Medo perpétuo

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Mais um ano do Nobel de Literatura sem a premiação de Philip Roth. Mais um ano de um grande romance de um dos monstros sagrados da literatura americano, vibrante aos 71 anos. Na trilha de suas últimas obras, Roth escreveu um romance histórico. Bem, é mais complicado. The Plot against America é uma mescla de autobiografia, história e especulação que questiona um tema constante da vida americana: não pode acontecer aqui. Este é um país excepcional. Para ser mais preciso, diferente. O fascismo que brotou na Europa não teve e não terá como florescer na América democrática.

Na ficção do septuagenário Roth, nascido em uma família judaica de classe média baixa em Newark, nós temos o personagem Philip Roth, um garoto que vive em Newark, no começo dos anos 40. O livro é falsa memória, mas antes vamos a alguns factos genuínos.

Em 1940, quando a Grã-Bretanha estava sob ataque nazista, os EUA ainda não tinham entrado na guerra e havia um forte sentimento isolacionista no país. Roosevelt obteve um sem precedente terceiro mandato nas urnas. No Governo, ele manteve o apoio discreto e sistemático a Churchill. Com o ataque japonês contra Pearl Harbor, a neutralidade pública americana também foi a pique. Esta é a história.

Mas não é assim que ela transcorre no romance de Roth. Em 1940, o herói aviador Charles Lindbergh enfrenta Roosevelt nas eleições. Na vida real, até à entrada dos EUA na guerra, o homem do primeiro voo transatlântico era isolacionista, anti-semita e não considerava Hitler um demónio. Na ficção, Lindbergh derrota Roosevelt nas urnas. A inspiração para Roth foi a autobiografia do venerado historiador Arthur Schlesinger. Há uma menção ao desejo da ala mais direitista do Partido Republicano para que Lindbergh disputasse a Casa Branca. Apenas uma linha. Mas foi suficiente para suscitar a imaginação do sempre travesso Roth. E se Lindbergh tivesse concorrido? E se ele tivesse triunfado?

Os leitores saíram ganhando com a diatribe do escritor. Após assumir o poder, Lindbergh negoceia um pacto de entendimento com os nazistas. Aceita o domínio dos alemães na Europa desde que eles não se metessem com os americanos. A primeira iniciativa doméstica de Lindbergh é a criação do Escritório de Absorção Americana, para incorporar judeus e outras minorias na vida do país. Famílias de guetos urbanos são removidas para o interior. Acompanhamos a saga através do pequeno Philip. Nas resenhas do livro de Roth são traçados paralelos com os dias de hoje do Governo Bush. Afinal, muitos americanos são seduzidos por slogans simplistas e justificativas para coibir as liberdades civis. Mas Roth é mais subtil. É verdade que numa entrevista disse que Bush não estava qualificado para administrar uma loja de ferragens, quanto mais o país. Rechaça os paralelos simplistas. Daria um carácter fugaz ao grande romance, cujo tema instigante é «medo perpétuo». Curiosamente, há um tom optimista no livro. Philip Roth trata com certo afecto a frágil grandeza americana. Poderia ter acontecido, mas não aconteceu, pelo menos até agora.

Caio Blinder

é especialista

em assuntos internacionais

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