1. Para onde vai o cinema português? Face a um filme como Kiss Me, de António da Cunha Telles, qualquer resposta parece estar condenada a lidar com um estranho paradoxo: por um lado, estamos perante um objecto assinado por um nome ligado ao «Cinema Novo» dos anos 60, ao qual deu um contributo fundamental como realizador e, sobretudo, como produtor; por outro lado, dir-se-ia que Kiss Me é feito para revalorizar o simplismo dramático e a ideologia do pitoresco que caracterizaram o cinema contra o qual, justamente, a geração de 60 se revoltou. .Kiss Me assume-se, de facto, como um peculiar caso de regressão temática e academismo formal. Trata-se de traçar o retrato de um Portugal «esquecido» dos anos 50/60 em que a odisseia de uma mãe solteira do Alentejo desemboca numa existência glamorosa, em Tavira, que a leva a aproximar-se da imagem e do comportamento de... Marilyn Monroe. A suposta dimensão mítica de tal existência nunca ultrapassa o primarismo figurativo dos concursos televisivos que, por norma, levam os incautos concorrentes a tentar mimetizar algumas referências iconográficas do cinema ou da canção. Ao mesmo tempo, a tentativa de introduzir algumas componentes «históricas» (o antifascismo, a Pide) está ao nível dos mais banais dispositivos narrativos - também de origem televisiva - que confundem o trabalho da ficção com a ostentação de símbolos do mais vulgar maniqueísmo político e dramatúrgico. .Apoiado na imagem de Marisa Cruz, intérprete da personagem central, Kiss Me reflecte um drama complementar: o de querer aplicar um conceito de estrela cinematográfica que, na falta de qualquer genuíno enraizamento no universo dos filmes, procura apoiar-se na sua filiação noutra paisagem expressiva (neste caso, em particular, a publicidade). Compreende-se, por isso, a crueldade de um falhanço em que a actriz, fosse ela qual fosse, se reduz a um gadget narrativo: sem uma verdadeira personagem para sustentar, Marisa Cruz funciona como mera caução figurativa. O mesmo se poderá dizer da escolha de Rui Unas para a personagem de um «resistente» de Lisboa que escolheu o exílio político de Tavira: a sua ausência interpretativa é o preço de um estilo que passou a confundir o casting cinematográfico com a mera integração de uma simbologia «alternativa» gerada pelo ambiente televisivo. .2. Dito isto, talvez seja útil acrescentar que o espaço em que nos deixámos instalar (críticos incluídos) para discutir os problemas do cinema português está carente de ideias. E que, por isso mesmo, seria demasiado fácil reduzirmos Kiss Me a bode expiatório seja do que for. O sintoma mais medíocre de tal limitação encontra-se, sistematicamente, nas cores mais rosadas do jornalismo dominante. Face a um filme como este, é inevitável que circule o mais estúpido dos silogismos: primeiro, o «erotismo» (leia--se: os nus) de Kiss Me inscrevem--no no domínio dos objectos «comerciais»; segundo, o cinema português divide-se em «comercial» e «artístico»; enfim, trata-se de escolher entre uma coisa e outra. .Permito-me insistir: uma oposição deste género decorre de uma estupidez argumentativa cujo poder continua a ser quotidiano e devastador. Claro que sobre os valores do «erotismo» dominante e a sua visão «liberal» (mas visceralmente repressiva) dos conteúdos sexuais, também haveria muito a dizer... até porque a sua saga transcende, e muito, o espaço específico do cinema. Em todo o caso, vale a pena enfrentar essa lógica dedutiva que tende a encerrar o cinema português num impasse sem solução . Pela minha parte, devo dizer que conheço há 30 anos a querela da arte versus comércio. Não possuo, como é óbvio, ideias absolutamente seguras nem soluções mágicas para lidar com os dramas que envolvem os filmes em Portugal. Mas uma certeza tenho: a de que a continuada divisão entre o «comercial» e o «artístico», ao longo das décadas sustentada por discursos de quase todas as áreas - dos cineastas à classe política, passando pelo jornalismo -, só tem contrariado a criação de condições estáveis para uma produção cinematográfica tão regular e diversificada quanto possível. Em tempos mais recentes, com uma triste consequência complementar: a criação de um fosso de incómoda estranheza, e profundas desconfianças, entre a economia do cinema e a economia das televisões, completamente contrário àquilo que acontece em alguns mercados de referência da União Europeia. .3. Quer isto dizer que Kiss Me é um caminho legítimo para o cinema português? A meu ver, a resposta nada tem a ver com legitimidade. Mas sim com gosto pela pluralidade. É perfeitamente possível conceber que uma cinematografia possa conter as mais extremadas experiências formais (como, por exemplo, os filmes de Pedro Costa ou Edgar Pêra), a par de filmes que, mal ou bem, procuram encontrar a sua lógica na relação com algum património mais tradicional. .Sabe-se como este combate pela pluralidade tem sido viciado pelo argumento das «bilheteiras». E também aí importa relembrar uma evidência que, não se percebe bem porquê, tanta gente continua a querer ignorar: a de que nenhum modelo de filme garante qualquer performance automática no mercado. Sublinho: nenhum. Quando prevalecerá a única noção verdadeiramente criativa? Qual? A de que, no plano político-económico, não se trata de escolher entre modelos de cinema, mas sim de encontrar condições para sustentar a maior diversidade de modelos. .Aliás, para os mais dados a desviar todos os problemas do género para considerações moralistas, talvez possamos repetir uma sugestão didáctica: a de, antes de perorarem sobre as misérias do cinema português, se esforçarem por elaborar algum ponto de vista sobre a (des)proporção entre os dinheiros do cinema português e as verbas investidas no cimento para dez estádios de futebol. É um desvio demagógico? Seja. Mas, tendo em conta que os 650 milhões de euros gastos no Euro 2004 davam para produzir mil filmes portugueses - um século de produção à média de 10 filmes por ano -, convenhamos que a demagogia é uma tentação irresistível. E saudável, digo eu.