O jornalista Nuno Saraiva não apreciou que o leitor Francisco Santos tenha insinuado que "este senhor deve ser um delegado da Fenprof aí no DN". Embora o leitor reconheça que a insinuação "é um abuso", que pede que lhe seja relevado, percebe-se que o jornalista não tenha gostado daquilo que considerou "um insulto": para um profissional de informação que se preze, é de enorme gravidade qualquer sugestão no sentido de práticas menos transparentes e isentas..Os termos do protesto do leitor - e já iremos à substância da matéria hoje em causa - justificam esta nota introdutória. O provedor chama a atenção de todos aqueles que se lhe dirigem, recomendando sobriedade e rigor no verbo. Pode-se - e muitas vezes deve-se... - protestar ou mesmo manifestar indignação sem, forçosamente, insultar ou pôr em causa a dignidade profissional dos autores dos textos. É certo que muitas vezes se trata de exercícios mal conseguidos de ironia, o que só comprova que nem todos têm o talento suficiente para tais exercícios..Passemos, então, à "substância". Na edição de 18 de Dezembro, um título secundário na primeira página do DN afirmava: "Governo reduz avaliados para dividir professores." Um texto breve sustentava o título: "Ministério da Educação retirou da avaliação docentes perto da reforma e aumentou quadros. Estratégia é dividir para esvaziar manifestação.".O citado leitor Francisco Santos - e ainda José Eduardo Carvalho, que se identifica como professor universitário - contesta o "carácter opinativo" do trabalho do jornalista Nuno Saraiva, desenvolvido nas páginas interiores. E explica: "Normalmente, a opinião do jornal vem expressa no editorial e portanto não se trata disso. E a pergunta que me ocorre é a seguinte: então agora os jornalistas do DN já interpretam à sua maneira as decisões do Governo? Não deveria ter-se limitado a apresentar as notícias deixando a interpretação para os leitores? Quem lhe disse a ele que a intenção do Governo é dividir os professores? 'Governo aposta tudo na divisão dos professores', vem lá em letras grande e gordas! Acho que o caso estaria correcto se fosse resultado de qualquer entrevista, na qual o entrevistado emitisse aqueles juízos. Mas o próprio jornalista ( suponho que o seja ) a noticiar e a interpretar? Ainda se fosse um trabalho de opinião...".A pedido do provedor, Nuno Saraiva comenta: "A informação está devidamente sustentada com citação de uma fonte do Governo logo no primeiro parágrafo do referido artigo, pelo que a reafirmo na totalidade. Enquanto jornalista recuso a ideia de um jornalismo acéfalo e sem 'inteligência' que se dispense ou demita da interpretação dos factos. Isso não é próprio do tempo que vivemos. Era norma de um tempo em que os jornais se faziam exclusivamente de notícias construídas na base do 'fulano disse', 'sicrano afirmou' e 'beltrano respondeu' (...).".O provedor procedeu a uma análise cuidadosa do texto da polémica e não tem dúvidas em considerar que se está perante uma peça bem construída, em que o jornalista procura ir além do que é público e óbvio, fornecendo aos leitores elementos suplementares de entendimento sobre o que está em causa. Percebe-se que alguns leitores do DN tenham dificuldade em sintonizar-se com este tipo de "jornalismo interpretativo", em Portugal cultivado sobretudo pelos semanários - e que foi, por sinal, a razão principal que explica a sua crescente influência e implantação face aos jornais diários, transformados, ao longo de anos, em veículos de repetição das notícias televisivas da véspera..A argumentação de Nuno Saraiva tem, mesmo assim, uma vulnerabilidade. A fonte governamental citada limita-se a considerar as medidas tomadas como "uma rearrumação do tabuleiro de xadrez", o que é pouco para se afirmar, apenas com base nessa declaração, que o "Governo aposta tudo na divisão dos professores", como se diz no título principal da página 6 - embora a conclusão seja óbvia e justificada por todos os elementos informativos contidos no desenvolvimento da peça..Para que não fiquem dúvidas aos leitores, o provedor deixa claro que não tem qualquer tipo de preconceito ou coloca reservas a que o DN explore, com maior frequência, os caminhos do "jornalismo interpretativo", uma das alternativas do caminho, estreito, que hoje se depara à imprensa escrita. Assim, os seus jornalistas tenham a noção dos riscos do exercício e das precauções suplementares que a sua prática impõe.