Marcelo na Califórnia. "Onde estiver um português, aí está Portugal"

O Presidente da República esteve em San Diego e Artesia, perto de Los Angeles, na primeira visita de um chefe do Estado em 33 anos. Comunidade pediu reforço do ensino do português.
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"Tu és o futuro", disse o presidente Marcelo Rebelo de Sousa a uma menina de três anos, vestida com um traje tradicional português, que foi ter com ele ao pódio onde discursava no salão português de Artesia. A localidade, nos arredores de Los Angeles, não recebia um presidente da República Portuguesa desde 1989. Fê-lo este fim de semana com a pompa e circunstância de uma comunidade luso-americana toda engalanada, a rebentar de orgulho.

"Nunca perdemos a honra e a responsabilidade de sermos representantes desta linda bandeira", disse o lusodescendente Jimmy Enes, membro do salão Artesia D.E.S., no discurso de boas-vindas proferido num português perfeito. "Quando perguntam o que somos, respondemos sempre "I am Portuguese" e não "Portuguese-American" ou "Luso-americano"", afirmou. "É por isso que vamos tentando, de passo em passo, salvaguardar esta nossa herança nos arredores de Los Angeles, uma das maiores cidades do mundo."

Artesia foi uma das paragens na visita do presidente Marcelo Rebelo de Sousa à Califórnia, a viagem mais abrangente de um chefe de Estado desde que Mário Soares saudou as comunidades da Costa Oeste há 33 anos.

O salão recebeu o presidente durante a Festa dos Santos Populares, que organiza todos os anos em setembro, e que desta vez também comemorou os 50 anos da Banda Filarmónica de Artesia. Dezenas de músicos e dançarinos marcharam pelo átrio, cantando em português, enquanto a comunidade alternava o bater de palmas com a degustação de sardinhas. Marcelo Rebelo de Sousa trocava palavras e tirava fotografias com os luso-americanos. "É extraordinário, um presidente sempre com o povo", disse ao DN Steve Miranda, presidente da direção do Artesia D.E.S. "Penso que isto tocou o coração de todos."

Zeto Carvalho, conselheiro da diáspora açoriana e responsável da SATA Air Açores, frisou o mesmo. "Este evento é importante e de um significado enorme porque o povo emigrante sente-se acarinhado quando o presidente vem cá e demonstra o que ele demonstrou aqui, aquele afeto", disse ao DN.

O presidente tinha prometido a visita em 2018 e está a cumpri-la esta semana, numa altura em que as ligações entre a Califórnia e Portugal são mais fortes que nunca.

"A presença portuguesa na Califórnia por um lado conjuga uma integração exemplar e por outro um espírito de associação e uma ligação a Portugal que está à vista de todos", afirmou o cônsul-geral de Portugal em São Francisco, Pedro Pinto. "Hoje, está aqui Portugal."

Localizada a cerca de trinta quilómetros da baixa de Los Angeles, Artesia tem uma comunidade portuguesa de alguns milhares de pessoas, oriundas sobretudo dos Açores. É frequente ver nas portadas das vivendas em torno do salão nomes de família como Rodrigues ou Silva, e a Igreja da Sagrada Família ali perto ainda tem uma missa semanal em português, celebrada pelo padre Luís Proença.

"Com quase 100 anos de existência, a sociedade do Divino Espírito Santo de Artesia continua a ser um exemplo da comunidade, no estado com a maior presença portuguesa nos EUA", disse Jimmy Enes. A Califórnia é, de facto, o estado onde há mais pessoas de origem portuguesa, 347 mil. Esta comitiva - em que o presidente é acompanhado pelos deputados Eurico Brilhante Dias (PS), João Moura (PSD), Rui Paulo Sousa (Chega) e Pedro Filipe Soares (BE) - visita várias destas comunidades, desde San Diego e Artesia a São José, São Francisco, Gustine e Turlock.

A dispersão geográfica num Estado gigantesco e a distância significativa para Portugal, com um único voo direto da TAP que dura 10 horas entre São Francisco e Lisboa, dificulta a manutenção das ligações. Foi por isso que o presidente salientou o trabalho feito pelos salões portugueses da Califórnia, incluindo o de Artesia.

"Sinto-me feliz porque vocês são um exemplo maravilhoso. Tão longe de Portugal, vocês são Portugal", disse o presidente, num discurso quase todo em inglês. "Queremos que vocês sejam portugueses a viver nos Estados Unidos, sendo americanos também nunca esqueçam que são portugueses", continuou. "Estou muito orgulhoso de vocês e desta associação. Do que vocês fizeram aqui ano após ano."

O chefe de Estado salientou a quantidade de jovens na banda filarmónica e na audiência, uma vez que a atração das novas gerações de lusodescendentes é um dos desafios que mais preocupa as comunidades. E falou da importância do ensino da língua, "a quinta mais falada no mundo", algo que é uma reivindicação constante dos líderes comunitários.

"Temos de melhorar o conhecimento da língua portuguesa", frisou, apontando para o trabalho que está a ser desenvolvido com o novo superintendente do distrito escolar unificado de Los Angeles, o português Alberto Carvalho, que esteve presente no evento.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas Paulo Cafôfo, que urgiu as associações a candidatarem-se aos novos apoios ao associativismo, também mencionou esse aspeto. "O governo português está muito empenhado na promoção da língua portuguesa", garantiu.

Para Paula Rocha Dias, intérprete de português emigrada em Oceanside há 14 anos, esse é um ponto fulcral. "Gostava de um reforço do ensino de português para que crianças que estão a crescer aqui não percam a língua, como aconteceu com a minha filha", disse ao DN. "Ela hoje disse pela primeira vez que é luso-americana", referiu, mostrando-se emocionada por ter podido cantar o hino português com os seus compatriotas. "Gostei do facto de o presidente relembrar que somos todos parte do orgulho português e apesar de estarmos longe continuamos a ter Portugal no coração."

Com uma participação estimada em 500 a 700 pessoas, a festa em Artesia "foi um sucesso muito grande", disse Steve Miranda. E necessário: "Precisamos de criar este entusiasmo para os mais novos continuarem com a nossa cultura."

O presidente entendeu a tarefa, distribuindo abraços e ouvindo as muitas histórias dos emigrantes. "Onde estiver um português, aí está Portugal", afirmou. "Onde quer que vamos, levamos connosco a nossa alma, a nossa tradição."

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