Memória RTP

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Coisa rara na minha vida atual, esta semana que passou fui a uma festa de anos sem caniches feitos de balões-salsicha por palhaços tristes, nem pinturas de borboletas brilhantes na cara, nem grupos de pais a fazer conversa junto a insufláveis. Também não é para surpreender, a aniversariante fazia sessenta anos.

Na festa da RTP, ao mesmo tempo sóbria e sofisticada, combinação pouco usual no festário comemorativo nacional, além de alguns muito bons discursos, viu-se um vídeo com os melhores momentos da televisão, não da televisão enquanto canal, mas da televisão enquanto sinónimo de RTP. A coisa mais repetida na cerimónia, a RTP confunde-se com a nossa história, tem a vantagem de todos os lugares-comuns, que é o ser verdade.

Boas memórias da televisão apesar de ter sido o último do meu mundo a ter televisão a cores, apenas quando a Telefunken a preto e branco deixou de ter arranjo por não ter arranjadores. Dessas memórias, o Duarte & Companhia, o Herman, ou melhor os Hermans, do Tal Canal à Enciclopédia, passando pelas noites de fim de ano (e não esquecer os dados a rolar por cima da assistência no Parabéns, ou a Roda da Sorte). Sem internet, sem satélite, sem comparação, tinha um papel central na construção da identidade cultural, a que se juntaram as telenovelas que não via, mas ouvia na escola (ainda hoje sei enredos de episódios do Roque Santeiro sem ter visto um minuto). Os desenhos animados, descontando a tortura Vasco Granja, Conan, Candy Candy, O País dos Rodinhas, o Dartacão. Os Jogos sem Fronteiras, Eládio Clímaco, Agora Escolha, bloco A, bloco B.

Além dos programas houve momentos que ficam, da Guerra do Golfo de Rodrigues dos Santos e Albarran à mira técnica, ao hino, passando por aquela coisa da lista de todos os filmes em todos os cinemas de Portugal todos os dias (Braga, Charlot) e as interrupções de emissão por questões técnicas alheias já não sei a quê, provavelmente à nossa vontade.

Eram só dois canais e ambos a meio tempo, mas eram bons, a comparar com o que via por onde viajava. Mas houve um momento em que parecia que o mundo ia mudar, quando a RTP, já não sei se a um ou a dois, passou a transmitir o Super Channel à tarde, e o programa Countdown de música com um apresentador de cabelos fartos que a internet me diz que era o Adam Curry - mas não mudou, os programas do estrangeiro não eram melhores do que os nossos, faltava-lhes qualquer coisa. Seria a portugalidade que se via nos momentos menos felizes como o penálti do Veloso, ou o golo do Platini no prolongamento, ou o orgulho tímido das vitórias olímpicas de Carlos Lopes e Rosa Mota, com um sorriso franco e cansado? Ou ainda, o percurso trágico-heroico de Fernando Mamede, porque todos temos um Fernando Mamede dentro de nós, não esquecer. Tudo deu na televisão - e mais?

E é precisamente esta memória toda que agora está disponível no site do arquivo da RTP, basta pôr o nome, o acontecimento ou o tema e pesquisar. Horas de nós. Desde José Miguel Júdice, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Galvão Teles e Jorge Miranda, a discutirem a revisão constitucional em 1979, a todos os episódios de Vila Faia. Verdadeiro serviço este de nos mostrar o que fomos.

Num momento de dispersão de conteúdos, por novas plataformas e meios, o consumo tradicional de televisão tem também descido na tendência dos outros media. Apesar de a descida em horas vistas totais não ser significativa, a descida do consumo de televisão linear pelas camadas mais jovens é, em toda a Europa, extremamente relevante.

E neste contexto, sobretudo neste contexto, realça-se a função de serviço público da RTP, de disponibilização do passado que está a fazer e de preparação de um futuro em que continue a garantir qualidade e independência, com diversidade, sem olhar ao retorno, ou pelo menos independentemente de um retorno medido com as fitas métricas do mercado, que não são para aqui chamadas.

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