Timbre de aparente conhecedora da obra daquele que chegou a ser apelidado como «o maior pintor vivo», em frente de Untitled (Two Figures In the Grass) a dama proclamava perante a amiga: «Este é lindíssimo!» A partir das dez da noite de hoje, quando fecharem as portas do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS), mais nenhuma voz se pronunciará sobre as formas humanas e simiescas retorcidas ou comentará os pormenores das cortinas e grades pintados por Francis Bacon..Êxito de público, a exposição caged/uncaged tinha sido vista, até terça-feira, por cerca de 93 mil pessoas. O balanço final deve ultrapassar os 104 mil visitantes registados com In the Rough, Imagens da Natureza Através dos Tempos na Colecção do Museu Boijmans Van Beuningen, que inaugurou a programação da Capital Europeia da Cultura e tinha pulverizado os 75 mil bilhetes entregues, no ano 2000, para a exposição Andy Warhol: A Factory..O sucesso da primeira grande mostra de Francis Bacon em Portugal arrastou famílias inteiras até Serralves. Uma mãe chamava a atenção da filha pequena para certas linhas de Study After Velasquez.Afinal, aquele quadro de 1950, que Bacon pintou inspirado no Retrato do Papa Inocêncio X do mestre espanhol, foi apreciado por 35 mil alunos nas visitas de escolas - um fluxo que representava, a 15 de Abril, 38 por cento das entradas. .A média diária dos que tentavam conferir se na paisagem daquele quadro cedido pelo parisiense Centre Georges Pompidou estava mesmo Van Gogh (Van Gogh in a landscape, de 1957) era, no princípio desta semana, 1250 pessoas. Mas, desde terça-feira, o MACS alargou o horário até às 22 horas, devido à invulgar afluência da última mostra concebida no Porto por Vicente Todolí, o seu trabalho de despedida do museu que ajudou a criar. Aliás, logo no fim-de-semana de abertura entraram 7800 pessoas. .Na vernissage destacavam-se três nomes. O arquitecto inglês Sir Norman Foster, galardoado com o Prémio Pritzker de 1999, que pisava o edifício de Álvaro Siza, o Pritzker de 1992. O principal responsável da Tate Gallery, Sir Nicholas Serota, cuja Tate Modern tem agora à sua frente Todolí, também estava presente na inauguração.E ainda o galerista americano Tony Shafraze (com um currículo feito com mostras de nomes da transvanguarda, como Cuchi e Chia, ou vultos do graffiti, como Basquiat e Haring), responsável do legado (Estate) de Bacon, de onde vieram algumas das cerca de 50 peças montadas em Serralves, e que expôs as telas do pintor britânico em 1998 e 2002 - e a primeira destas exposições, intitulada Important Painting from the Estate, teve um catálogo com textos de David Sylvester, Sam Hunter e Michael Peppiatt e fotos de John Deakin..Depois, entre as multidões que se afastavam para melhor apreciar o grande tríptico Three Portraits, de 1973, e assim comparar as feições do retrato póstumo do seu amante George Dyer, do auto-retrato de Bacon e do retrato do pintor Lucian Freud; ou se aproximavam para apreciar melhor algum detalhe, fosse o relógio ou as pernas das cadeiras, de Two Seated Figures, de 1979, aparecia, por exemplo, o cineasta Paul Thomas Anderson, autor desse filme de culto que é Magnólia. Além de galeristas e coleccionadores a invejar um Figure with Monke, directores de museus e visitantes anónimos a admirar Jet of Water ou Oedipus..Quase em murmúrio, a namorada ouvia a explicação sobre Study for Portrait III (After the Life Mask of William Blake), em gestos largos um marido evidenciava certos aspectos de Untitled (variante do painel da direita do tríptico Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion, a obra que, mostrada na Tate Gallery em 1945, tornou famoso o pintor nascido em Dublin no ano de 1909) e uma miudinha caminhava com o folheto na mão rumo a um Self Portrait desse vulto maior das artes plásticas na segunda metade do século XX..Na próxima semana, retiradas cuidadosamente das paredes, acondicionadas com mil precauções, as telas com as «fantasias-pesadelo» de Bacon voltam para as colecções privadas suíças e inglesas ou para os museus europeus e americanos.