Marcelo elogia emprego de Durão... Mas porquê?!

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Com tanta notícia excitante neste mundo maravilhoso mas doente quase deixei passar despercebida uma leve perturbação que, apesar de mínima, explica tanta coisa...

Quando há dez dias era notícia ter o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, aceitado o lugar de presidente em Londres do banco Goldman Sachs, espalharam-se nos jornais os comentários ácidos, os tons indignados, as revoltas de verbo. E com óbvia razão.

Mas no mesmo dia o nosso Presidente da República resolveu deitar água na fervura : "No caso do doutor Durão Barroso, trata-se de atingir o topo da vida empresarial. E o topo da vida empresarial tem muito mérito, como tem atingir o topo na ciência, na universidade, na cultura, nas artes. Portanto, deve ser naturalmente reconhecido", disse.

Que contraste face às declarações do presidente francês, nosso parceiro na mesma União Europeia que Durão comandou para o declínio: "é moralmente inaceitável que José Manuel Barroso se junte ao Goldman Sachs", disse François Hollande para, a seguir, explicar a acusação que qualificou, aliás, como defeito de carácter: "Ele esteve dez anos à cabeça da Comissão. O Goldman Sachs esteve no centro da crise dos subprimes e ajudou o governo grego a maquilhar as contas da Grécia."

Porque é que Marcelo Rebelo de Sousa, um homem que geriu a sua vida sempre com atenção para não cair em situações de incompatibilidade suspeita, vê mérito no novo emprego de Durão? Como é que o Presidente português, que foi sempre financeiramente transparente e inequívoco, defende o reconhecimento público para quem baralha alhos políticos com bugalhos profissionais? O que leva este homem, que não soaria despropositado se debitasse o aforismo cavaquista "para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes", a ser complacente com a promiscuidade política e financeira?...

Olho para a frase. Releio. O Goldman Sachs é, para o Presidente da República, "o topo da vida empresarial". Este é o toque... Nem o honesto, probo, afetuoso Marcelo consegue evitar admiração ao falar do Goldman Sachs. "O topo", diz ele. Algo quase inalcançável, colocado lá nas alturas, ao nível do divino.

Nem o católico praticante, cheio de entusiasmo pela consciência social do Papa Francisco, subscritor das críticas da Igreja aos crimes do mundo financeiro capitalista, olha para o Goldman Sachs sem deixar escapar admiração, respeito e, até parece, temor reverencial.

Há demasiadas boas pessoas complacentes por impotência, cobardia, cegueira , ignorância, necessidade ou hipocrisia com o rosto descarado do mais puro e destrutivo mal. E também é por isso que este mundo, maravilhoso mas com doença maligna, não se cura.

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