O ministro da Cultura afirmou que "a internacionalização e afirmação do português só pode realizar-se através de um acordo ortográfico". É uma enormidade que vai contra tudo o que a História, mais recuada ou mais recente, nos ensina..Então o português não é a terceira língua da União Europeia mais falada no mundo?.Seria bem mais importante se preocupasse com o estado de aviltamento e degradação a que ela chegou. Veja-se o ensaio arrasador de Vitorino Magalhães Godinho no J/L de 26.3.08. Devia saber que o português só pode impor-se através da valorização exigente do seu ensino e do trato intensivo com os grandes autores e com os clássicos..Esse é, juntamente com o ensino das Humanidades, o factor essencial para o desenvolvimento intelectual, a qualificação, a competitividade e a criatividade, inclusivamente nas ciências exactas e nas áreas da inovação, para a realização pessoal e para a cidadania..Ao referir o "conjunto de necessidades políticas e económicas com vista à internacionalização do português como identidade e marca económica", o ministro mostra que não tem qualquer preocupação com a correcção científica e cultural do Acordo. E também esquece que mais de 40 milhões de pessoas seguem a norma portuguesa..É, antes de mais, quanto às competitividades em presença no interior do universo da língua portuguesa que a questão do seu valor deve ser analisada. A adopção do Acordo redundará em total benefício do Brasil. Os PALOP e Timor ficarão completamente dependentes da edição e das indústrias culturais brasileiras. E Portugal lá chegará. .No resto do mundo, o Acordo não fará aumentar numa só página a quantidade de peças traduzidas, numa só pessoa o número de estudantes ou falantes da língua e num só fórum internacional a utilização dela..Os prejuízos astronómicos, com existências gigantescas de dicionários e livros escolares nas linhas de produção e nos armazéns dos editores assim inutilizados de uma penada, com as famílias a suportarem custos inadmissíveis na compra de novos materiais, com milhões de espécies adquiridas pelo Plano Nacional de Leitura deitadas pelo cano abaixo, somados ao prejuízo decorrente da perda dos mercados africanos para a edição portuguesa, constituem um daqueles casos clássicos em que, no médio prazo, a previsão de despesas supera catastroficamente a das receitas..Os PALOP perceberam muito mais depressa o que está em jogo..Angola aspira a uma posição de liderança na África Austral e no mundo de língua portuguesa. Tem potencial humano e económico para isso. Vive tempos de paz, de reconstrução, de crescimento e de prosperidade. Não lhe interessa ficar subordinada a interesses brasileiros. Prefere as suas actuais parcerias com Portugal e, a partir delas, desenvolver a sua própria autonomia. Precisa de manter facilitados os processos de alfabetização e de ensino, os circuitos de funcionamento político e administrativo, a vida quotidiana nos aglomerados urbanos, a normalidade da comunicação social escrita, a dinâmica cultural que já está a impô-la como país de referência. .Em Moçambique e na Guiné-Bissau, que, de resto, têm de evitar quaisquer equívocos e precipitações de modo a escaparem, respectivamente, às pressões de sinal anglófono e francófono, os problemas são idênticos. .Poderão estes países dar-se ao luxo de reciclar professores e de inutilizar milhões de livros e de materiais didácticos, de repente tornados obsoletos para populações cuja alfabetização e cujo domínio da escrita e da leitura são bastante mais frágeis do que entre nós? .Poderão correr o risco de a língua portuguesa se tornar um factor, não de aglutinação da identidade, mas de desagregação da identidade?.Já se pensou no que seria mexer só nos textos legais e regulamentares para ficarem ao alcance de cidadãos que estejam nas condições descritas?.Resulta de uma iniciativa de Sarney que, em 1986, enviou um emissário aos PALOP com essa finalidade. Para o Brasil, mais realista e mais pragmático, tudo era, desde o início, uma pura questão de mercado. .Só para alguma ingenuidade lusitana, mais propensa à metafísica, é que se trata de assegurar a "unidade" da língua... |