Há menos de um ano, no dia 22 de novembro de 2022, Matthew Perry esteve na CBS, no programa The Late Show. Logo a abrir a conversa, Stephen Colbert dizia-lhe: "Passaste metade da tua vida em centros de tratamento", acrescentando que o fez para tentar "manter-se sóbrio" e vencer o alcoolismo. Não era, entenda-se, uma provocação típica de jornalismo tablóide, antes um resumo conciso daquilo que o próprio ator, estrela internacional da série Friends (1994-2004), decidira revelar no livro que tinha acabado de ser publicado: Friends, Lovers, and the Big Terrible Thing (ed. Flatiron Books, Nova Iorque) - sendo a "coisa terrível" da sua vida, precisamente, a dependência..Ainda que temperado por alguma inevitável ironia, o paradoxo não deixa de ser perturbante. Sobretudo porque Perry atingira esse estatuto mitológico que tornava impossível dissociá-lo da sua personagem de Friends. Afinal de contas, ele era o intérprete de Chandler Bing, o romântico algo relutante, por vezes cruel e sarcástico, mas de coração puro - Perry vivera assombrado por uma tragédia íntima que, agora, deixara de tratar com eufemismos. O prólogo do seu livro começa assim: "Olá, o meu nome é Matthew, embora me possam conhecer por outro nome. Os meus amigos chamam-me Matty. E eu devia estar morto. Se quiserem, podem considerar que aquilo que vão ler é uma mensagem do além, o meu além.".Chandler começa por ser uma variação sobre o cliché do jovem mais ou menos rebelde (ma non troppo...) que, a certa altura, acaba por assentar numa existência tradicional - no final da sétima temporada de Friends, casa-se mesmo com Monica Geller (Courteney Cox). O certo é que, representado por Perry, Chandler impõe-se como uma coleção de contrastes capaz de nos envolver num misto de emoção e humor. Isto porque fomos descobrindo que o seu sarcasmo, mesmo nas suas formulações mais contundentes ou agressivas, não exclui a consciência de uma vulnerabilidade congénita: "Digo mais coisas estúpidas antes das nove da manhã do que a maior parte das pessoas dizem num dia inteiro...".Embora nunca tenha ganho nenhum Emmy, a carreira de Perry pode ser resumida através das cinco nomeações que obteve nos prémios da Academia das Artes e Ciências da televisão dos EUA: duas por Friends (uma em 2002, outra em 2021, referente ao especial Friends: The Reunion); duas por Os Homens do Presidente (2003 e 2004), a série sobre os bastidores da Casa Branca da autoria de Aaron Sorkin; e uma pelo telefilme The Ron Clark Story (2007), em que interpretava a personagem verídica do pedagogo e vedeta televisiva Ron Clark..Desenvolveu também uma carreira cinematográfica paralela ao seu trabalho no pequeno ecrã. Vimo-lo, por exemplo, no western cómico Quase Heróis (1998), contracenando com Chris Farley, em Falsas Aparências (2000), um policial em tom burlesco com Bruce Willis como protagonista, ou ainda Divórcio de Milhões (2002), ao lado de Elizabeth Hurley em registo de comédia romântica. Em qualquer caso, nenhum dos seus filmes lhe conferiu a dimensão de estrela cinematográfica, mesmo se Falsas Aparências foi um dos títulos mais rentáveis no seu ano de lançamento, tendo dado origem a uma sequela (Falsas Aparências 2), lançada em 2004..O livro que lançou o ano passado, evocando a dificuldade de equilibrar as ilusões da fama com a estabilidade emocional da vida pessoal, não foi a primeira tentativa de Perry para refletir sobre os seus problemas privados. De facto, escrevera The End of Longing, um texto teatral não exatamente autobiográfico, mas inspirado nas suas vivências - "uma versão exagerada de mim próprio", segundo as suas palavras..The End of Longing teve a estreia mundial em 2016, em Londres, no Playhouse Theatre, sob a direção de Lindsay Posner - foi, aliás, um reencontro, já que em 2003 Posner já dirigira Perry em Sexual Perversity in Chicago, de David Mamet, também em Londres. Voltaram a colaborar na encenação americana de The End of Longing, em 2017, no palco do Lucille Lortel Theater, em Nova Iorque..Todos estes ziguezagues da sua trajetória profissional e pessoal refletem a odisseia de um ator para quem a série Friends acabou por ser o centro irradiante de toda a sua carreira - e, num certo sentido, de toda a sua vida. No prefácio do seu livro, Lisa Kudrow, companheira do elenco de Friends, celebra a coragem da autobiografia, recordando como, ao longo dos anos, foi frequentemente confrontada com uma pergunta aparentemente simples mas à qual, em boa verdade, não sabia responder: "Como está o Matthew Perry?".dnot@dn.pt