Melão

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Elas com cara de melão, eles a falar. Este verão calhei ao lado de muita conversa de engate, corte, arrastamento de asa. Na esplanada, no elevador, na fila para os perdidos e achados, em festas. Eles invariavelmente a falarem. O que fizeram, com detalhes, o que não fizeram, o que pensam fazer, o que acham disto, o que acham daquilo. Entusiasmados, compulsivos. Um explicava as dinâmicas do preço das casas em Berlim e como queria estudar finanças bancárias (20 anos no máximo ambos, ele alemão, ela francesa, linda). Outro, em detalhe e orgulhosíssimo, como tinha tirado o dia seguinte de folga para se deitar no chão da sala a jogar consola, e o prazer que isso lhe dava. Outro, excitado, sobre uma surf trip e as maluquices que fizeram ele e o Patrick, que é um amigo dele muito muito muito avariado, tens de o conhecer.

Tudo tudo errado, bastava olhar para a cara delas, para os olhos interessados mas impacientes.

O problema de base é que eles normalmente acham que foi graças a eles que se chegou aqui, que as escolheram, e não que alguém os deixou achar que escolheram. Não percebem que estão a ser avaliados, na pré-eliminatória, e que não estão na fase de grupos.

A coisa não é complicada, é fazer piadas e fazer perguntas. Uma mnemónica: FP. Fazer Piadas, Fazer Perguntas. É simples. It"s about her, not about you, dude. Mostra que és esperto, com as piadas; que te preocupas, com as perguntas. É disso que ela vai estar à procura, só há dois quadradinhos na checklist dela (e nenhum é PS4). Claro que ela te acha giro, caso contrário não estaria ali a ouvir-te (mas já agora giro não tem tanto a ver com a tua cara como tu pensas e a tua mãe te disse, nem com o penteado, nem com esse corpo trabalhado, giro quer dizer sobretudo dizer duas coisas, que tens um ar giro, que é uma coisa que só elas sabem explicar, e que és alto o suficiente). Claro que ela gosta de saber que tu fazes escalada, valoriza isso, gosta da ideia, da imagem, tudo certo, mas o que ela quer saber não é se consegues trepar o Espichel com ela ao colo tipo king kong em caso de necessidade, o que ela quer é saber se és ativo (logo, não quer saber de material de escalada, nem das técnicas, nem de viagens de escalada, nem de nós de escalada, nem do teu instrutor de escalada). Não sejas chato, não dês seca. Para de falar antes de ela te interromper. Acaba com uma pergunta - sobre ela. Não fales de consolas, nem de jogos, nem de carros, nem de torrents, nem de youtube. Toma iniciativas, sê concreto, resolve coisas: mais vale "um big mac natura amanhã às nove e um quarto no Colombo?" do que "podíamos ir comer qualquer coisa um dia destes", ou "tens planos para o jantar amanhã?".

Vais ter décadas pela frente para ser chato, para falares do trabalho, da besta do teu chefe, da bicicleta de montanha, das obras da casa. Mas, mesmo quando tiveres de ser chato, escolhe as tuas lutas.

Se há coisa de que o homem português sabe falar é de melões.

A comparação intertemporal. O melão este ano é que estava bom, mas não tão bom como em 2001; o ano passado foi uma miséria em termos de melão.

O ritual da escolha. Cada homem sabe escolher melão melhor do que qualquer outro. Uns pegam nele e basta pegar, o braço calibrado, o melão na mão-balança, um ligeiro sobe-e-desce e a sentença: está bom. Ou não presta. Uma sintonia olho-braço compara volume e peso, a aferição da densidade instantânea. Outro tipo de homem precisa de apalpar. Uns aplicam apenas uma leve pressão para poderem dar a sentença, outros têm de apertá-lo entre as mãos, outros apenas um polegar numa das pontas. A isto outros juntam a necessidade de ouvir, aplicando ao melão técnicas de melancia, apertando até se ouvirem estalidos, ora batendo com os dedos. Há quem cheire. E depois há os mestres, que, numa banca de centenas de melões, param, olham e apontam: aquele.

O corte. Da preparação, retirando ou não os topos, mas sem estragar o melão, ao corte das talhadas, que tem de ser firme, mãos de cirurgião estripador, a arte da grossura certa. Depois o gesto, que podia estar na Bíblia, da passagem da fatia de melão, de mão em mão, segurada por baixo, no centro de gravidade, nunca pelos topos. Por fim, a técnica de comedura de cada um - um corte horizontal completo, e depois vários verticais, ou atacar em perpendicular, um horizontal e um vertical. Há ainda, claro, a profundidade do corte horizontal, a rentidão à casca maior ou menor, uma escolha sobre o nível de doçura de cada garfada. O modo de arrumar as cascas no prato, de lado ou empilhadas (e a casca de melão atirada pela criada de Leontina no Coração, Cabeça e Estômago de Camilo?).

Depois os regionalismos. O de Almeirim, o da minha terra, o daquela banca na Nacional, o de lá de cima. As espécies, branco, pele-de--sapo, castanho.

As regras. Melão, vinho de tostão; que já se sabe que beber água depois mata, coze no estômago, rebenta o bucho, fura a tripa. E os fetiches? Refrescar o melão com água, enterrar o melão.

Mas há aquele momento único da masculinidade, pacto de honra, em que se pergunta ao empregado se o melão é bom. A sopa pode estar azeda, o bife ser de cavalo, o vinho avinagrado, mas aquele momento, aquela pergunta, aquela resposta, é um instante de entrega da vida nas mãos do outro. E quando a resposta é não prefere umas cerejas, ou antes um pudinzinho, sabemos que a humanidade é feita de amor, de verdade, de bem.

Pensando bem, não fales de melão, é coisa de homens.

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