A vida de um atleta de alta competição não dura para sempre e, além disso, os salários que são pagos em algumas das principais modalidades olímpicas também estão longe de garantir um pé-de-meia suficiente para o pós-competição. Por isso, há cada vez mais atletas a apostar na formação académica de modo a encontrarem uma alternativa profissional. Segundo dados a que o DN teve acesso, da comitiva de 74 que se apurou para os Jogos Olímpicos do Rio (aos quais se juntam mais 18 futebolistas, não incluídos no estudo), 65,15% já concluíram, frequentam ou têm matrícula suspensa no ensino superior. Tendo ainda em conta a amostra total de 74 atletas, 50% já têm ou frequentam licenciaturas, 4,65% possuem pós-graduações e 10,60% mestrados. Além disso, 30,30% concluíram o ensino secundário e 4,55% o básico, esta última percentagem bem abaixo das verificadas em Pequim 2008 (12,68%) e Londres 2012 (11,27%)..O chefe de missão, José Garcia, diz que hoje estão criadas as condições necessárias para que os atletas possam competir e estudar ao mesmo tempo, ao contrário do que se passava quando era canoísta olímpico. "No meu tempo não era possível conciliar. Fazíamos quatro sessões de treino por dia... Só aos 30 anos é que fiz a minha licenciatura (Educação Física pelo ISMAI e Mestrado em Estudos da Criança pela Universidade do Minho). Hoje cada federação e o comité olímpico juntamente com os Jogos Santa Casa (programa de bolsas) criaram condições de apoio a esta dualidade", garante José Garcia, que vê nesta realidade um bom sinal para o próprio país: "Temos aqui exemplos excecionais de portugueses, que competem contra os melhores do mundo, e que serão uma mais- -valia para a sociedade como médicos, engenheiros, arquitetos ou professores. Esta missão vai muito além da vertente desportiva.".Há vários exemplos na comitiva. Telma Monteiro, medalha de bronze no judo, concluiu uma pós-graduação em Gestão e Marketing Desportivo. Em novembro do ano passado foi-lhe entregue uma bolsa de estudo que contou com o apoio da Santa Casa da Misericórdia. Na altura, foram apoiados mais 21 atletas integrados no ciclo olímpico Rio 2016 e também nos de preparação para os Jogos Paralímpicos 2016 e Surdolímpica 2017. Desde o arranque do programa, em 2012, foram atribuídas 87 bolsas no valor total de 252 mil euros..Ainda de acordo com os dados a que o DN teve acesso, percebe-se que há uma grande variedade de escolhas académicas, que vão desde a Engenharia Mecânica (João Rodrigues, vela), Arquitetura (Sara Caros, vela), Psicologia (Célio Dias, judo), Gestão (Tiago Apolónia, ténis de mesa), Direito (Joana Ramos, judo) à Publicidade e Marketing (Nelson Évora, triplo salto)..Já o canoísta Fernando Pimenta é um dos oito casos em que os atletas optaram por suspender a matrícula para se dedicarem à alta competição. Está matriculado em Reabilitação Psicomotora na Universi- dade Fernando Pessoa, no Porto. Também com a matrícula congelada (Enfermagem, Universidade do Minho) está o seu colega no K4, Emanuel Silva..Muitos médicos.Entre os que já concluíram os estudos e exercem a profissão está Ana Rente, ginasta e médica. A medicina, aliás, parece ser uma das preferências dos atletas nacionais pois apenas é superada por cursos ligados ao desporto. Além de Ana Rente, Rui Bragança (taekwondo), Marta Onofre (salto com vara), Diogo Carvalho (natação), João Silva (triatlo), Francisca Laia (canoagem) e Irina Rodrigues (falhou os Jogos devido a lesão, sendo que estava apurada para o lançamento do peso) seguiram o mesmo caminho académico..Mas conciliar estudos e alta competição nem sempre é fácil. "A carreira desportiva tem sempre alguns sacrifícios associados e quando a abraçamos sabemos ao que vamos. Precisamos saber fazer um balanço entre as duas coisas. Nos primeiros anos até era mais fácil. Há mais aulas teóricas, podemos faltar a algumas, decidir estudar mais em casa. É mais flexível. A partir do momento em que passamos para os anos clínicos, em que já temos de ir ao hospital, cumprir determinadas horas lá, participar nos bancos a acompanhar os outros médicos, a situação complica-se mais. Havia noites em que eu não podia treinar. Tive de gerir da melhor forma possível", explica Ana Rente, interna de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde dos Jardins da Encarnação, em Lisboa..A ginasta acredita que, agora, os atletas são mais prevenidos na hora de encarar o futuro: "Têm bem noção de que o desporto não dá para toda a vida e que vai chegar um momento em que o nosso corpo já não pode mais e que por isso é bom ter um plano de backup. Portanto, apostam também mais numa carreira académica, mesmo que por vezes possam ir deixando uma ou outra cadeira para trás. É preciso conciliar da melhor forma as duas coisas para depois não chegarem a um ponto em que ficam basicamente sem nada.".E depois do adeus? Rui Bragança concorda. O lutador de taekwondo, que está no último ano de Medicina na Universidade do Minho, ainda sem saber que especialidade escolher - hesita entre anestesia e ortopedia -, diz que "o desporto em Portugal não dá futuro". "Há uma mentalidade tipicamente portuguesa que acha que os atletas só entram na universidade porque têm estatuto e que são menos inteligentes do que os outros porque só pensam em desporto. Mas é ao contrário", alerta o atleta, que após a sua participação nos Jogos Olímpicos deixou em aberto a sua continuidade no taekwondo devido à falta de apoios..Rui Bragança lembra ao DN a importância de acautelar o futuro: "Todos nós devemos preparar alguma coisa para depois do desporto ou para o caso de sofrermos uma lesão grave. Se deixarmos de competir cedo demais, não vai haver ninguém que nos dê a mão e diga: "olha, foste muito bom atleta, anda cá que vou ajudar-te.' É preciso ter um plano B e isso passa pelos estudos. Por exemplo, toda a seleção de taekwondo está na Universidade. Se calhar noutros desportos onde se paga mais não será assim." Ana Rente acrescenta que a prática de um desporto de alta competição acaba por ser vantajosa para a vida de estudante: "Ajudou muito. Eu sou atleta há muitos anos. Desde sempre que tive de ter muito método a nível do treino. Isso acabou por passar para o meu carácter e para o estudo. O contrário também é verdade. Quando acontece alguma coisa do ponto de vista físico eu sei o que é e como posso evitar. Tenho uma noção geral, o que é uma vantagem." Para Rui Bragança, conjugar desporto e estudo é uma questão de eficácia: "Só assim é que seria possível chegar até aqui.".A terminar, José Garcia destaca o papel que os atletas olímpicos podem ter junto dos mais novos, mostrando que estudar e competir ao mais alto nível não são incompatíveis: "Fala-se muito melhor através do exemplo. E esses não faltam dentro desta missão."