O gesto repete-se em todas as refeições: Rita coloca um pouco da comida da filha na sua mão para a provar. "Nunca ponho a colher dela na minha boca", garante, explicando que assim evita passar os seus "micróbios" para a menina de um ano. E que mais fazem os pais para proteger os seus filhos dos temíveis micróbios? Há uns que proíbem os familiares de beijarem os recém-nascidos. Outros esterilizam as chuchas e os biberões mesmo quando as crianças já gatinham pela casa. Catarina contratou uma empregada que passa os dias em casa com o menino - aos dois anos o Miguel raramente contacta com outras crianças mas nunca ficou doente. "Para a escola só vai quando estiver mais forte, com quatro anos." ."Há uma preocupação grande que em certa medida pode ser positiva mas que, muitas vezes, é exagerada e até canalizada para coisas que pouco interessam", explica o pediatra Mário Cordeiro. Lavar as mãos é essencial, mas não é preciso andar sempre com toalhitas atrás. "Há uma confusão entre lixo, poluição, sujidade. Rebolar-se na relva, brincar com a terra não é perigoso e até desenvolve anticorpos e defesas. Claro que se tiver detritos, pesticidas ou cocó de cão, é diferente. Mas limitar a actividade das crianças para não se sujarem é contraproducente. A sujidade... suja. As infecções vêm das pessoas e dos animais.".O pior é que, ao tentarmos proteger as crianças, podemos estar a provocar-lhes mais problemas: estudos demonstram que as crianças que, nos primeiros anos de vida, não estão expostos a infecções têm mais probabilidades de, mais tarde, desenvolver doenças alérgicas (ver caixa). O que poderia explicar, em parte, o aumento da incidência de doenças como a asma alérgica ou a rinite alérgica, como defende o imunologista Luís Graça..Está provado que as alergias e as doenças auto-imunes acontecem porque há uma falha qualquer no sistema imunológico. E que sempre que o organismo é atacado por uma bactéria, o sistema imunológico fica mais forte. Por isso, uma infecção de vez em quando, com uma doença como uma constipação ou uma gastroenterite, serve para espicaçar o sistema imunológico e mantê-lo alerta. Como diz, meio a brincar, a imunologista Margarida Carneiro, "se o sistema imunológico não tem nada que fazer, nenhuma infecção para combater, os anticorpos começam a virar-se contra o próprio corpo". .Por outro lado, sabe-se que o sistema imunológico só está maduro quando as crianças têm três anos, até lá está "a aprender". É por isso que, diz Margarida Carneiro, o plano de vacinações se concentra sobretudo nesta etapa. É também por isso que esta é a fase em que as crianças "estão sempre doentes". "À medida que vai contactando com alguns vírus o organismo vai criando defesas e vai ficando mais forte." Se isso não acontece nesta fase vai acontecer mais tarde. A protecção exagerada dos pais acaba por ser apenas um adiamento e que pode ter consequências bem mais graves do que uma simples dor de barriga.