Ribeira navegável até à Praça do Comércio, zona mal-afamada (era aqui que ficavam as chamadas Casas de Alcoice, isto é, bordéis), local de hortas, de um mercado depois transferido para a Praça de Espanha, refúgio da comunidade muçulmana, poupada pelo Terramoto de 1755, casa da Procissão de Nossa Senhora da Saúde e palco de várias tentativas de alteração. O Martim Moniz já foi uma das entradas em Lisboa, sempre com polémica à mistura..Esta é a história resumida de uma das praças mais faladas da capital na última semana e por uma razão que está a dividir as opiniões: o projeto da câmara municipal para requalificar a zona. Mais um. .Se a necessidade de existir uma mudança na praça é consensual - criar uma zona verde, um parque infantil e novos quiosques feitos de contentores - entre os participantes nos fóruns que seguem a vida da cidade, o projeto apresentado a 20 de novembro pela autarquia é bem menos pacífico..De tal forma que está online uma petição para que o plano de concessão da praça seja anulado, uma ideia apoiada pela oposição na autarquia, que já exigiu mais explicações da vereação liderada por Fernando Medina. No topo das polémicas, o contrato de concessão que a autarquia assinou com a empresa que vai explorar o comércio na zona e o potencial de ruído de que os moradores se queixam..Esta é uma área agora muito cobiçada mas que até há um século pouco se desenvolveu. "Ali não existia nada até ao século XX além de hortas. Chegavam à Avenida Rainha D. Amélia, que depois na República foi rebatizada como Avenida Almirante Reis", explica ao DN o professor José Luís de Matos. Que acrescenta: "Muito pouca gente se tem dedicado à história da Praça Martim Moniz.".Pouco interesse que acaba por se refletir na história da praça, que contou com uma arquitetura que por estes dias certamente faria as delícias dos milhares de turistas que passam por Lisboa, como o Palácio do Marquês de Alegrete, com o seu brasão, e o arco que lhe estava acoplado e que permitia a ligação entre a Rua da Mouraria e a Rua Fernandes Fonseca..O edifício foi demolido em 1946, pois, como explicava o DN na sua edição de 17 de janeiro, "em boa verdade o palácio não deixa saudades nem felizmente há que lamentar sob o ponto de vista artístico a sua desaparição. Trata-se de um edifício sem real valor arquitetónico - e quasi sem história. Atualmente é um imenso casarão feio e triste enegrecido e quasi sordido"..Na realidade, esta degradação foi aproveitada para se alargar a Rua da Palma e possibilitar uma melhor e maior circulação dos elétricos e carros na zona. Com esta demolição, que durou dois meses, surgiu da junção da Rua Martim Moniz, do Largo Silva e Albuquerque e de um troço da Rua da Mouraria o Largo do Martim Moniz..A mais antiga procissão de Lisboa.Da história do largo que agora é praça, um dos poucos factos históricos sempre destacados é a chegada em 1173 do barco que transportava as relíquias de São Vicente (padroeiro de Lisboa que morreu em Valência depois de ser torturado pelas autoridades romanas no início do século IV). O barco cruzou a atual Praça do Comércio e lançou âncora na agora mediática praça..O outro ponto de interesse é a realização anual da Procissão de Nossa Senhora da Saúde, que saiu da capela com o mesmo nome. O cortejo que tem lugar no primeiro domingo de maio começou a realizar-se em 1570 - foi interrompida em 1910, retomada em 1940, voltando a ser interrompida em 1974, até 1981 - e surgiu em ação de graça pelo fim de um surto de peste que atingiu a cidade..Foi também aqui no Martim Moniz que em 1922 aconteceu um dos episódios mais conhecidos do conflito entre republicanos e a Igreja Católica: a colocação de uma bomba na igreja do Socorro. O templo não foi afetado, mas acabou por não resistir em 1946 às demolições dos arquitetos do Estado Novo que desenharam uma nova praça..Grandes demolições e o "buraco da cidade".É nos anos 40 do século passado que o largo começa a ser "desenhado" e redesenhado". Na altura do Estado Novo foi decidido que a zona da Mouraria iria ser um bairro moderno. Para isso foi necessário demolir grande parte do que ali existia e as pessoas que lá viviam acabaram realojadas em bairros da periferia da cidade..Durante três décadas surgiram planos e projetos de requalificação envolvendo, principalmente, três arquitetos - João Guilherme Faria da Costa (década de 40); George Meyer Heine (60) e Filipe Lopes (70) - que foram sendo adiados. João Costa teve muita projeção na altura, pois foi o primeiro arquiteto português a diplomar-se fora de Portugal - no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris. Foi responsável pelo plano diretor de Lisboa entre 1938 e 1948; fez estudos para o bairro do Restelo, Martim Moniz, Areeiro, Alvalade e alguns planos de territórios como a Costa do Sol (Lisboa-Cascais), no concelho de Almada, Cova do Vapor, Trafaria, Costa de Caparica..É assim que desaparecem a igreja do Socorro, o Teatro Apolo (um dos mais populares da cidade e que tinha sido inaugurado em 1886 com o nome de D. Carlos em homenagem ao futuro rei), o palácio e o arco do Marquês de Alegrete..E naquele espaço - que ficou conhecido como o "buraco da cidade" - surge um largo aproveitado pelos autocarros e elétricos, para um mercado e mais tarde para uns barracões de zinco onde reinavam as lojas de ourives. Mais tarde, surge o Hotel Mundial (inaugurado em 1958)..O projeto de Nuno Abecasis.Com esta "ferida" na Baixa da cidade chegou à presidência da câmara municipal Krus Abecasis (eleito em 1978 com o apoio do CDS e do PSD e depois reeleito em 1983 e em 1985)..Em 1981, o autarca anuncia que vai haver um novo Martim Moniz, um projeto dos arquitetos Carlos Duarte e José Lamas. A ideia vencedora, que se impôs a duas outras, de Tomás Taveira (o arquiteto das Amoreiras), pretendia respeitar o estilo pombalino, as cores da cidade (rosa e amarelo) e criar um centro cultural com salas de cinema, uma de teatro, calçada portuguesa com desenhos de Eduardo Nery e quiosques. E a do arquiteto Silva Dias, que era mais próxima daquilo que existe atualmente..Mas antes de estas obras se iniciarem houve necessidade de mudar a face do largo e é assim que nascem uns pavilhões provisórios onde foram colocados os comerciantes expropriados daquela zona e do mercado da Praça da Figueira..Em 1984, os comerciantes são colocados na Praça de Espanha - o que obrigou a intervenção policial, pois não queriam -, mas os planos para a área pouco mais avançaram. Apenas surgiram os dois centros comerciais que ainda hoje existem: o da Mouraria, inaugurado em 1989, e o do Martim Moniz, em 1991..A mudança com João Soares.Demorou seis anos até haver uma nova alteração na praça. Liderava a câmara o socialista João Soares quando se avançou com um projeto de requalificação partindo da construção de um parque de estacionamento subterrâneo.."Aquilo não era uma praça, tinha lá um conjunto de barracões, onde estavam os ourives e outros lojistas", recorda ao DN João Soares, que na altura pediu aos arquitetos da autarquia Daniela Ermano e João Paulo Bessa um projeto para a área central da praça..Quem também acompanhou o processo foi Vasco Franco. Na altura, era vereador - entrou para a autarquia em 1983 - e recorda que havia três projetos de requalificação para a zona: "Um do Tomás Taveira, com sete ou oito torres; outro do arquiteto Silva Dias que deixava a praça mais livre e o do Carlos Duarte e José Lamas, do qual acabou por se construir apenas os dois centros comerciais.".Mais tarde avançou, então, a remodelação apresentada por João Soares. "Fez as duas coisas mais marcantes para a praça: o parque de estacionamento e o arranjo de fontes com os quiosques", frisa..Surge assim o atual jogo de água em frente ao Hotel Mundial e 44 quiosques que pretendiam dinamizar a zona. A verdade é que três anos depois a então Empresa Pública de Urbanização de Lisboa deixou cair o projeto por falta de viabilidade. Como resultado desta decisão o espaço ficou a ser mais conhecido por albergar sem-abrigo e pelas questões de insegurança ligadas à prostituição e ao tráfico de droga..Mercado de fusão.Chegamos assim a 2011, já depois de passadas as promessas de requalificação feitas por Santana Lopes quando foi presidente da câmara (23 de janeiro de 2002 a 17 de julho de 2004 e de 14 março de 2005 a setembro desse ano) e de os comerciantes chineses terem abandonado os quiosques onde estavam instalados por falta de clientes..Surgiu então há sete anos a ideia de criar um Mercado de Fusão na praça - que foi assistindo a esporádicos espetáculos como o assinalar do Ano Novo Chinês - com o objetivo de dinamizar o espaço e ajudar à divulgação da cultura e culinária das cerca de cem nacionalidades que se encontram nas freguesias de Santa Maria Maior e de Arroios..Nova requalificação prometida.Chegamos assim à atual situação da praça e à promessa da autarquia, que vai avançar com uma nova requalificação. O projeto foi apresentado no dia 20 de novembro no Hotel Mundial, ficando a garantia de que as obras vão ficar a cargo do atual concessionário do local - este é um dos pontos mais contestados pela oposição autárquica, que já pediu acesso aos contratos assinados..Na cerimónia, o vereador Manuel Salgado, responsável pelo urbanismo, explicou que os atuais quiosques vão ser substituídos por contentores marítimos e que vai ser aumentado o espaço público. Ficou também a garantia de que a segurança, a limpeza e a manutenção da zona ficarão a cargo da empresa que vai explorar a concessão..Segundo foi divulgado, o espaço terá uma zona verde, a manutenção do lago que já existe e a construção de um parque infantil junto ao Hotel Mundial..É este projeto, aliás mais a forma como a concessão foi renovada, que os partidos e algumas associações contestam - na petição pública até se pede um referendo local consultivo às opções que possam existir para a zona - e em relação ao qual estão a exigir explicações a Fernando Medina.