Manual para avós

O reparo é sempre o mesmo, no que aos avós diz respeito: poucas regras, muito mimo. Se o equilíbrio não é fácil, clarificar questões pode ajudar a abrir caminho. A nm fez as perguntas, cabe agora aos avós aprender com as respostas.
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A avó São nunca trabalhou, mas está sempre de serviço. Não tem horário de trabalho, mas todos os dias acorda às sete da manhã e, quando é preciso, bate na porta em frente e vai a casa do filho para ajudar a preparar o Francisco, o neto de três anos, que tem de chegar ao infantário antes das 09h30. Ainda há meio ano, era ela quem tomava conta dele diariamente: tal como fez com o Tomás, que já tem nove anos, quis que o Francisco não fosse para a escola ainda bebé e propôs ser ela a ficar com o neto durante o expediente dos pais. Sempre que o infantário fecha, se os meninos estão doentes ou se a família vai de férias e é preciso tomar conta dos animais de estimação, a avó São arregaça as mangas e marca presença.

Maria da Encarnação Abreu, viúva, de 60 anos, tem a vida organizada em função dos filhos dos seus dois filhos. «Muita gente me critica, dizem-me que eu podia ter outra vida», admite. «Mas são miúdos muito meiguinhos», diz cheia de ternura. «Fica sempre tudo para a avó, mas eu não me importo nada.»

Além de assegurar os cuidados diários sempre que necessário, leva os netos à escola, vai buscá-los se for preciso e ainda os acompanha nas actividades extracurriculares. À noite, se o neto mais novo «está muito endiabrado», os pais pedem-lhe que o acalme ou que o convença a tomar banho quando ele não quer. Diz que as noras «não têm ali uma sogra, mas uma mãe» e orgulha-se de nunca ter tido qualquer conflito com os filhos no que à educação dos netos diz respeito. «Para o meu filho, tudo que eu faço está bem, nunca tivemos discussões», sublinha. Mas há um aspecto bem definido: em casa da avó São, as normas são dela. Dá aos netos «muitos, muitos mimos», mas na hora de repreender esta avó não delega a tarefa nos pais. «Comigo o Francisco é totalmente diferente, é um santo», brinca. «Antigamente não se faziam tanto as vontades aos meninos como agora, comigo eles têm regras», explica. «Eu tenho mais prática, não é?»

Diz que «nunca se mete entre o casal" e reforça que o papel de avó traz «uma responsabilidade maior», por isso anda sempre em cuidados quando leva os netos a passear à rua ou com ela ao supermercado. Maria da Encarnação talvez seja um exemplo fora do comum: o habitual é que os netos, sem nunca deixarem de receber dos avós carinho e atenção desmedidos, estejam no centro de uma disputa entre pais e filhos, genros e sogros, lutando para afirmar pontos de vista quanto à melhor forma de fazer crescer os mais novos sem mimo em excesso ou regras demasiado rígidas. Para ajudar os avós a perceber o caminho, a NM falou com a psicóloga Carla Costa, da Clínica da Educação, e procura responder aos dilemas dos que são «pais duas vezes», para que seja mais fácil mimar os netos sem inquietar os filhos.

Qual é o papel dos avós?

«Embora tenha havido alterações no conceito de família, o papel dos avós não mudou muito", adianta a psicóloga Carla Costa. Aliviados do peso de serem os educadores principais, os avós passam geralmente a imagem do «cantinho dos sonhos, contam histórias, têm tempo para nos ouvir, ensinar a cozinhar ou andar de bicicleta», refere a especialista. Podem dar-se ao luxo de dar só o mimo, o carinho, transmitindo os valores, crenças e rituais familiares. Ainda que hoje a disponibilidade para ser avô ou avó não seja a mesma - muitos ainda trabalham e estão longe da idade da reforma - é aos avós que cabe o papel de transmissão das tradições para os netos, fazendo uma ponte com o resto da família, mas sem nunca esquecer que a última palavra é a dos pais.

Em casa dos avós, as regras continuam a ser impostas pelos pais?

«O mais adequado será pais e avós conversarem sobre as regras impostas às crianças», diz Carla Costa. «Até porque os pais foram educados em casa dos avós, que eram os seus pais, e também sabem mais ou menos o que esperar», refere. É certo que os avós podem ser mais permissivos: se a regra em casa é deitar às nove da noite, esticar até às nove e meia não será assim tão grave. Importante é que os avós percebam quais as normas que não podem ser ultrapassadas, para que haja um equilíbrio. Outro ponto determinante para a psicóloga são os intervenientes na conversa que define os comportamentos que os avós devem seguir: «Pai e mãe devem falar com os respectivos progenitores, porque pôr genros, noras e sogros ao barulho normalmente dá confusão», avisa. Também não é permitido aos avós desautorizar os pais na frente dos filhos, «porque as crianças apercebem-se de tudo e aproveitam-se desse jogo», diz a especialista, minando a autoridade dos pais e cobrando aos avós todas as vontades.

Como podem os avós dar conselhos sem interferir demasiado?

«Tendo uma conversa aberta e respeitando aquilo que os pais pensam», sugere a psicóloga. «Não falar no sentido de afirmar que se tem razão, mas tentar perceber porque é que as coisas funcionam de determinada maneira e sugerir alternativas», resume. Mais uma vez, estas tentativas devem ser feitas partindo dos avós para o seu filho ou filha, sem passar primeiro pelos genros ou noras. «Não pode haver aqui uma interligação diferente porque senão corremos o risco de mal entendidos», esclarece Carla Costa. «Não podemos esquecer que quando existe uma família nova são duas culturas que se fundem e permitem àquela criança crescer em dois ambientes diferentes, por isso há sempre um lado que vai achar que está mais correcto do que o outro». Noutra perspectiva, quando os avós questionam os pais dos seus netos podem provocar rupturas entre o próprio casal. Convém pensar bem antes de falar.

É legítimo fazer uso do «mas no meu tempo era assim»?

«Não deve ser, principalmente em frente das crianças», diz Carla Costa. «Usar essa arma acabará por provocar uma discussão, porque quando os avós dizem "no meu tempo era assim" os pais concluem que no tempo deles é pior. Sentem-se atacados e vão defender-se», explica. Crianças, pais e avós têm de ter sempre presente que a última palavra, em qualquer situação, é sempre a palavra dos pais. Mesmo que o argumento da experiência acumulada também possa pesar, os avós têm de saber dar espaço aos seus próprios filhos, para que estes percebam os métodos que melhor funcionam na educação da sua prole. Além disso, é um facto: "os tempos são outros", refere a psicóloga, e não vale a pena continuar contra a corrente. Os avós podem dar opiniões, mas só quando lhes são pedidas.

É necessário pedir permissão aos pais para mimar os netos?

«É preciso bom senso acima de tudo», assume a especialista da Clínica da Educação. «Os mimos nunca são de mais e o avô vai ser sempre aquele que nos dá a fatia de bolo à sobremesa quando sabemos que não devíamos», brinca. Mas há regras que nunca podem ser quebradas, mesmo com todo o amor e carinho: «São aquelas que estão a ser impostas directamente pelos pais ou que os avós sabem, à partida, que são muito importantes para eles.» Mimar deve ter em conta que não é bom ultrapassar um certo nível de permissividade. Até porque os pais das crianças, quando confrontados com excessos, concluem que os avós «estão a estragar» aquilo que eles fazem, alerta a psicóloga, e cortam nas idas a casa dos pais. Também não é bom para os mais pequenos, que ficam mal habituados e sem saber lidar com os fracassos do dia-a-dia ou a levar um não por resposta.

Como é que um avô ou avó pode dizer aos filhos que já não está em forma para cuidar dos netos?

«Este lado terá de ser resolvido através do diálogo, que muitas vezes também não é fácil entre famílias», refere Carla Costa. Aí, «o papel é dos filhos, que devem estar atentos». A psicóloga verifica que muitas vezes «há situações de egoísmo em que estes não percebem que os próprios pais não estão em condições de tomar conta dos netos e podem eventualmente necessitar de outro tipo de apoio», em virtude da idade. «Também é preciso que haja respeito pelo espaço dos avós, perceber quando é que já está a ser de mais», sugere a psicóloga. Um equilíbrio que não é fácil de atingir e que os avós devem reclamar, sem receios, quando sentem que olhar pelos netos já é um encargo demasiado pesado. Não devem temer a rejeição, até porque se trata apenas de zelar pelo bem-estar das crianças e, simultaneamente, de valorizar e preservar os avós.

O que fazer se tiver um neto favorito?

«Cada pessoa, cada criança, tem um significado diferente para cada um de nós», diz a especialista. Assim como há empatias que se criam com amigos, familiares ou conhecidos, com os netos a situação pode repetir-se, «simplesmente tem que ver com feitios que empatizam mais do que outros», desdramatiza a psicóloga. «Não se pode fazer nada contra, é aceitar que isto acontece mas, acima de tudo, não discriminar ou deixar que a criança ou os pais sintam este favoritismo.» Avó e avô não estão livres de expectativas e podem ter desilusões quando os netos não crescem como esperam, mas o melhor é fazer os possíveis para que não haja discrepâncias e diferenças de tratamento.

Os avós são mesmo «pais duas vezes»?

«Eles são realmente pais duas vezes», corrobora a psicóloga Carla Costa. Porquê? «Porque já não têm de educar directamente, mas são os que já passaram por ali e agora podem oferecer uma envolvente de colo e mimo, para além das regras e da disciplina», esclarece. O envolvimento com a criança é diferente, o que explica que muitas vezes, nas fases complicadas da adolescência, os netos corram para os avós a contar dramas e experiências sobre os quais não falariam aos pais. No entanto, um alerta: os netos não devem passar demasiado tempo em casa dos avós, por conveniência de horários ou deslocações. Também os pais devem tirar algum tempo de qualidade para passar com os filhos, sem regras ou preocupações de disciplina. O melhor colo será sempre o dos avós, mas é importante estimular e incentivar momentos de brandura e descontracção com os próprios pais.

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