Memória

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Poderá o teatro, "arte tão fugidia como o próprio tempo" e assente na "vibração conjunta do actor e do público", prolongar-se para lá de um palco? Num belíssimo texto sobre a trajectória do museu que fundou e dirigiu - o Museu Nacional do Teatro, que hoje celebra o seu 20.º aniversário -, Vítor Pavão dos Santos conta como essa dimensão intangível foi, também ela, ganhando forma, mercê de um legado reunido a partir do zero.

Legado que, em 20 anos, "cresceu exponencialmente", como refere ao DN José Carlos Alvarez, seu actual director, situando-se já próximo das 300 mil espécies - das mais simples às de maior aparato, como parte integrante da memória das artes do espectáculo em Portugal. "Discute-se muito se o teatro, arte efémera, pode ser musealizável", lembra José Carlos Alvarez, "mas cada vez mais tenho a certeza de que este museu tem sido essencial na preservação não apenas dessa memória, mas também do património cultural do País".

Fruto de "maior consciencialização", a doação de espólios ao museu tem-se intensificado. «Felizmente, há bastante sensibilidade e esse trabalho de ligação com potenciais doadores, desenvolvido desde a fundação, tem sido recebido com crescente interesse.» Em muitos casos, sublinha, esse gesto parte de cidadãos que, "mesmo sem ligação pessoal ou familiar ao mundo do espectáculo", entregam ao museu materiais em sua posse. Bilhetes, um cartaz, o programa de uma peça, anúncios, recortes sobre um(a) artista que se admirou desde sempre são materiais frágeis e fáceis de se perder, mas cuja valorização "veio beneficiar de uma noção mais moderna e abrangente de património e de museu", assumida, também, pelas populações.

O crescimento das colecções "começa a colocar alguns problemas de espaço", mas traz consigo a satisfação de saber que a longa viagem do Museu do Teatro (aberto ao público em 1985, três anos após a sua criação oficial), terá continuidade. Longa viagem porque, em rigor, lembra José Carlos Alvarez, estes 20 anos começam muito antes - em finais dos anos 70 do século passado, quando Vítor Pavão dos Santos começa a dar forma a um sonho que vinha já do Portugal de Oitocentos.

O programa de comemorações deste aniversário não se esgotará, pois, no dia de hoje (ver caixa). Ao longo do ano, "terá especial incidência no serviço educativo e na ligação com os mais jovens", cumprindo uma missão capital na actividade de um museu - a captação e o acompanhamento de novos públicos. No plano da colaboração institucional, refere, prosseguirão as participações em exposições de entidades terceiras, com realce para uma mostra sobre a obra que o arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini, figura central nos revivalismos de Oitocentos, desenvolveu em Portugal (a realizar em Sintra, na Regaleira, será também apresentada em Itália). De produção própria, preparam-se duas outras mostras - fotografia de cena e traje e adereço.

A ligação com públicos mais distantes, em particular fora dos grandes centros urbanos - "dinâmica que, felizmente, não pára" - prosseguirá igualmente, com a ida de exposições do museu a Palmela, S. João da Madeira, Santarém e Póvoa de Lanhoso, entre outras localidades, assim "ajudando a criar, também, público para o teatro". E para os museus e, quem sabe, para outras áreas de criação, intervenção e conhecimento.

"O teatro 'mexe', de facto, com tudo, com as artes, com técnicas", lembra. Circunstância que a biblioteca do museu, "serviço essencial" e o mais importante no seu género no País, espelha também, ao ser "cada vez mais procurada por investigadores de outras áreas, nomeadamente de arquitectura, artes plásticas e literatura". Almada Negreiros, lembra José Carlos Alvarez, "dizia que o teatro é 'o escaparate de todas as artes'". Tinha toda a razão.

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