Ontem de manhã, vi Marcelo Rebelo de Sousa a descer, a pé, a Calçada da Estrela a caminho da Assembleia da República para a tomada de posse: foi o momento mais eloquente do dia. Bem sei que tirar conclusões baseado na descida de uma rua, num dia de celebração, é, digamos assim, atrevido, mas a forma como foi saudado, como as pessoas não receavam abordá-lo, como o tratavam como alguém próximo foi impressionante. Não os acenos habituais de parte a parte, mas sim uma demonstração de carinho quase comovente..O discurso - notável, conciso e preciso - foi, sobretudo, a formalização, a enunciação da perceção que os portugueses têm do Presidente da República, uma continuação daquele passeio pela Estrela: um de nós, alguém que fala de nós e connosco. Lembrou o nosso passado comum, o nosso património histórico e cultural, as nossas forças, o nosso único papel no mundo, tentou devolver-nos a esperança lembrando-nos aquilo que somos..[citacao:Marcelo Rebelo de Sousa chega a Presidente da República com um capital político nunca visto na nossa democracia].O Presidente da República, além disso e sobretudo, falou de política, ou seja, mais uma vez de nós. Dos nossos que estamos a deixar para trás, dos milhões que vivem na pobreza, dos que expulsamos do país. Mas também de quem trabalha, de quem está no desemprego, de quem anseia por mais justiça e dignidade. De todos nós e de cada um de nós, no fundo. Dizer que a política tem de se subordinar à economia é dizer que as pessoas têm de estar em primeiro lugar, e não há nada com mais conteúdo político. E que bom é ouvirmos quem nos representa falar dos nossos problemas e dos nossos sonhos sem ter de estar constantemente a bater no peito a dizer que só pensa nos superiores interesses da nação..Não há modo de evitar que as expectativas em relação ao desempenho de Marcelo sejam enormes. Será muito provavelmente o maior problema com que esta Presidência se vai confrontar. O Presidente bem tentou deitar um bocadinho de água na fervura, fazendo questão de dizer que não vai "querer ser mais do que a Constituição permite, nem aceitar ser menos do que a Constituição impõe", mas ninguém como ele sabe que o seu cargo é bem mais moldável do que a letra da Lei Fundamental. No mesmo sentido, é bom que esteja consciente de que lhe vai ser exigido mais do que foi a qualquer outro Presidente. É que Marcelo Rebelo de Sousa chega a Presidente da República com um capital político nunca visto na nossa democracia e com uma ligação a quem representa jamais sentida. Uma legitimidade única, uma gigantesca responsabilidade.