Com o subtítulo "Instalação para estantes de partitura e outros materiais", a obra marca a estreia da bailarina e coreógrafa nesta vertente artística e surge no âmbito da Bienal de Arte Contemporânea (BoCA), em que é artista residente para 2019 e 2020..Patente de quarta-feira a 18 de abril no mosteiro, um dos espaços sob gestão do Teatro Nacional São João, a instalação mostra, em estreia mundial, um trabalho de Monteiro Freitas sobre estantes de partitura de música, um objeto com que já tinha trabalhado em "Bacantes-prelúdio para uma purga"..Esse espetáculo, estreado em abril de 2017, acabou por marcar a carreira da cabo-verdiana residente em Portugal, uma vez que à estreia italiana, na Bienal de Dança de Veneza 2018, se seguiu a entrega de um Leão de Prata do evento, pela sua carreira, juntando-se a antigos galardoados como o norte-americano Merce Cunningham ou a belga Anne Teresa de Keersmaeker..Para Marlene Monteiro Freitas, mas também para o público que possa ver a instalação, as estantes de partitura surgem como objetos que representam "a curiosidade", explicou a criadora, em entrevista à Lusa, sendo que é esse o grande tema da peça.."Já tinha trabalhado com isto, e apercebi-me das capacidades de metamorfose e antropomórficas destes objetos. Porque se desmembram e transformam rapidamente, e enviam-nos imagens que não projetávamos inicialmente sobre eles", acrescenta..Assim, sobre estas estantes joga-se um "jogo quase vertiginoso de imagens" mentais, com o público a ter a missão de encontrar mais interpretações sobre aqueles objetos, estáticos..Depois de "Bacantes", Freitas apercebeu-se de que tinha "visto uma árvore que esconde uma floresta", e essa metáfora serve também o próprio propósito da instalação, cujo objetivo é estimular a busca de mais sentidos e significados..Iniciado a partir de um desafio da organização da BoCA, de "trabalhar numa coisa diferente de um espetáculo de dança", a experiência levou-a a encontrar a "possibilidade de muitas outras situações, sem fechar oportunidades" na interpretação de um mesmo objeto e as "imagens que cada um recebe ao encontrar uma associação mental".."O 'Cattivo' está entre um sítio arqueológico, de descobertas, e uma casa de bonecas, está entre estes dois extremos. Tem a ver com a curiosidade, com a relação com o objeto e a descoberta. As estantes dizem-nos coisas, pedem-nos determinadas situações, é como um jogo. Apontam para diferentes direções e acho que de alguma forma é esse diálogo, quase como um diálogo que se tem com uma casa de bonecas, a colocar as bonecas em situações, ou a perseguir uma descobrir algo, a escavar", revela..Estrear-se noutra vertente artística "foi diferente e não foi", porque se rodeou de vários elementos da sua equipa técnica habitual e usou "o mesmo método", e a aprendizagem foi "criativa e técnica, sobretudo técnica".."Com objetos, eu não tinha algum conhecimento técnico, de parafusos a outras coisas, e há aqui uma forma de pegar nas estantes e encurtar, desmembrar. [...] Foi engraçado juntarmo-nos para esta coisa muito diferente, apesar de o método ser parecido no trabalho com imagens", refletiu..Nascida em 1979, em São Vicente, Cabo Verde, Marlene Monteiro Freitas cofundou em Lisboa a estrutura cultural P.O.R.K., com a qual assinou coreografias como "Paraíso-coleção privada" (2012-13) e "marfim e carne -- as estátuas também sofrem" (2014), entre outras obras.