México 1968 Jogos da altitude e da atitude

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Olimpíadas. Desporto ficou em segundo plano

A contestação social condicionou em demasia a realização do evento

A decisão do Comité Olímpico Internacional levar as Olimpíadas de 1968 para o México, afastou a competição de uma Europa em efervescência - salvo um certo país à beira-mar plantado -, mas não os conseguiu afastar da contestação social global. Quase um ano depois do Prémio Nobel da Paz e de Martin Luther King ter proferido o seu célebre discurso de "I have a dream", em Washington, perante mais de 250 mil pessoas, o activista norte-americano seria assassinado em Memphis. Morria o homem, mas a causa estava bem viva. E sentia-se em todos os Estados Unidos da América, nas ruas mergulhadas de violência e protestos, numa mescla de activistas pelo direitos de pele, de radicais black power que reclamavam supremacia, de "panteras negras", que defendiam a política de "dente por dente". John Fitzgerald Kennedy fora assassinado em 1963. Che Guevara fora morto em 1967 na Bolívia. O irmão de JFK, Robert Kennedy, que era um dos principais aliados de Luther King na luta pelos direitos civis dos negros americanos, seria igualmente assassinado meses depois, em plena corrida à presidência norte-americana.

No Médio Oriente, a escalada de violência passava os limites da razão. Havia "Primavera" em Praga. Nas ruas de Paris andava em lume brando uma contestação estudantil, uma revolução à paisana, que ao princípio parecia que não era capaz de tirar o sono a De Gaulle. A História disse o contrário. O Maio de 68, mal imaginava o presidente francês, era muito mais que uma mera contestação. Foi a força e o sangue dos estudantes que deram o mote, mas depressa esta contestação atravessou transversalmente a França, não tendo idades nem classes, ganhando dimensão, tornando-se num gigante enfurecido, que obrigou De Gaulle a tomar refúgio dos tumultos numa base aérea na Alemanha. O Maio de 68, segundo muitos pensadores, foi a revolução mais importante do século XX, estranhamente desencorajada pelo Partido Comunista francês, de tendência estalinista.

Em Portugal, três anos depois de o general Humberto Delgado ter sido assassinado, de novo, só o Estado. Ou, aliás, só o regime, que neste ano havia de cair desamparado da sua cadeira do poder. António de Oliveira Salazar não morrera nesse acidente, mas estava morto. Marcelo Caetano tomou as rédeas, instalando-se a esperança vã e ténue numa Primavera Marcelista, que substituíra o Estado Novo pelo Estado social, mantendo tudo o que já estava.

Talvez fosse pedir de mais ao Comité Olímpico Internacional (COI) que esperasse que os problemas do mundo não chegassem à cidade do Novo México. Até porque o próprio COI, num erro crasso de política de secretaria, acabaria por acender o rastilho. Quando o mundo vivia intensamente a luta dos direitos civis contra o racismo, o COI, ao contrário do que acontecera quatro anos antes em Tóquio, resolveu convidar a África do Sul para participar nestas Olimpíadas. Tóquio tratou de banir o regime de apartheid das suas Olimpíadas, mas o COI estava disposto a dar um passo atrás, coisa que deixou em fúria muitos países do continente africano, que ameaçaram mesmo boicotar em massa estes Jogos Olímpicos de 1968, caso a África do Sul estivesse presente. O Comité Olímpico acabou por reconsiderar a sua decisão, retirando o convite à África do Sul.

Porém, o mal já estava feito.

E, se não fosse isto, outras razões não faltavam para que o México fizesse nas ruas da sua capital, aproveitando a ocasião das Olimpíadas, um mini-Maio de 68, reclamando vida melhor e combate à pobreza. A escassos dias do começo dos Jogos Olímpicos, a contestação intensificou-se. E o Governo ordenou que a polícia marchasse sobre os manifestantes, deixando mortes e feridos nesse processo de limpeza da imagem mexicana perante o mundo e as câmeras de TV, que já mostravam imagens da Lua, obséquio da NASA e do Programa Apollo.

A mais de dois mil metros acima da linha de água, os Jogos Olímpicos prosseguiam envoltos em polémica, nem que fosse pelas vitórias ou as derrotas provocadas pela altitude. Houve recordes "galácticos" no Novo México e dois atletas negros que foram expulsos dos jogos por apelar ao black power ao som do hino norte--americano. Por isto tudo e mais, os Jogos Olímpicos do Novo México não foram exemplo para a posteridade. A culpa não foi do México. Foi do mundo.

Desportivamente, houve um aspecto positivo que vale a pena destacar: a estreia mundial das pistas de tartan, que motivou um forte aumento de recordes mundiais no atletismo.

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