Está presente na Assembleia da República um daqueles episódios que em nada contribuem para o prestígio do Parlamento e pouco têm a ver com o trabalho que a Assembleia da República deveria assumir, ou seja as questões relacionadas com o país e com as dificuldades de vida dos portugueses..André Ventura, líder do Chega, vai nesta sexta-feira ser recebido pelo Presidente da República para se queixar do modo como a segunda figura do Estado, Augusto Santos Silva, gere a vida parlamentar..Recentemente e a propósito de duas iniciativas sobre a entrada de imigrantes em Portugal, uma do governo e outra do Chega, Augusto Santos Silva decidiu expressar o seu pensamento político sobre o assunto, na sequência de uma intervenção de André Ventura..Ventura entendeu que esta atitude do Presidente do Parlamento punha em causa a sua independência e censurava a bancada do Chega, que num gesto de forte cariz teatral abandonou o Parlamento..Mas a história não se fica por aqui e está aí para "lavar e durar". Assim, o Chega agendou para setembro a aprovação de um projeto de resolução que recomenda uma censura ao modo de atuação de Augusto Santos Silva..Consultámos, insistentemente, o Regimento da Assembleia da República e a Constituição no sentido de verificar se nas competências do Presidente do Parlamento estaria contemplada a possibilidade política da segunda figura do Estado produzir pensamento na sequência da intervenção de um deputado e no contexto dos trabalhos parlamentares. Não encontrámos nada. As funções do Presidente do Parlamento são amplas, são de representação nacional e internacional, gestão e organização das questões parlamentares e, muito importante, a substituição do Presidente da República em caso de impedimento temporário ou vacatura. Ou seja, o legislador deixou para a segunda figura do Estado uma função que se situa acima dos partidos que, prudentemente, o protege e afasta das querelas partidárias e do jogo político no tabuleiro parlamentar. Não que o Presidente do Parlamento não possa, naturalmente, expressar a sua opinião política. Tem para isso ao seu dispor as entrevistas, declarações à Comunicação Social, os debates e as conferências onde possa participar. Mas, a acreditar na intenção do legislador, deverá fazê-lo fora do contexto dos trabalhos parlamentares..Contudo, acontece que Augusto Santos Silva tem um projeto político para o futuro que está desde já a começar a formatar. Quer ser candidato pelo Partido Socialista à Presidência da República em 2026. E, para se protagonizar para esse desiderato, está a usar um órgão de soberania que deveria gerir com distanciamento, prudência e isenção. Mas, bem pelo contrário, desenterrou um diferendo político com o Chega porque isso lhe confere projeção mediática, e dá também uma ajudinha ao PS dando palco ao Chega e retirando protagonismo aos restantes partidos da oposição, muito em particular ao PSD..O problema é que com esta atuação, Augusto Santos Silva afasta o Parlamento da sua nobre função da análise e discussão dos problemas nacionais. Foi para tratar desses problemas que os deputados foram eleitos e não para alimentar tricas politicas. E Augusto Santos Silva é um deputado como os outros, apenas escolhido como Presidente para gerir e organizar a vida parlamentar. Ao não se focar nas suas funções essenciais, Augusto Santos Silva revela falta de sentido de Estado dando primazia aos seus projetos políticos pessoais. Claro que o Chega também ganha com esta situação. Posiciona-se no vórtice do fluxo mediático e isso serve as suas aspirações populistas. Ou seja, todos ganham na mercearia política. Perde o país que vê o seu segundo órgão de soberania afastado das suas funções primordiais e a gastar energia, tempo e recursos com uma questão de "lana-caprina"..Depois não se queixem do facto de, cada vez mais, os portugueses se afastarem dos partidos e da vida política. Com os problemas que temos no horizonte, com as dificuldades que se avolumam, quem é que tem paciência para jogos e egoísmos políticos pessoais. Mas será mesmo para isto que nós vamos às urnas?.Jornalista