Terça-feira, 16 de Fevereiro.Mansos Costumes.Enquanto um ministro jura que o Estado "não tem responsabilidade directa" na escolha dos administradores da PT, um dirigente socialista lamenta a nomeação de "dois jovens impreparados para a PT". A verdade está no meio? Sem dúvida, se alguma verdade sobreviver a tamanhos malabarismos verbais..Por um lado, os "jovens" em questão apenas se revelaram "impreparados" na medida em que permitiram a divulgação pública dos planos do Chefe Maior (sic). Por um lado, o conceito de "responsabilidade directa" permite esconder as inúmeras interferências que resultam da "responsabilidade indirecta", se quisermos designar assim o controlo que o Estado, leia-se o Governo e leia-se o partido do Governo, mantém em diversas empresas inexplicavelmente públicas ou "privadas" no eufemístico sentido da PT. Não é à toa que o eng. Sócrates regularmente aconselha mais Estado para solucionar a crise, desde que por "crise" se entenda uma necessidade acrescida de empregar serviçais, manipular negócios, comprar favores, calar dissidências e, em suma, utilizar o dinheiro de todos para assegurar o peso e a influência de uns poucos. .Porém, não se culpe exclusivamente o eng. Sócrates, ou sequer o PS. Os dois partidos comunistas gostariam de nacionalizar praticamente tudo, incluindo a mercearia que me vende a ração dos cães. E a própria direita é menos adepta da livre iniciativa do que a fama sugere. Ainda há dias, os três candidatos à liderança do PSD criticavam por conveniência a golden share na PT e lembravam por convicção a importância reguladora do Estado e o "interesse nacional". .Certo é que os governos passam e, chame-se-lhe "regulação", "interesse nacional" ou "polvo", o lastro estatal na economia permanece essencialmente imaculado, quando, como também acontece, não sofre dilatações. Perante uma conhecidíssima tradição pátria, é um bocadinho estranho que, face à descoberta das actividades lúdicas dos administradores "impreparados", um administrador experiente da PT se sinta "encornado". E é muito estranho que o cidadão comum não se sinta. O cidadão comum resmunga imenso mas, numa expressão coerente com a potência estilística do dr. Henrique Granadeiro, em última instância tende para o manso..Quinta-feira, 18 de Fevereiro.Um inocente às oito da noite.O eng. Sócrates irrompeu no início dos "telejornais" a clamar inocência na novela da PT e a revelar uma conspiração para abalar a sua inabalável pessoa. Não é exactamente um discurso inédito. Aliás, tenho a impressão de que, sempre que não está a inaugurar fábricas que fecham passados seis meses ou a constatar o progresso nacional, o primeiro-ministro está a queixar-se de cabalas arquitectadas por invejosos das suas proezas. .Nos quatro minutos da intervenção, o eng. Sócrates ainda teve tempo para se afirmar inamovível e condenar a divulgação das "escutas" pelo Sol. Talvez porque o Benfica jogasse às 20.05, já não houve tempo para condenar os escutados, os quais, por iniciativa própria, usaram o bom nome do eng. Sócrates de modo a congeminar um plano sujo, quase tão sujo quanto as campanhas que teimam em perseguir um homem digno, generoso e inocente nos vários sentidos da palavra..Curioso. Se amanhã a Trombeta das Beiras noticiar que uma quadrilha de ladrões diz roubar auto-rádios em meu benefício, não será com a Trombeta que me zangarei. Mas eu sou um reles mortal. O eng. Sócrates não é. Por isso chegou ao lugar que ocupa, do qual, na cabeça dele e cada vez mais apenas na cabeça dele, nunca ninguém o há-de tirar. .Sexta-feira, 19 de Fevereiro.Se o dr. Nobre não existisse.Talvez seja um sintoma do curioso estado a que o País chegou, mas além de cumprirem os preceitos constitucionais (idade, nacionalidade, etc.), até ver todos os candidatos confirmados às próximas "presidenciais" convergem num critério: são apreciadores de "Che" Guevara. .Manuel Alegre manifestou a reverência através de um longo poema que ocupa um livrinho de 40 páginas (aliás bem bonito: "De todos os guerrilheiros / ele é o único insepulto / nem sequer se sabe se ressuscitou / ao terceiro dia / Não está em parte nenhuma / o que significa que pode estar em toda a parte"). Fernando Nobre escolheu o elogio em prosa, e declara sentir "certa admiração" pelo seu "colega de profissão", cujo fascinante exemplo o inspira a acreditar que "muitas vezes isto só se resolve com metralhadora" (entrevista à Notícias Magazine, 21 de Setembro de 2008). .Diga-se que Ernesto Guevara não é o único psicopata que entusiasma o dr. Nobre, que noutras ocasiões confessou prezar bastante o Hezbollah, agremiação composta por, cito, "gente qualificada, professores universitários, muitos médicos". Por este andar, é possível que o dr. Nobre acabe a gostar do velho Mengele. O dr. Nobre apenas não gosta de Israel, dos Estados Unidos e, vá lá, do Ocidente em geral, que responsabiliza por cada mal da Terra, incluindo o de oprimir o Islão e o de excitar o respectivo fundamentalismo, que estava tão sossegadinho, coitado. O mundo restante é um paraíso onde as chatices se resolvem a tiro e onde não prosperam aberrações como democracias, partidos e as "politiquices" (sic) de que o dr. Nobre, do alto das autoproclamadas "multiculturalidade" e "mundivivência" (?), garante fugir. .Não fugiu o suficiente. Só nos últimos anos o dr. Nobre apoiou activamente políticos de três partidos diferentes e agora concorre a uma eleição democrática, consta que a pedido de Mário Soares para irritar Alegre. O discurso de apresentação, naturalmente populista e assustador, foi uma demorada elegia a Portugal e, o que não espanta em quem prefere a acção à teoria, um atentado de metralhadora em riste contra a língua portuguesa. Do que consegui decifrar, ouvi o santo fundador da AMI prometer que a candidatura "não será inútil". O prof. Cavaco concorda. Se o dr. Nobre não existisse, não teria de ser inventado..Sábado, 20 de Fevereiro.O poder amordaçado.Se os objectivos da Comissão parlamentar de Ética são ridicularizar o assunto que a levou a reunir-se e promover o livro de Mário Crespo, a comissão cumpriu os objectivos - com o bónus de nos elucidar sobre o nível médio dos nossos representantes..Na audição de Crespo, por exemplo, uma deputada socialista inverteu os termos em análise e avisou, com ar alvoroçado, para o perigo de se abolir a livre expressão dos governantes. Ainda por cima, a excêntrica lembrança não foi um alívio pessoal da senhora: a recente convocatória por SMS de uma manifestação "espontânea" de apoio ao eng. Sócrates, a realizar na memorável Fonte Luminosa, também referia a urgência em proteger "a democracia e a liberdade"..Aparentemente, há por aí gente convencida ou interessada em convencer os outros de que o primeiro-ministro que manda no país há cinco anos, quase todos com maioria absoluta na AR, está a ser alvo de uma campanha para o silenciar. Por acaso, julgo que a campanha, a existir, visa fazer com que o eng. Sócrates fale, e fale bastante mais do que as trivialidades sentimentais com que responde às acusações de interferência nos media..De qualquer modo, mesmo os governos formalmente democráticos possuem demasiado poder para necessitar de aclamações populares, de resto típicas de ditaduras e regimes afins. O PS, ou os que tomam as dores do PS, não percebe esta evidência. O povo, incluindo o povo que aprecia o eng. Sócrates, talvez perceba, e por isso não terá comparecido a uma manifestação entretanto cancelada por falta de espontâneos. Ou então pela brutalidade da censura, hipótese a esclarecer sem demora e, literalmente, sem olhar a meios: sugiro nova reunião da Comissão de Ética..Pequeno-almoço incluído.No meio de tantos milhões desviados para aqui ou para ali, já acho irrelevante distinguir se o sr. Luís Figo recebeu ilicitamente 750 mil euros para apoiar o PS, se recebeu licitamente (?) 250 mil para promover uma coisa chamada Taguspark, de que a PT é fatal accionista, ou se não recebeu nada de ninguém. Triste é viver num país e numa época que acreditam, com razão, no peso eleitoral de uma "celebridade", no caso uma "celebridade" da bola e com palmarés interessante em matéria de seriedade contratual. "Essa merda", explica numa das "escutas" o actual secretário de Estado da Defesa, "vale muitos votos". A fotografia que junta o sr. Figo e o eng. Sócrates ao pequeno-almoço é o retrato do que somos e do que merecemos.