proteção dos Índios." Algo que "mais ou menos cem anos depois" será feito por um português, o Padre António Vieira..É, aliás, a moral cristã que, segundo Miguel Morgado, permite o debate "muito moderno" sobre o passado imperialista e colonialista, que classifica como sendo algo "muito europeu". "Ao contrário do que as pessoas pensam, quando acham que se devem libertar das estruturas de pensamento europeu, estão completamente enganadas", critica, indo mais longe: "Fora das estruturas de pensamento europeu, este debate não é possível". Porquê? Há um "fator de diferenciação": a "raiz cristã", uma vez que como "os humanistas da época estavam do lado errado, foram os frades das ordens dominicanas a estar do lado certo". Estes traços - que serviram para "controlar os piores excessos" -, estão a desaparecer das sociedades, considera Miguel Morgado: "Como os recursos morais que tivemos até agora, para controlar os piores excessos (ao contrário de outras civilizações que não os controlaram), nós também estamos a perdê-los. Neste caso, a raiz cristã.".Ainda assim, o debate sobre este tema é justo. "É muito importante que não tenhamos ilusões sobre o nosso passado", considera o também antigo deputado do PSD (entre 2015 e 2019). "Não me importo que haja revisionismos. Têm é de ser historicamente corretos e a maior parte não são. Depois, devem ser justos com as circunstâncias que se enfrentaram na época e como é que elas evoluíram", refere Miguel Morgado. Isto significa que, por exemplo, falar apenas sobre o "tráfico transatlântico de escravos é uma aberração. O fenómeno da escravatura foi universal na civilização humana". Quando tal acontece, "há claramente uma utilização ideológico-política sectária de um fenómeno muito mais importante do que isso. São manobras de setores partidários que querem ter ganhos políticos de causa. Não interessa nada", acusa..Apesar do aparente sectarismo e das posições crispadas no debate sobre este tema, Miguel Morgado considera que há espaço - e até tem existido - uma discussão menos acirrada. "Ela tem existido. Não chama tanto à atenção, mas há muita gente a escrever livros, artigos e até debates nas universidades e fora delas", diz o autor..Numa altura que se discutem os efeitos e aplicações da chamada cultura do cancelamento (cancel culture), estes debates podem sair prejudicados? "Isso é uma espécie de cancro que mina a vitalidade da própria cultura europeia quando ela é critica de si mesma", diz Miguel Morgado, que classifica o cancelamento como sendo, "por definição, uma espécie de neutralização do espírito crítico"..Segundo o professor universitário, quer a cultura do cancelamento quer a ideologia woke (que debate e defende a consciencialização de temas como o racismo e a escravatura) são "problemas que vão ter de ser ultrapassados porque são nocivos e, isso sim, tóxicos para a capacidade de desenvolvermos a liberdade e conceções de justiça apropriados aos novos tempos. São fatores ultraperniciosos", refere..E, depois de ter escrito, entre outros temas, sobre autoridade e soberania, o que se segue? "Quero concluir a trilogia dos princípios da ordem política: a autoridade, a soberania e o amor. Falta a terceira parte. Já está bastante avançado. Estou também a preparar um livro que espero concluir muito em breve, nas próximas semanas, sobre o conservadorismo político. E, depois, tenho um que está bastante avançado também sobre o capitalismo, sobre o espírito da economia de mercado, porque também tem sido um foco de debate na consciência europeia nos últimos 150 anos - e que ainda não terminou", revela Miguel Morgado.