NADO E CRIADO na Rua da Fonte, na zona pobre de Esmoriz outrora designada por Campo Grande, Manuel José Ferreira Godinho, conhecido na terra por Zé Godinho – o irmão mais velho chama-se igualmente Manuel –, encarna na perfeição o epíteto camaso. Ser camaso, ao contrário do sentido pejorativo que tinha noutros tempos (ver caixa), é hoje tido como um elogio que qualquer habitante da parte nascente de Esmoriz recebe com orgulho: «o expoente máximo do trabalho, da luta, do querer ser maior e ser melhor», explicou o jornal A Voz de Esmoriz..Terceiro de seis filhos que Artur Godinho criou com um pequeno negócio de compra e venda de ferro-velho, Manuel José Godinho, o único detido do caso de alegada corrupção a que a Polícia Judiciária deu o nome de código de «Face Oculta», fez-se doutor na escola da vida e criou um império empresarial que o catapultou para um nível de vida muito acima daquele em que nasceu há 55 anos..«Somos de uma geração que começava a trabalhar com nove, dez anos», lembra Agostinho Fardilha, revelando como conhece o empresário de Esmoriz: «Apesar de ser um pouco mais velho do que o Zé Godinho, nascemos no mesmo pátio. Actualmente, não tenho uma convivência diária com ele, mas crescemos juntos, jogámos muitas vezes à bola.».Manuel José Godinho completou a antiga quarta classe e começou a ajudar o pai no negócio da sucata, tal como os demais irmãos. «Ele começou a recolher sucata com um Ford Capri que o pai lhe deu. Só depois comprou uma pequena furgoneta e mais tarde o primeiro camião», recorda Florentino Nogueira, vizinho de longa data do clã Godinho na Rua da Fonte, acrescentando: «Tudo começou ali, naquele terreno ao lado do que hoje é a casa dele. Mas como aquilo não tinha condições nenhumas teve de mudar o negócio para Arada. Daí foi obrigado a mudar novamente e instalou-se no Olho Marinho, ao lado da Toyota. Desse local, depois, mudou-se para a Zona Industrial de Ovar, onde está agora.».As dificuldades iniciais foram sendo superadas e, dando continuidade ao que o pai iniciara, Zé Godinho guindou o negócio ao império empresarial que hoje detém, e que resulta num universo de 11 empresas das quais é único dono ou sócio maioritário..O CRESCIMENTO exponencial da riqueza do dono da O2 – Tratamentos e Limpezas Ambientais, SA, empresa que está no centro de toda a polémica judicial em curso, dá-se, segundo o vizinho, «a partir da Expo’98», ou seja, aquando da limpeza dos terrenos onde hoje se ergue o Parque das Nações. «É a partir dessa altura que ele começa a aparecer com carros de luxo», lembra Florentino Nogueira que, apesar de colocar algumas reticências quanto ao modus operandi do empresário, sustenta: «É uma excelente pessoa, um óptimo vizinho, apesar de viver mais na casa do Furadouro, e um homem muito trabalhador.».Vivendas – em Esmoriz e no Furadouro (Ovar), onde vive habitualmente, para além de casa no Brasil, entre outras – e diversos carros de luxo são os sinais exteriores de riqueza evidenciados pelo empresário da sucata e que não o deixam passar despercebido, até porque «ele tem prazer em mostrá-los», sustenta o vizinho..Em Esmoriz todos conhecem Zé Godinho, mesmo que seja apenas de nome. E, apesar de ser pessoa de andar pouco pela cidade, excepto quando vai ao futebol ver o «seu» Sporting Clube de Esmoriz, essa notoriedade deve-se «à sua disponibilidade para colaborar e apoiar os pobres», refere Florindo Pinto, subdirector do jornal A Voz de Esmoriz..Colectividades como a Associação de São João, os Bombeiros Voluntários de Esmoriz, o Esmoriz Ginásio Clube ou o Sporting Clube de Esmoriz, entre outras, e inúmeros particulares anónimos devem muito à faceta de benemérito de Manuel José Godinho, a «quem muita gente recorre quando precisa»..«Ele tem ajudado muita gente e muitas associações aqui em Esmoriz. O Sporting de Esmoriz ainda sobrevive graças a ele, que paga tudo», afirma Florindo Pinto..Este facto é bastante valorizado entre a maioria dos esmorizenses com quem a NS’ falou. Para eles, Godinho é um filho da terra que, a pulso, soube vencer as agruras da vida e que, apesar de se estar a dar bem, nunca negou ajuda aos seus conterrâneos, tudo fazendo para melhorar a terra natal. E quando confrontados com o caso «Face Oculta», no qual o empresário é acusado de ter montado um «esquema tentacular de corrupção» para benefício próprio, as principais acusações são direccionadas para os alegados corrompidos e não para Godinho..«O INVEJOSO poderá dizer mal dele, mas a população em geral não», começa por dizer o subdirector de A Voz de Esmoriz, asseverando: «Sou defensor acérrimo de que lhe façam uma estátua aqui em Esmoriz, pelo bem que ele tem feito à cidade.».No artigo que assina na edição do jornal local que esta semana chega às bancas, Florindo Pinto sustenta: «Sabe Esmoriz inteiro, quanto simples de trato e benemérito é o visado [Manuel José Godinho]. (…) O tempo irá decorrer, os meandros da situação serão clarificados e, por certo, teremos o reconhecimento público de que foi preciso um homem “pouco letrado” se misturar com uma catrefada de doutores e engenheiros para que o País ficasse a conhecer mais uma página do livro da vida real de certas classes sociais.».E nesta defesa de Zé Godinho, Florindo Pinto vai mais longe: «Um qualquer advogado de defesa deve percorrer os caminhos, no respeito da lei, até conseguir para o seu cliente o estatuto de infiltrado.».Também Agostinho Fardilha, reformado das Finanças e actual director de A Voz de Esmoriz, é um defensor do empresário da sucata, de quem recorda ter «sido sempre um rapaz como os outros, mas com um espírito muito empreendedor»..«Não acredito que o sucesso empresarial do Zé Godinho tenha sido alcançado por estes meandros de que é acusado, acho sim que ele se antecipa sempre à concorrência… Não ponho em causa que ele faça algumas ofertas, mas nós vivemos num país assim e, muitas vezes, a forma de ultrapassar as barreiras não são as mais correctas. Todos fazemos isto!…», argumenta o ex-funcionário das Finanças, acrescentando: «Não quero fazer dele um Robin dos Bosques, mas as pessoas em Esmoriz não vão alterar o que pensam dele por causa disto. E acredito que ele será libertado e terá, provavelmente, que pagar uma multa, talvez, por concorrência desleal…».PORÉM, nem toda a gente olha com benevolência a situação. Apesar de reconhecerem o espírito benemérito de Manuel José Godinho, alguns esmorizenses têm dúvidas, atirando: «A trabalhar honestamente ninguém enriquece...».«Ele é um homem inteligente, pois não é qualquer um que apenas com a quarta classe consegue fazer o que ele fez a esses poderosos», sustenta Florentino Nogueira, questionando de seguida: «Como é que essa gente que ganha milhares se deixa comprar?... Sabe, não era ele que devia estar preso, mas os que se deixam subornar!».Também Fernando Pereira, taxista em Esmoriz, tem dúvidas sobre a forma como Zé Godinho subiu na vida: «Ele era pobre e enriqueceu como?».Já sobre a boa impressão que a população tem do empresário, o taxista é pronto a afirmar que «ele dava umas benesses a muita gente e fez alguma coisa pela cidade», mas realça: «Arranjou foi bons carros e boas casas para ele…» Sobre o processo «Face Oculta» tem poucas dúvidas: «Ele foi esperto de mais…».Ser camaso.A alcunha camaso, atribuída aos habitantes do Campo Grande, zona este de Esmoriz e a mais pobre da localidade, remonta ao século XIX, quando um tal de José Camásio, oriundo de Gondozende, foi condenado e preso na cadeia da Feira. Estava-se em 1808 e, desde então, apesar de não se estabelecer uma ligação precisa entre o condenado Camásio e a população de Esmoriz, o epíteto tem servido para designar os habitantes pobres (muito pobres) daquela região do que hoje é a cidade de Esmoriz..Se noutros tempos camaso era um termo pejorativo, designando uma população muito pobre e ostracizada, que, independentemente da idade, alimentava de mão-de-obra a indústria emergente, hoje as coisas são bem diferentes. A vontade férrea de ter uma vida melhor, à conta de trabalho árduo, e a generosidade enorme são os atributos de um camaso, alcunha que, agora, os esmorizenses recebem com grande orgulho, pois um camaso , como diz A Voz de Esmoriz, é «o expoente máximo do trabalho, da luta, do querer ser maior e ser melhor»..Um império de sucata.Manuel José Ferreira Godinho, de 55 anos, casado, tem dois filhos que trabalham no universo empresarial do pai, sendo um deles também director do Sporting Clube de Esmoriz, clube da II Divisão da Zona Centro..O império empresarial de Zé Godinho, construído em torno do negócio da sucata, é formado por 11 empresas de diversos ramos e das quais é único dono ou sócio maioritário: SCI – Sociedade Comercial e Industrial Metalomecânica, SA; O2 – Tratamentos e Limpezas Ambientais, SA; Manuel J. Godinho – Administrações Prediais, SA; Pedras Deslizantes – Comércio de Materiais de Construção; Comércio de Sucatas Godinho, Lda.; SEF – Sociedade de Empreitadas Ferroviárias, SA; FRACON – Construções e Reparação Naval, Lda.; PCLOD – Comércio Electrónico de Produtos Usados; 2nd Market – Recolha, triagem e reutilização de produtos electrónicos usados; SOCANF – Sociedade de Recolha de Resíduos, SA; RIBERLAU – Transportes Internacionais, Lda..O empresário tem a paixão do futebol, tendo já passado pela presidência do Sporting Clube de Esmoriz, colectividade que há muitos anos sustenta e que actualmente é presidida por Salvador Lourosa, funcionário numa das empresas de Manuel José Godinho..O patrocínio do empresário da sucata às colectividades da terra estende-se ao Ginásio Clube de Esmoriz – em cujo pavilhão se encontra publicidade à empresa O2, apesar de o clube se ter apressado a rejeitar, em comunicado, qualquer ligação a Godinho e às suas empresas –, aos Bombeiros Voluntários de Esmoriz, de que é sócio honorário, e ainda à Associação de São João, cuja obra foi maioritariamente paga pelo único detido no caso «Face Oculta»..Além destes e doutros apoios a associações do concelho de Ovar, Manuel Godinho tem ainda um vasto historial de ajuda a particulares que a ele recorrem, seja para a compra de uma cadeira de rodas, seja para a aquisição de um terreno, ou mesmo de uma casa.