Ao longo das últimas cinco décadas foram muitos os bombardeamentos de imagens vindas do médio oriente. Assiste-se há tempo a mais a uma guerra sangrenta, e sem quartel, que de forma vil e com responsabilidades repartidas ceifa vidas inocentes dos dois lados da barricada..No passado sábado, Israel viveu o que alguns já apelidam como um dos mais violentos ataques de sempre por parte do Hamas. Este bárbaro ataque não teve em conta qualquer processo seletivo, isto é, limitou-se a matar indiscriminadamente..Não é de todo aceitável, sob qualquer perspetiva, a defesa desta intervenção e será sempre condenável, como aliás fez questão de sublinhar o Estado Português no respeito pelos mais elementares princípios do Direito Internacional..Definida que está a condenação ao monstruoso ataque e ao direito que assiste Israel em se defender, convém agora dar nota de outros aspetos que poderão contribuir para a compreensão do tema..A responsabilidade do que se passa nesta zona do médio oriente (aplicando aqui uma análise puramente racional); o sangue que continua a ser derramado na região está nas mãos de todos aqueles que ao longo destas décadas assistiram passivamente à destruição de vidas, tanto do lado de Israel como da Palestina..A ideia defendida pelas Nações Unidas - e partilhada por Portugal -, sobre a existência de dois Estados, é absolutamente essencial para que se alcance a tão desejada paz na região. E tão ou mais importante do que isso é a existência de conversações de paz, que não têm lugar há mais de 10 anos..Ora, alcançar a paz sem conversar e sem concessões é uma tarefa quase impossível. Por isso é que é importante analisar o ataque de sábado com um olhar fino, tentando alcançar o que está para além dos destroços e das vidas perdidas..Passaram precisamente 50 anos da Guerra do Yom Kippur; uma guerra de má memória para Israel e cujas parecenças com o ataque de sábado são algumas. Para além de espalhar o pânico, caos e morte, um dos propósitos do Hamas é provocar a ira de Israel. Com essa atitude coloca em risco os possíveis acordos de paz que o Estado Judaico tem vindo a negociar com os vizinhos árabes, nomeadamente com a Arábia Saudita..Por outro lado, a resposta militar Israelita também ela poderá "rasgar" esses acordos de paz - do ponto de vista dos Sauditas. Como é sabido, o direito à defesa da integridade territorial vem dar força à extrema direita de que Netanyahu precisa para governar..Tal como o Yom Kippur permitiu os acordos de Camp David em 1973, entre Israel e o Egipto, colocando republicanos e democratas americanos de acordo, a questão pode agora colocar-se da seguinte forma: será que as partes (neste caso Washington, Riyahdh e Jeusalém) poderão adotar o mesmo lema - "Libertar Gaza"?.A questão é que a Autoridade Palestiniana ainda hoje não detém o controlo de Gaza. E enquanto esse domínio for detido pelo Hammas, continuará uma a existir uma linha muito ténue deestabilidade política, que de forma irracional e intolerante para com os seus dissidentes vai relembrando os israelitas das razões pelas quais não podem conceder mais aos palestinianos..Talvez a solução passe por recorrer a todos os que não são adeptos do Hamas e assim assegurar o seu afastamento. Idealmente com o apoio das forças árabes da região, uma vez que os sauditas não apreciam desde há muito as ligações do Hamas ao Irão..Também os egípcios olham para o Hamas como braço armado palestiniano da Irmandade Muçulmana, enquanto a Autoridade Palestiniana o vê como o seu grande rival e os Estados Unidos já o declararam como uma organização terrorista..Será que estão então criadas as condições para uma força de paz árabe composta por sauditas, egípcios e até os Emirados? Será essa a forma de por cobro ao domínio do Hamas na região, permitindo a recuperação do poder por parte da Autoridade Palestiniana e assim voltar o apoio militar e económico de Washington e Bruxelas?.Ainda não se sabe o que vai acontecer na região. Contudo, certo é que não se pode continuar a assistir ao fracasso da diplomacia mundial ao longo de décadas, com uma desproporcional passividade e uma enorme perda de vidas Humanas.