Depois de vários quilómetros de auto-estrada moderna, entra-se em El Jadida, centro turístico ao sul de Casablanca. É uma cidade simpática, com uma praia repleta de gente. Mas, para um português, é uma cidade especial. Tocando o mar, um dos seus bairros faz parte da nossa história: é a "cidade portuguesa de Mazagão", marco da nossa expansão para sul no começo da era das Descobertas, cidade seiscentista cercada de muralhas. Os marroquinos fizeram dessa jóia arquitectónica "património mundial", segundo a certificação da UNESCO, e desejariam que Portugal os ajudasse a restaurar este "bairro português" de Al Jadida - diamante por lapidar de grande riqueza histórica, cultural e turística..Embora preservado - nomeadamente a sua magnífica "cisterna portuguesa" -, aquele espaço necessita de ser mais bem tratado. Se restaurada, a cidade de Mazagão seria, para nós, aqui no grande vizinho do Sul, o que Olinda, Ouro Preto, Paraty ou o centro histórico de Salvador são no Brasil: notável memória da nossa passagem pelas sete partidas do mundo..Não sei se empresas turísticas portuguesas terão interesse em participar na aventura de tornar Mazagão numa pérola portuguesa na costa marroquina. Sei que Marrocos, no enorme esforço para se tornar um país moderno, privilegia o turismo como uma das alavancas do seu desenvolvimento e que grandes empresas espanholas do sector aí estão penetrando em força. O Governo de Rabat quer dez milhões de turistas em 2010, num país cuja riqueza cultural e fascínio são notáveis..Marrocos é uma festa da cor e das sensações. O verde das montanhas, o amarelo do deserto e os ocres das cidades muralhadas e das especiarias, o azul do céu e do mar; Tânger, onde Matisse descobriu a luz do país e a sua grande arte decorativa; Marraquexe, a cidade vermelha, com a sua medina e a grande praça Jemaa el-Fna, património oral da humanidade, um teatro a céu aberto; Fez, a cidade santa, também classificada pela UNESCO, e a sua medina milenar, abrindo-se lentamente ao turismo e tentando ao mesmo tempo preservar as suas tradições; Volubilis, a opulenta cidade romana a 30 quilómetros de Meknès, outra das antigas capitais imperiais; a moderna Rabat, a cidade capital de onde o jovem rei Mohammed VI dirige o impulso renovador da sociedade e da economia..Mohammed VI é hoje o centro do enorme esforço de modernização de Marrocos. O jovem Rei recusou viver no sumptuoso palácio de seu pai, o rei Hassan II, preferindo aquele onde já habitava como príncipe herdeiro, bem mais modesto. Pode ser visto, de vez em quanto, guiando o seu carro em família entre os carros dos cidadãos comuns, parando nos semáforos como qualquer um deles. Procura conduzir o país para um Estado de direito - Marrocos é já o mais democrático dos países árabes, mais próximo das liberdades e da justiça - e já promoveu a reforma do estatuto da mulher e da família. Não hesitou em abrir os dossiers dos "anos de chumbo" da repressão, fazendo justiça às vítimas..O Rei estimula e verifica o surto de desenvolvimento (cerca de 7% ao ano), seguindo pessoalmente o curso dos empreendimentos: na área social, com o plano de habitação social, cem mil fogos até 2010) que terminará em poucos anos com os bairros de lata, onde, de resto, os fundamentalismos encontravam terreno fértil; nas infra-estruturas, dotando o país com uma moderna rede rodoviária (constroem-se 500 quilómetros de auto-estradas por ano, contra 15 há apenas meia dezena) e ferroviária; no posicionamento nos circuitos comerciais, criando o grande porto transoceânico de Tânger, que vai revolucionar todo o Norte e rivalizar com Algeciras; desenvolvendo as áreas de serviços offshore e fazendo acordos de livre comércio com os Estados Unidos, a Turquia e outros países (Jordânia, Egipto, Tunísia); desenvolvendo o ensino universitário e direccionando os melhores alunos das escolas de todo o país para esse ensino. Mohammed VI sabe que o seu país corre contra o tempo..Marrocos é já um importante parceiro comercial de Portugal, cerca de 120 empresas portuguesas aí operam já (PME, sobretudo): na construção, nos têxteis, nas pescas, noutros variados sectores. A balança comercial é largamente favorável a Portugal, 280 milhões de euros/ano, contra 70. A Cimpor aí tem a sua terceira maior cimenteira, a Adubos de Portugal e a PT importantes parcerias..Politicamente, Marrocos também não nos pode ser indiferente. Ser um país tranquilo e tolerante, em crescimento e desenvolvimento continuados, é uma boa razão política para uma vizinhança duplamente interessada. A cimeira luso-marroquina de Setembro, em Rabat, dará decerto ao primeiro-ministro português e ao chefe da nossa diplomacia uma razão mais para uma cooperação claramente positiva.